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Lauro Bacca: Uma crônica sobre o dia em que conheci as formigas-correição

Ambientalista escreve sobre as populares “taiocas” que conheceu em Manaus (AM) e, dezenas de anos depois, reencontrou no Vale do Itajaí

05/10/2021 - 14h59

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Redação
Por Redação Santa
As formigas-correição também são chamadas de "taioca" no Vale do Itajaí.
As formigas-correição também são chamadas de "taioca" no Vale do Itajaí.
(Foto: )

Por Lauro Eduardo Bacca, presidente da Acaprena (Associação Catarinense de Preservação da Natureza), naturalista e ambientalista

Conheci as formigas correição, também chamadas de taioca, no tempo do mestrado em Manaus (AM), dentro da pequena reserva natural onde morávamos no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa). 

Assim como visitantes mal-educados, chegaram em hora imprópria, de madrugada. Nos acordaram, eu e esposa, percorrendo nossos rostos. Mantendo a calma, saímos da cama e fomos para a rua, expulsos pelo exército que invadia nossa casa, partilhada com outro casal que fez o mesmo.

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Luzes acesas, espetáculo revelado: dezenas de insetos, entre eles algumas baratas, além de aranhas e outros invertebrados tentavam em vão escapar da caçada implacável das correição, que iam capturá-los em qualquer frestinha que tentassem se esconder, no chão, nos móveis, no banheiro e até no teto. Foi uma limpeza geral, uma espécie de inseticida natural e saudável.

Na casa ao lado, o susto fez o casal vizinho, menos tranquilo, se precipitar na aplicação de inseticida ao redor das portas e janelas para impedir o acesso das indesejadas. Foi pior. As milhares de formigas que já se encontravam do lado de dentro não saíram mais, enquanto que, na nossa casa, bastou esperar cerca de meia hora e todas haviam sumido como entraram e com o serviço grátis de “dedetização” feito!

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De volta a Blumenau, nas andanças pelas matas, volta e meia encontrávamos esses exércitos caminhando freneticamente aos milhares, em caçadas implacáveis que podem vitimar cerca de 100 mil insetos, aranhas e similares por dia. Com os alunos da Furb em aula prática de campo, encontramos um carreiro desses na subida ao morro Spitzkopf, em Blumenau. Quatro horas depois, já descendo, o carreiro ainda estava ali, sugerindo um total de muitos milhares de formigas.

Recentemente, tive a oportunidade de apresentar essas criaturas ao neto, em nossa casa, na RPPN Reserva Bugerkopf, em Blumenau. Um impressionante carreiro não parava de passar pela frente de nossa garagem. Desta vez encontrei o bivaque onde elas pernoitaram em forma massa esférica maior que bola de basquete feita só de formigas, capazes, cada uma, de dolorida ferroada. Bem ali, em meio a área de compostagem, a poucos metros da garagem.

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Confortavelmente instalado, quase que de camarote, inicialmente junto com o neto, calculamos 20 ou 21 formigas passando por segundo, sem parar, lembrando aqueles filmes acelerados de multidões de pessoas circulando pelas largas calçadas de uma grande cidade. Das 16 horas, até quase meia noite, oito horas depois, conferi de 15 em 15 minutos e o frenético desfile não parava, parecia interminável. Só até ali, foram de 576 mil a 605 mil formigas.

Fui dormir pensando nelas. De repente, olhos arregalados, pulo sentado na cama. Sem querer, me ocorre uma medonha imagem, evocada por um número bem semelhante, em que cada uma daquelas formigas representava a passagem de um féretro sem fim, de brasileiros mortos pela pandemia da Covid-19.

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