Prefeituras recuam de termo de consentimento para vacinar crianças contra Covid

Decisões foram tomadas depois de uma enxurrada de críticas das famílias e de questionamentos de Promotorias de Justiça

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Vacinação infantil contra a Covid começou em janeiro de 2022 (Foto: Tânia Rêgo, Agência Brasil, 26.01.2022)

As prefeituras de Curitiba, Salvador além de cidades do interior do Rio de Janeiro e do Rio Grande do Sul, recuaram da exigência da assinatura de um termo de consentimento cobrado aos pais, para aplicação da vacina contra Covid-19 em crianças de 5 a 11 anos.

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Na maioria dos casos, a decisão foi tomada depois de uma enxurrada de críticas das famílias e de questionamentos de Promotorias de Justiça. A exigência do documento não é uma regra e cabe às prefeituras decidirem sobre o documento. O Ministério da Saúde orienta que o termo de consentimento só deve ser exigido quando pais ou responsáveis não estiverem presentes durante a vacinação.

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Especialistas atestam que a exigência do documento para todas as crianças imunizadas impõe entraves à campanha de vacinação e aumentam a hesitação em relação às vacinas.

Suspensão de exigências após manifestação do MP

Em Salvador, a prefeitura suspendeu a exigência após um pedido de explicações do Ministério Público do Estado da Bahia. A medida — casada com a cobrança das cópias de documentos — causou reclamações dos pais.

O documento, contudo, segue sendo exigido nos casos em que os pais estiverem ausentes no ato da vacinação — a pessoa responsável pela criança terá que apresentar o termo assinado por um deles. Também permanece a cobrança da apresentação de cópias de documentos, tanto de um dos pais quanto das crianças.

Em despacho, os promotores registraram que a exigência do termo poderia “representar embaraços à operacionalização da campanha de imunização e, consequentemente, ao seu avanço em Salvador”.

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O subsecretário municipal de Saúde, Decio Martins, argumenta que a pasta reviu a decisão porque discussões em torno do documento, que, segundo ele, chegou a ser acertado com o MP-BA, mesmo órgão que orienta o registro da presença de um dos pais na vacinação.

 — Como vamos comprovar que o pai ou a mãe realmente esteve lá? Até porque há pais que discordam da vacina — disse.

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E citou o caso do próprio prefeito de Salvador, Bruno Reis (DEM), que afirmou nesta sexta-feira (4) que dois de seus três filhos em idade de vacinação não tomaram o imunizante por decisão de sua ex-mulher, mãe das crianças.

— O exemplo mais claro é que prefeito Bruno Reis concorda, mas a ex-mulher, que é médica, não. Imagine outros casos que não são públicos? — emendou.

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Curitiba também chegou a adotar um termo de consentimento no início da vacinação infantil, mas alterou o documento na semana passada, depois de recomendação do Ministério Público do Paraná.

O documento atual pede apenas preenchimento de dados gerais da criança e dos pais ou responsáveis. Nos documentos já impressos, a parte que falava em consentimento ou recusa foi eliminada, segundo Flávia Quadros, superintendente de Gestão em Saúde da Secretaria Municipal da Saúde de Curitiba.

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Ela explica que um documento similar foi adotado desde o início da campanha de vacinação na capital paranaense, ainda no ano passado, para evitar “sommeliers de vacina” e para registrar casos de idosos, vivendo em instituições de longa permanência, que se recusaram a receber o imunizante.

Em Rio Grande (317 km de Porto Alegre), o termo de consentimento foi suspenso na semana passada.

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O município havia adotado a mesma medida quando iniciou a vacinação de adolescentes, no ano passado, segundo a prefeitura. A Secretaria Estadual de Saúde respondeu que segue as orientações do Ministério da Saúde.

O Conselho Estadual das Secretarias Municipais de Saúde do Rio Grande do Sul diz que não há orientação do Ministério da Saúde sobre a apresentação de documentos do tipo e entende que a assinatura não é necessária. Além disso, ressalta o conselho, as vacinas aplicadas em crianças têm aprovação da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) para o uso.

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No Rio de Janeiro, o Ministério Público estadual recebeu denúncias sobre a aplicação de termos de consentimento para a vacinação infantil em pelo menos quatro cidades: Nilópolis, Magé, Itaguaí e Araruama.

Em todos esses casos, o MP instaurou procedimentos para apurar a cobrança do termo, documento que não é exigido pelo Ministério da Saúde.

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Prefeituras alegam exigência (inexistente) do Ministério da Saúde

Em geral, representantes das prefeituras alegam que há exigência do Ministério da Saúde, o que não é verdade. Foi o que disse, por exemplo, a coordenadora de imunização de Itaguaí, Núbia Graziela, em uma transmissão nas redes sociais.

— Esse termo não é uma exigência da prefeitura. Ele está previsto pelo Ministério da Saúde, porque tem que ser consentida essa vacinação — disse.

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Após a repercussão negativa, o município suspendeu a aplicação do termo no dia 24 de janeiro. Medida parecida adotou Nilópolis, que estava aplicando um documento batizado de “termo de assentimento livre e esclarecido”.

Além de pedir a assinatura dos pais e responsáveis, o termo recomendava que estes buscassem orientação médica caso os filhos apresentassem dores no peito, falta de ar e palpitações. Especialistas dizem que esse tipo de recomendação cria medo entre os pais e desestimula a vacinação.

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Em nota, a prefeitura diz que não solicita o termo desde 25 de janeiro. “Como em outras cidades, o fato ocorreu devido a um mal-entendido em um dos pontos do Plano Nacional de Imunização. Reafirmamos ainda o nosso compromisso com a vacinação das crianças, bem como de toda a população.”

Além do Ministério Público do Rio, a Defensoria Pública da União também recomendou que os municípios do Rio dispensem o termo de consentimento, restringindo sua aplicação apenas à ausência dos pais ou responsáveis.

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Presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações, o pediatra Juarez Cunha diz que a aplicação desses termos impõe entraves à campanha de vacinação.

— Os municípios exigirem isso só aumenta a hesitação vacinal. Esse documento é mais um motivo para aqueles pais que estão em dúvida por causa de notícias falsas sobre as vacinas atrasarem ainda mais a vacinação de seus filhos.

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O especialista diz que o próprio governo tem ajudado a criar um ambiente de incerteza em relação à vacinação infantil. E reforça ainda que os imunizantes são seguros e que é essencial vacinar as crianças.

Ele explica que um novo pico de infecções deve acontecer em meados de fevereiro e afetar, sobretudo, os não vacinados, grupo no qual estão as crianças. — Isso nos preocupa muito. Se aumentarem os casos como está previsto, nós teremos falta de leitos para essas crianças — afirma.

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