Nova CPMF e mudança no abono salarial: o que Paulo Guedes quer discutir depois das Eleições

Ministro da Economia indica que irá insistir em medidas já descartadas pelo presidente Jair Bolsonaro

Compartilhe:

Ministro da Economia, Paulo Guedes. (Foto: Alan Santos, Governo Federal)

Após as eleições, que suspenderam debates sobre programas sociais e medidas para a retomada da atividade, o ministro Paulo Guedes (Economia) deve insistir em propostas estudadas pela pasta já vetadas pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

Continua após a publicidade

O pacote defendido por Guedes ainda inclui reduzir benefícios como o abono salarial — que foi classificado pelo presidente como “tirar de pobres para dar a paupérrimos” — e possibilidade de congelamento de benefícios, além da criação de um imposto nos moldes da CPMF.

> Receba notícias por WhatsApp. Clique aqui e saiba como

Continua após a publicidade

Ele diz a auxiliares que há saídas simples para equilibrar o Orçamento e ampliar o Bolsa Família. Para ele, só falta decisão política para adotar as medidas, já consideradas excessivamente amargas pela ala política do governo.

Guedes afirmou a interlocutores que a base da ampliação do programa deve consolidar 27 benefícios já existentes e deve ser feita dentro do teto de gastos. Sem isso, ele declara que o novo programa não será criado.

A equipe econômica decidiu manter planos de mudar o abono — espécie de 14º salário pago a quem ganha até dois salários mínimos. Em conversas, o ministro disse que o benefício poderia ser incorporado ao novo programa, rendendo até R$ 20 bilhões. Uma alternativa é limitar o pagamento a quem recebe até 1,4 salário mínimo — com resultado de R$ 8 bilhões nas contas.

Propostas de mudança no benefício, entretanto, já provocaram choques públicos entre o presidente e a equipe econômica.

Continua após a publicidade

Ao saber da ideia, em agosto, Bolsonaro mandou suspender o novo programa.

Guedes estuda outras medidas para ampliar a arrecadação. Uma é extinguir o desconto de 20% a contribuintes que optam pela declaração simplificada do Imposto de Renda.

Continua após a publicidade

Nesse caso, ainda teria que cortar em outras áreas para abrir espaço no teto que limita o aumento de despesas públicas à variação da inflação.

O “miniatrito” com o presidente

Guedes insiste na ideia de desvincular, desindexar e desobrigar o Orçamento –também vetada por Bolsonaro. Isso permitiria que o salário mínimo não seja mais corrigido pela inflação e que benefícios previdenciários sejam congelados. Hoje, o reajuste desses valores é automático, determinado pela Constituição.

Continua após a publicidade

Essa proposta gerou atrito entre o time de Guedes e Bolsonaro. Em setembro, o presidente barrou a proposta.

— Jamais vamos congelar salários de aposentados, bem como jamais vamos fazer com que os auxílios para idosos e para pobres com deficiência sejam reduzidos para qualquer coisa que seja — disse.

Continua após a publicidade

— Quem vier propor a mim uma medida como essa, eu só posso dar um cartão vermelho para essa pessoa.

Em reuniões, porém, Guedes tem dito que a tendência é o Bolsa Família ficar como está se a mudança não for feita.

Continua após a publicidade

Um ministro com trânsito no Palácio do Planalto afirma que o presidente concorda com Guedes em que qualquer nova medida deve respeitar o teto de gastos.

Segundo relatos, Bolsonaro está alinhado a Guedes e diz que só haverá novo programa nos limites da regra fiscal.

Continua após a publicidade

Sem jeitinho na ampliação do Bolsa Família

Na quarta-feira (7), o presidente disse que não haverá “jeitinho” na ampliação do Bolsa Família e que a palavra final em decisões econômicas é dele e de Guedes.

Contra opositores, Guedes tem argumentado que o sistema econômico exige manter o rigor fiscal, independentemente das razões dos que pressionam por novos gastos.

Continua após a publicidade

Ele avalia que ampliar despesas para financiar programas sociais, mesmo que seja um motivo nobre, traria impactos nocivos para o país.

Guedes argumenta que uma eventual quebra do teto de gastos levaria a uma perda de confiança dos mercados no país, com efeito negativo imediato sobre os juros, a inflação e a capacidade do governo de gerir a dívida pública.

Continua após a publicidade

O novo programa chegou a ser anunciado como Renda Cidadã, mas gerou forte reação negativa entre investidores e congressistas por bancar a assistência limitando pagamento de precatórios — dívidas reconhecidas pela Justiça.

Guedes admitiu que essa ideia partiu de sua equipe, mas que não tinha relação com o Renda Cidadã. Mesmo com as críticas, ele mantém a ideia de restringir essas despesas. Argumenta, porém, que a limitação só atingirá grandes débitos e respeitará a lei.

Continua após a publicidade

Insistência na “Nova CPMF”

Na área do emprego, ele vai insistir na troca de encargos trabalhistas por um imposto sobre transações nos moldes da CPMF — tributo visto com ressalvas pelo presidente e criticado por congressistas.

Sem ele, Guedes afirma que a redução da tributação sobre as empresas não será feita.

Continua após a publicidade

A discussão sobre o novo imposto chegou a ser proibida por Bolsonaro e levou à demissão do então secretário da Receita Federal Marcos Cintra, em setembro do ano passado.

Depois, Guedes conseguiu convencer o presidente a testar a medida, mas a resistência de parlamentares ainda é um entrave à proposta. Sem acordo, a ideia não foi apresentada formalmente.

Continua após a publicidade

Em reunião interna, o ministro reconheceu que o imposto não é bom e traz cumulatividade, mas argumentou que os encargos sobre a folha salarial existentes hoje são ainda mais pesados.

No caso da nova CPMF, a equipe mantém nos planos um mecanismo politicamente delicado. Os responsáveis pela criação do tributo dizem que deve incidir inclusive sobre operações feitas por igrejas.

Continua após a publicidade

Meses antes de ser demitido, Cintra enfureceu líderes evangélicos que apoiam Bolsonaro, por dizer que até os dízimos recolhidos nos templos seriam taxados. O presidente o desautorizou, dizendo que “nenhum novo imposto será criado, em especial contra igrejas”.

Por Bernardo Caram e Bruno Boghossian