Um banco digital que atrai investidores, recebe grandes quantias de recursos públicos, enfrenta desconfiança sobre a capacidade de honrar os compromissos e acaba liquidado pelo Banco Central do país. O roteiro poderia ser usado para descrever o caso do Banco Master, que exigiu intervenção do governo brasileiro no fim de 2025 e levou à prisão do banqueiro Daniel Vorcaro.
A operação puxou um fio que revelou relações do empresário com algumas das mais altas autoridades da República e resultou em uma crise institucional. Mas o resumo desta vez se refere ao banco digital Ueno Bank, do Paraguai, que teve as portas fechadas nesta quarta-feira (4) e também resultou em uma turbulência econômica e política no país vizinho.
O Ueno Bank era o maior banco digital do Paraguai e sofreu intervenção do Banco Central paraguaio (BCP) nesta quarta-feira (4), após a instituição identificar uma insuficiência financeira para honrar as dívidas e compromissos. Em junho, o Ueno Bank tinha 3 milhões de clientes e patrimônio líquido de 401 milhões de dólares, o quinto maior entre os bancos privados do Paraguai.
O caso do Banco Master
O Banco Central do Paraguai vai buscar preservar os ativos do banco digital e também acionou o Fundo Garantidor de Depósito (FDC) – semelhante ao Fundo Garantidor de Crédito (FDC) brasileiro, que garante o ressarcimento a clientes do banco até determinado valor investido. No caso paraguaio, a regra é de devolução até 75 salários mínimos mensais, cerca de R$ 210 mil, na cotação atual, por depositante. A devolução, no entanto, deve demorar ao menos 15 dias.
Entre os investidores que tinham dinheiro retido no banco que agora fechou as portas estão correntistas brasileiros, conforme mostrou nesta quinta-feira (5) reportagem do jornal O Globo. A facilidade de fazer a gestão do dinheiro pelo aplicativo era um dos pontos que atraía os usuários. O Paraguai tem se tornado um destino de moradia de brasileiros nos últimos anos.
Quebra do Ueno Bank abriu crise política
A quebra do Ueno Bank, no entanto, também iniciou uma crise política no Paraguai. O presidente do Banco Central do país, Carlos Carvallo, que presidiu o Ueno Bank antes de assumir o BC paraguaio, renunciou ao cargo horas após a decisão de intervenção no banco. Outros dois funcionários da diretoria do órgão também pediram para deixar seus postos.
Oito executivos ligados ao banco foram presos em uma operação nesta semana, segundo a imprensa paraguaia. O escândalo também levou manifestantes às ruas cobrando a devolução integral dos recursos e antes do prazo.
As semelhanças entre o caso do Ueno Bank e o Banco Master continuam ao levar uma falência de um banco privado para as estruturas do governo. O presidente do Paraguai, Santiago Peña, foi investidor da holding que controlava o Ueno até março de 2025, quando vendeu sua participação. Na época, ele já era presidente do país, já que assumiu o cargo em agosto de 2023.
Os depósitos do governo para o Ueno Bank também teriam aumentado de patamar após Peña assumir a presidência, segundo informações do jornal paraguaio ABC Color. O possível conhecimento ou ligação do presidente paraguaio com a situação financeira do banco resultou até em pedidos de impeachment feitos nos últimos dias por parlamentares de oposição.
Investigação apontou relação com recursos públicos
O Ministério Público do Paraguai abriu uma investigação criminal que teria apontado irregularidades na gestão do Ueno e que envolveriam o recebimento de grandes quantias de recursos públicos e fundos de pensão do governo. Vale lembrar que o Banco Master também é apontado como destinatário de valores de fundos de previdência de servidores de diversos estados brasileiros, em razão das altas promessas de retorno financeiro feitas por Daniel Vorcaro.
A apuração feita até o momento aponta que o Ueno estaria repassando grandes volumes de dinheiro em forma de empréstimos para empresas pertencentes aos seus próprios acionistas, ligadas ao Grupo Vásquez, controlador do banco digital.
O Ueno Bank foi fundado como banco digital (as chamadas fintechs) em 2021. Teve crescimento rápido, apostando em agências luxuosas e em campanhas de marketing que incluíram até mesmo o patrocínio à seleção paraguaia de futebol.
O banco teve o fechamento confirmado esta semana pelo governo paraguaio e agora deve começar a passar por processo de recuperação judicial.





