TCU aprova privatização da Eletrobras

Decisão dá passe livre para o governo abrir mão do controle da maior empresa de energia da América Latina

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Como costuma ocorrer em momentos decisivos nos processos de privatização, as horas que precederam o julgamento foram tensas (Foto: Marcelo Camargo / Agência Brasil)

O Tribunal de Contas da União (TCU) aprovou o processo de privatização da Eletrobras por 7 votos a 1 no julgamento desta quarta-feira (18). A decisão dá passe livre para o governo abrir mão de controlar a maior empresa de energia da América Latina.

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O resultado do julgamento é uma vitória do ministro Paulo Guedes (Economia), que agora tem caminho aberto para executar a privatização de uma empresa inteira antes do fim do mandato de Jair Bolsonaro (PL). O desafio agora é fazer a operação mesmo com as condições adversas no mercado.

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Votaram favoravelmente ao processo o relator Aroldo Cedraz e os ministros Benjamin Zymler, Bruno Dantas, Augusto Nardes, Jorge Oliveira, Antonio Anastasia e Walton Alencar Rodrigues. O ministro Vital do Rêgo Filho votou contra.

— Esta foi uma sessão histórica — afirmou Cedraz. — Não tenho qualquer dúvida que as próximas gerações vão reconhecer os esforços do TCU para proteger o Estado e a sociedade com a possibilidade de modernizar o setor elétrico brasileiro — concluiu.

Como costuma ocorrer em momentos decisivos nos processos de privatização, as horas que precederam o julgamento foram tensas.

Ainda na noite de terça-feira (17), causou apreensão o voto do ministro Walton Alencar. Ele defendia uma mudança no cronograma nos aportes da Conta de Desenvolvimento Econômico (CDE), que buscam reduzir o peso dos encargos e aliviar a conta de luz.

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Alencar propôs que não houvesse o repasse de R$ 5 bilhões, previsto para 2022.

A lei de desestatização não traz um cronograma, então, a mudança, na análise do ministro seria um ajuste fino que não comprometeria o processo.

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Bancos que acompanham a oferta, no entanto, alertaram para outro risco: o calendário atual foi submetido à assembleia geral extraordinária (AGE , e a mudança poderia levar a nova assembleia, o que adiaria a capitalização em até 50 dias, jogando o prazo para um limite perigoso.

No final da manhã, circulou a informação de que a Eletrobras seria tirada da pauta do julgamento do dia. Na verdade, o ministro relator, Aroldo Cedraz, recebeu solicitação nesse sentido, mas não concedeu.

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Houve protestos também. Um grupo se concentrou na entrada da sede do TCU, em Brasília, para se manifestar contra a venda.

Voto divergente lista ilegalidades

Na abertura do julgamento, o ministro Vital do Rêgo Filho propôs, antes mesmo de apresentar o seu voto divergente, uma discussão preliminar.

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Reforçou que o tribunal já havia autorizado a realização de fiscalização dos procedimentos adotados pela Eletrobras para provisionamento de contingências relacionadas a demandas judiciais do empréstimo compulsório de energia, observando o balanço do terceiro trimestre de 2021.

Como o resultado dessa fiscalização poderia alterar o valor da companhia, ele propôs sustar o julgamento. Essa proposta preliminar, porém, foi rejeitada por sete votos a um.

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Em seu voto divergente, Vital do Rêgo apresentou uma lista do que chamou de irregularidades.

Destacou, por exemplo, os dividendos devidos pela Eletronuclear à União. Segundo ele, criam distorções, e precisam ser pagos antes da para não gerar problemas futuros. Estão acumulados, desde 2010, R$ 2,7 bilhões em dividendos não pagos.

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Pela proposta, ENBPar, uma nova estatal, controlada pela União, vai assumir as operações da área nuclear, mas Rêgo reforçou que, se no futuro os dividendos devidos forem pagos, ao final, a nova Eletrobras será titular das maioria das ações ordinárias e preferenciais da Eletronucelar, todas com direito a voto, enquanto não houver o pagamento.

— A política nuclear brasileira vai ser privatizada — diz Vital do Rêgo. — Não me diga que vamos acertar depois, precisa ser visto antes — afirmou.

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Sobre o tema, também questionou a ausência de consulta aos órgãos responsáveis pela Política Nacional Nuclear, em especial a recém-criada Autoridade Nacional de Segurança Nacional.

O ministro questionou também o valor declaro para Itaipu. Foi calculado que ela vale, pelo capital social, e não pelo fluxo de caixa, R$ 1,2 bilhão. Essa subavaliação ajuda a melhor o valor da ação da nova Eletrobras e, ao mesmo, tempo facilita a aquisição do governo. Mas, reforçou o ministro, Itaipu tem um valor muito maior.

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O ministro questionou ainda as avaliação independentes, que teriam cometido erros na estimativa de preço de venda de longo prazo. Entre os exemplos estavam os valores de Furnas, Chesf, Eletronorte e Ceteep, de transmissão, cujo resultado seria R$ 9,3 bilhões adicionais, afirmou o ministro.

Outra diferença de avaliação que reforçou foi a da dívida. Ocorreu uma diferença de R$ 30,64 bilhões no cálculo do endividamento líquido ajustado da Eletrobras, disse ele.

