Carlos Sobral, de 25 anos, está há quatro meses em um intercâmbio em Lisboa, capital de Portugal, onde estuda Ciências da Comunicação no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP). Natural de Florianópolis, o estudante de jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) foi pego de surpresa com o apagão que atingiu cidades de Portugal e da Espanha nesta segunda-feira (28). Mesmo com o fornecimento de energia já normalizado, Carlos ainda enfrenta as consequências do problema nesta terça-feira (29).
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O governo português informou, nesta terça, que todos os 6,4 milhões de clientes tiveram o fornecimento de energia normalizado após o apagão nacional. Na Espanha, por volta das 4h de terça-feira (23h de segunda-feira, no horário de Brasília), 87,37% do fornecimento elétrico já havia sido restabelecido, segundo a operadora da rede REE.
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As consequências, por outro lado, continuam. A universidade onde Carlos estuda e faz as refeições durante a semana ainda está fechada. Nesta terça-feira, o estudante não terá aula e terá que ir a um supermercado para garantir a alimentação. No entanto, o comércio também teve mudanças devido ao episódio: os mercados, por exemplo, abriram mais tarde depois de passarem um dia fechado. Os portugueses tiveram que “se virar” com o que tinham nas residências, de acordo com o estudante.
— Quando a luz acabou, a gente não podia comprar comida, então era basicamente o que tinha em casa. O apagão me pegou de surpresa, porque a comida que eu tinha comprado eu consumi sábado e domingo. Na segunda-feira eu até tinha [comida] para fazer, mas os fogões e fornos daqui são todos elétricos — conta.
Na noite de terça-feira, a solução dos estudantes que moram próximos a Carlos foi de montar uma fogueira improvisada para tentar assar chouriço e linguiças, já que os meios de cozinhar envolviam energia.
Já as universidades fecharam porque os ônibus começaram a passar com menor frequência, só indo até determinados locais, segundo Carlos. O caos no trânsito se intensificou porque, na capital portuguesa, muitos dos carros são elétricos, o que faz com que o gasto de energia seja muito grande. Os semáforos também pararam de funcionar em todo o país, disse a polícia portuguesa na ocasião.

Apagão limitou contato e gerou temor por guerra
A segunda-feira começou como qualquer outra para Carlos. No entanto, quando ele estava na universidade, por volta das 11h30min, a luz foi embora.
— A princípio, a gente acreditava que seria só por aqui, por Portugal, tipo quando falta luz em casa e volta em uma hora — conta.
Depois, a falta de energia se desdobrou em pouco acesso à internet, e os dados foram limitados a emergências.
— As poucas notícias que tínhamos aqui era de que a Espanha, França, até Polônia e Finlândia tinham tido esse apagão. Tinha pessoas que achavam que era um ataque cibernético, e outras que acreditavam que foi um incêndio em alguma estação elétrica que sustentava alguns países — relata.
Em meio ao apagão também de informações, os moradores da cidade também não receberam nenhum tipo de alerta.
— Foi uma falta de energia que pegou não só a população, mas também o governo português e outros de surpresa. O que a gente teve depois do apagão foram alertas das operadoras, que começaram a informar que o acesso estava limitado e que as ligações só poderiam ser feitas para emergência, então só era praticamente para bombeiro e polícia. A gente também ficou sem acesso à internet o dia inteiro — continua Carlos.
Carlos descreve os momentos sem luz como aterrorizantes. Atualmente, na Europa, há muito medo do surgimento de uma guerra, principalmente após a Rússia mencionar que Portugal era um “local estratégico” algumas vezes:
— A Rússia tem um controle energético muito forte, mas que diminuiu um pouco depois da guerra da Ucrânia. A Europa já chegou a ser mais dependente, mas acabou buscando depois energia de outros lugares.
O receio dos cidadãos portugueses não é sem motivo. Desde a invasão russa à Ucrânia, em 2022, cresce o temor de que Moscou possa expandir a agressão a outros países da região, incluindo membros da Otan, que Putin já acusou de ameaçarem a existência da Rússia.
Em novembro do ano passado, Putin declarou que o conflito na Ucrânia atingiu proporções de uma guerra “global”. Em março deste ano, o ministro das Relações Exteriores da França, Jean-Noël Barrot, disse que “a linha de frente está cada vez mais próxima” da Europa, se referindo à guerra na Ucrânia.
— O risco de uma guerra no continente europeu nunca foi tão alto. A ameaça está se aproximando e a linha de frente está cada vez mais próxima — declarou Barrot em entrevista à rádio francesa France Inter antes do início de um debate no Parlamento sobre a guerra na Ucrânia e a segurança na Europa.
O temor da guerra é tanto que as pessoas que conseguiram ir ao mercado após o apagão, na segunda-feira, compraram tudo que era possível estocar, de acordo com o catarinense Carlos Sobral.
— Aqui em Portugal, e na Espanha também, tem se feito alertas e cartilhas de como se portar em períodos de guerra, porque tem essa ameaça. Ontem, muita gente achou que poderia ter sido um alerta de guerra, e acabou estocando água e comida — conta o estudante.
Foi por volta das 00h47min (20h47min, no horário de Brasília) que a luz voltou na região de Lisboa onde Carlos está morando.
Quando a energia e a internet voltaram, Carlos contatou os pais e os informou que estava bem. Antes disso, ele havia conseguido mandar mensagens para eles por um breve período de tempo, enquanto caminhava em busca de sinal de celular. Mas não foi somente de Portugal para o Brasil que o contato foi limitado.
— Não foi só uma coisa internacional. Foi por aqui mesmo, eu não conseguia me comunicar om pessoas que estavam na mesma zona que eu — pontua.

Caos nas cidades
Cidades de Portugal e da Espanha enfrentaram um apagão de energia elétrica na segunda-feira. O apagão começou por volta do meio-dia do horário local (7h de Brasília) e afetou serviços de transporte e telecomunicações. Falta de luz também foi registrada na França, Alemanha, Países Baixos e Suécia. No início da tarde, a Espanha declarou emergência nacional.
A operadora da rede elétrica de Portugal, a REN, afirmou que o apagão foi resultado de uma falha na rede espanhola, relacionada a um fenômeno atmosférico raro. Segundo a empresa, ele é conhecido como “vibração atmosférica induzida” e foi causado por causa de oscilações anormais nas linhas de alta tensão devido às variações extremas de temperatura no interior da Espanha.
A falta de luz fez com que vários serviços fossem interrompidos nos dois países. Aeroportos e estações de trem foram afetadas. Um morador da capital espanhola divulgou imagens da estação de metrô às escuras.
Veja vídeo do metrô de Madri
#MetroMadrid#Apagon pic.twitter.com/J6AtUVtEee
— José Maria (@josem699) April 28, 2025
Em Portugal, a polícia também confirmou que os semáforos foram afetados em todo o país. Segundo Carlos, na capital, eles já voltaram ao normal nesta terça-feira.
*Com informações da CNN, O Globo e UOL
**Sob supervisão de Luana Amorim
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