A divulgação de mensagens do banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, com ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) fez explodir de vez a crise entre magistrados da Suprema Corte. Nos últimos dias, um vaivém de decisões pedindo a investigação do ministro Alexandre de Moraes e afastando o diretor-geral da Polícia Federal (PF), Andrei Rodrigues, expôs rachas internos no STF e provocou repercussão e impactos inclusive na corrida presidencial.
O ministro Alexandre de Moraes está no alvo principal das denúncias após a revelação de conversas mantidas entre ele e Vorcaro, inclusive nos dias que antederam a prisão do banqueiro, com pedidos de intervenção sobre possíveis operações em andamento. Uma sessão no plenário da corte ainda a ser marcada deve definir o futuro do caso.
No entanto, o relatório da Polícia Federal divulgado na decisão do ministro André Mendonça que retirou o sigilo de parte do caso e revelou as mensagens entre Moraes e Vorcaro também inclui menções a outros ministros da Suprema Corte, que também teriam se reunido ou mantido algum tipo de relação com Daniel Vorcaro. Confira abaixo quais ministros são citados nas mensagens e qual o grau de implicação apontado até o momento.
Segundo o próprio ministro André Mendonça, o relatório que divulgou as mensagens foi produzido em 72 horas. Em razão disso, outras conversas ou relações de autoridades com o banqueiro ainda podem vir à tona no decorrer do caso.
Ministros citados em mensagens ou com possível relação com Vorcaro
Alexandre de Moraes
O ministro Alexandre de Moraes é quem indica ter a maior ligação com Vorcaro segundo as mensagens reveladas até o momento no caso conduzido pelo ministro André Mendonça. As conversas reveladas na semana passada mostraram que o ministro editou a versão final do contrato de R$ 130 milhões de Vorcaro com o escritório da advogada Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro.
Nas conversas reveladas até o momento, Vorcaro faz perguntas a Moraes sobre possíveis operações policiais que visassem o Banco Master. As conversas seriam feitas por meio de prints de mensagens escritas no bloco de notas do celular, apagadas posteriormente. Moraes chegou a configurar a conversa com Vorcaro para mensagens temporárias, que eram exibidas apenas por 24 horas, sem serem arquivadas.
Em 15 de novembro de 2025, dois dias antes de ser preso, Vorcaro escreveu em uma mensagem a Moraes: “Acha que segunda já tenho que estar fora?”. Um dia depois, perguntou: ““Você acha que existe alguma chance disso acontecer amanhã de manhã?”. Ele chegou a viajar até Brasília para supostamente se encontrar com Moraes na véspera do dia da prisão e afirmou em mensagem ter uma “dívida de vida” com o ministro. O banqueiro foi preso no aeroporto, prestes a tentar sair do país, em 17 de novembro de 2025.
Dias Toffoli
Mas não é só Alexandre de Moraes que aparece citado nas mensagens divulgadas de Daniel Vorcaro divulgadas até o momento. O nome do ministro Dias Toffoli também é citado nas mensagens de Vorcaro, em um contexto sobre a participação dele em um evento jurídico em Londres, ao lado de outros ministros como Moraes e Gilmar Mendes (leia mais abaixo). Além da reunião de Gilmar, Toffoli e Moraes com Tony Blair, ele também é citado em uma mensagem que discutia a logística de transporte para o evento, que previa deslocar um casal por carro executivo (S-class) para “ministros mais sensíveis tipo Alexandre, Tofolli etc”.
Apesar de só ter o nome nessas mensagens divulgadas até agora, a relação de Toffoli com Vorcaro teve outros indícios apontados em outras etapas da investigação da PF. Apurações já mostraram que Toffoli viajou em um jatinho particular de um advogado do Banco Master para assistir à final da Taça Libertadores, em Lima, no Peru. Além disso, a principal ligação entre Toffoli e Vorcaro estaria relacionada ao resort Tayayá, no Paraná|. A empresa Maridt, da qual o ministro e seus irmãos seriam sócios, vendeu uma participação que tinha do resort Tayayá a um fundo de investimentos chamado Arllen, que era controlada por outro fundo, este ligado a Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro e que atuaria como um “contador informal” do banqueiro. O ministro, no entanto, em nota, já negou qualquer relação de amizade ou recebimento de valores de Vorcaro e do cunhado dele.