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“Não sobraram miudezas para discutir”, afirmou Vital do Rêgo Filho. “Temos erros de R$ 40 bilhões que precisam ser revisados antes de concluir essa privatização”

VOTOS A FAVOR

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Os ministros contemporizaram que os estudos e dados apresentados pelo ministro de Vital do Rêgo Filho ampliaram o debate e aprofundaram a discussão. No entanto, tratavam de questões que poderiam ser debatidos, mas não eram suficientes para negar a continuidade do processo, por causa dos benefícios que a privatização trariam ao país.

O ministro Bruno Dantas, por exemplo, afirmou que a valuation da companhia deixou a desejar, de fato, mas que o mercado faria os ajustes necessários, e que o país precisava de uma empresa de energia moderna e capaz de investir. A privatização era o caminho para isso, defendeu.

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“A economia de mercado vai dar condição para que o Brasil possa alavancar a sua competitividade”, disse Augusto Nardes, acompanhado os demais ministros.

O ministro Jorge Oliveira destacou o processo de amadurecimento do processo. “Eletrobras esta indo para uma privatização que não é clássica, mas está indo com alta vantagem para o país”, disse. “O Estado brasileiro não está entregando de bandeira um patrimônio, a União terá parte do resultado dos avanços que serão gerados pelo setor privado nessa capitalização.”

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Governo corre contra o relógio para cumprir prazo de privatização Agora, o governo corre contra o relógio para fazer a operação o quanto antes. O próximo passo é fazer o registro da operação na CVM (Comissão de Valores Mobiliários, autarquia responsável por fiscalizar o mercado) e na SEC (Securities and Exchange Commission, a CVM americana).

A necessidade de avisar o regulador dos Estados Unidos existe porque a empresa tem ações negociadas naquele país e, por isso, ambos os órgãos (CVM e SEC) precisam receber as informações.

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Paralelamente ao pedido na CVM, já seria iniciada a etapa de apresentações em série aos investidores (o chamado “road show”, que tem como objetivo atrair interessados). O governo já tem tido encontro com potenciais investidores.

Nas últimas semanas, membros do governo e da empresa afirmaram que há possibilidade de fazer a operação entre junho e o início de julho.

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A data limite seria em meados de agosto, considerando o prazo legal de operações após a divulgação de balanços.

Membros do Executivo e da companhia ouvidos pela reportagem buscaram demonstrar uma visão otimista nas últimas semanas ao dizer que a privatização ainda pode acontecer mesmo após o pedido feito pelo TCU no mês passado por mais tempo de análise.

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Entretanto, as condições de mercado em 2022 são reconhecidas por membros de governo e empresa como o principal risco do processo. A aproximação do calendário eleitoral tende a aumentar a tensão entre investidores e pode, por consequência, inviabilizar a operação.

Quanto mais o tempo passa, maior o risco de turbulência e de a janela de oportunidade se fechar. Alguns integrantes do governo se questionam, inclusive, se essa janela já não se fechou -embora a última palavra seja de otimismo.

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O histórico de retração das ofertas em Bolsa em anos eleitorais desafia a operação da Eletrobras.

Levantamento do jornal Folha de S.Paulo com base em dados da B3 nos últimos 18 anos mostra que o número médio de operações cai 34% em anos de disputa pelo Palácio do Planalto. Considerando apenas segundos semestres, a quantidade média cai quase pela metade (46%) nos anos de corrida presidencial.

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A venda de ações da Eletrobras é crucial para o ministro Paulo Guedes (Economia), que prometeu privatizações durante a campanha de 2018 e depois se disse frustrado por não ter conseguido avançar no tema (apesar de várias subsidiárias, como da Petrobras, terem sido vendidas).

Para ele, a Eletrobras não tem capacidade para investir os valores necessários para atender a demanda energética brasileira ao longo dos próximos anos. A privatização, diz, mobilizaria recursos para diversificar a matriz de geração do país, tornar a geração mais limpa, recuperar bacias hidrográficas e destinar dinheiro até para a energia nuclear.

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Nas contas do ministro, a companhia precisaria investir cerca de R$ 15 bilhões por ano para manter a relevância na matriz energética brasileira, mas só consegue investir R$ 3,5 bilhões por ano. “A empresa não só se coloca em risco e vai perdendo essa fatia de mercado, [como] vai comprometendo a segurança energética brasileira”, disse neste mês.

Paralelamente, o pré-candidato à Presidência e líder nas pesquisas Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tem criticado a operação. “Espero que os empresários sérios que querem investir no setor elétrico brasileiro não embarquem nesse arranjo esquisito que os vendilhões da pátria do governo atual estão preparando para a Eletrobras, uma empresa estratégica para o Brasil, meses antes da eleição”, afirmou Lula em fevereiro em rede social.

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PASSOS PARA A PRIVATIZAÇÃO DA ELETROBRAS:

– Medida Provisória sobre o processo (concluído)

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– Lei decorrente da Medida Provisória (concluído)

– Estudos (concluído)

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– Audiência pública (concluído)

– Aprovação pelos acionistas (concluído)

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– Protocolo no TCU (concluído)

– Julgamento do TCU

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– Protocolo da operação na CVM e na SEC

– Apresentações para atrair investidores (“roadshow”)

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– Precificação (“pricing”)

– Operação na Bolsa

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*Reportagem de Alexa Salomão e Fábio Pupo