O caso já foi apontado em um relatório da PF em fevereiro deste ano. Depois das revelações e de uma reunião fechada entre os ministros, Toffoli deixou a relatoria do caso Master no STF e chegou a se declarar impedido de votar temas ligados ao caso Master.
Gilmar Mendes
Nas mensagens reveladas pela decisão de André Mendonça, o nome de Gilmar Mendes é citado duas vezes. O contexto envolve um convite e a participação de Gilmar em um evento jurídico-político organizado em abril de 2024 pelo Banco Master em Londres, com apoio na organização de Alexandre de Moraes. Em uma das mensagens, um interlocutor de Vorcaro envia uma mensagem que teria sido enviada por Moraes a Gilmar para convidá-lo a participar do evento.
“Doutor, só para posicioná-lo. O ministro Alexandre realmente mandou WhatsApp para os colegas. falei com ministro Gilmar agora. Ele confirmou ter recebido mas diz que ainda “vai olhar” a possibilidade. Difícil alguém não aceitar convite de AM”, escreveu contato identificado como Marcio Conjur. Gilmar teria pedido que esse interlocutor falasse com seu chefe de gabinete.
Um mês depois desta mensagem, durante a realização do evento em Londres, Gilmar é citado em mensagem de Vorcaro para um jornalista que publicaria uma matéria sobre a participação dos ministros no evento e um encontro privado que teriam tido com o ex-primeiro ministro britânico Tony Blair.
“Alexandre pediu. Se possível pra incluir que antes do evento ele se reuniu com os ministros do supremo Toffoli, Moraes e Gilmar Mendes”, escreveu Vorcaro, explicando em seguida que se referia à reunião dos três magistrados com Tony Blair.
Apesar das menções ao nome de Gilmar nas mensagens, não há indícios de ilicitudes do ministro nas ocasiões em que ele teve o nome mencionado pelo banqueiro em mensagens.
André Mendonça
O nome do ministro André Mendonça, relator do caso Master até o momento, não aparece nas mensagens reveladas no relatório do próprio Mendonça divulgado na semana passada. No entanto, outras mensagens divulgadas pelo portal ICL Notícias e por outros veículos de imprensa apontaram a existência também de diálogos mencionando também o nome de André Mendonça nas conversas descobertas no celular de Vorcaro.
Em uma das mensagens, o advogado Ciro Soares enviou uma fotografia ao lado de Mendonça para Vorcaro, afirmando que estava “trabalhando” para ele.
“Fala, Vorcarinho, trabalhando por você! Levei o André lá no Vasco agora, pra fazer um terno”, disse o advogado, em áudio enviado em 8 de fevereiro de 2025.
Nas mensagens seguintes, o intermediador de Vorcaro fala sobre a conversa com o ministro no alfaiate.
“O André Mendonça disse que quer te receber junto comigo. Ele sabe, soube da situação do Banco Central toda. Eu contei. Ele já sabia que o Cezinha já tinha falado com ele”, escreveu o advogado, mencionando o deputado federal Cezinha de Madureira (PL-SP), que também atuaria nos bastidores para ajudar o banqueiro. Dias depois, André Mendonça teria recebido Vorcaro para uma reunião de cerca de duas horas, na sede do instituto Iter, instituição de ensino criado por Mendonça em 2023.
André Mendonça divulgou nota na semana passada admitindo ter encontrado o banqueiro “uma única vez” e afirmando que “se limitou a ouvi-lo”. O assunto abordado envolveria créditos de precatórios de interesse do Banco Master. O ministro também divulgou fotos de notas fiscais de R$ 26,4 mil para reagir à suspeita de que teria tido ternos pagos por pessoas ligadas a Vorcaro.
Nunes Marques
No caso de Nunes Marques, a suposta relação com Vorcaro não aparece nas mensagens reveladas até aqui, mas envolveria seu filho, o advogado Kevin de Carvalho Marques. O profissional teria recebido R$ 281,6 mil de uma empresa de consultoria, a Consult Inteligência Tributária, em 11 transações de 2024 a 2025, conforme informações de reportagens do jornal Estadão e da revista Piauí. A mesma empresa de consultoria teria recebido R$ 6,6 milhões do Banco Master.
As movimentações do Master para a Consult foram mapeadas pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) como “incompatíveis com a capacidade financeira” da empresa, levantando a hipótese de que a companhia fosse usada apenas para passagem de recursos. O filho do ministro afirmou à época que os valores se referem a pagamentos por serviços de assessoria jurídica.





