Brasil encontra caminho para o Oscar com “O Agente Secreto” e “Ainda Estou Aqui”

Dobradinha na premiação mais importante do cinema mostra importância das campanhas internacionais

Compartilhe:
Wagner Moura at the 83rd Annual Golden Globes held at The Beverly Hilton on January 11, 2026 in Beverly Hills, California.

Vitória de Wagner Moura no Globo de Ouro foi um importante passo na campanha de "O Agente Secreto" para o Oscar (Foto: Globo de Ouro, Divulgação)

Não eram raros, até o ano passado, comentários que comparavam o êxito do cinema argentino no Oscar com a situação do Brasil. A Argentina, afinal, já foi indicada oito vezes e levou dois prêmios na categoria de filme internacional, enquanto o cinema brasileiro, até 2024, havia recebido apenas quatro indicações e nenhuma vitória até então. Causava estranheza que o Brasil, país das novelas e com uma diversidade cultural rica para qualquer roteiro, nunca havia conseguido levar a premiação mais importante do cinema.

Continua após a publicidade

O cinema brasileiro já viveu boas fases. No fim dos anos 1990, o país recebeu indicações em sequência por “O Quatrilho” (1995), “O Que É Isso, Companheiro?” (1997) e “Central do Brasil” (1998). Em 2004, “Cidade de Deus” reforçou a sensação de consolidação internacional ao ser indicado em quatro categorias. A boa fase no Oscar, porém, acabou não tendo continuidade.

Nos últimos 10 anos, tivemos bons filmes, como “Que Horas Ela Volta?” (2016), “Aquarius” (2016), “Bacurau” (2020) e “A Vida Invisível” (2020). Todos tiveram boa recepção da crítica e entraram no radar internacional, mas nenhum conseguiu transformar esse prestígio em uma indicação. Toda temporada, a pergunta era a mesma: o que faltava para mais indicações ao Oscar?

Continua após a publicidade

A resposta começa a se desenhar nesta quinta-feira (22), dia em que “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, recebeu quatro indicações ao Oscar 2026: melhor filme internacional, melhor filme, melhor direção de elenco e melhor ator, para Wagner Moura. O feito dá sequência ao êxito de “Ainda Estou Aqui”, no ano passado, que teve três indicações e, pela primeira vez, trouxe o Oscar de melhor filme internacional ao Brasil.

Veja fotos de O Agente Secreto

Uma mudança de percepção

Mas o que mudou, afinal? Na trajetória de ambos os filmes, o diferencial foi a campanha para chegar até o Oscar.

A campanha começa com uma boa estreia em festivais, como Cannes, no caso de “O Agente Secreto”, e Veneza, no de “Ainda Estou Aqui”, mas ganha força, principalmente, com o trabalho das distribuidoras. Essas empresas, como a Neon, no caso do filme de Kleber Mendonça Filho, são responsáveis por garantir que o filme seja visto pelos membros da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, responsáveis pelas indicações.

Uma boa campanha ao Oscar inclui publicidade, eventos, entrevistas, exibições especiais e “tours” para promover o filme, principalmente nos Estados Unidos. É por isso que, ao final da temporada passada, Fernanda Torres resumiu o empenho envolvido em uma campanha ao Oscar ao dizer que seu cabelo “já não aguentava mais uma escova”.

Continua após a publicidade

Não é por acaso que Walter Salles e Kleber Mendonça Filho lideram essa nova fase do cinema brasileiro. Desde pelo menos 2004, com “Diários de Motocicleta”, Salles vem construindo uma carreira internacional e dirigindo alguns filmes em inglês. Já Kleber, ex-crítico de cinema, tornou-se presença constante nos principais festivais do mundo desde “O Som ao Redor” (2013). Ambos os cineastas têm visibilidade fora do país e entendem que o caminho ao Oscar também se constrói fora da tela.

Entre a consolidação e a cautela

Ainda assim, precisamos ter calma. Apesar da aclamação recente, o Brasil ainda não está entre os países que transformaram a presença no Oscar em tradição contínua, como a França, que tem 41 indicações, e Itália, com 33. Na América Latina, estamos nos aproximando do México, que lidera em indicações, com nove, e da Argentina, com oito.

Continua após a publicidade

Os comentários sobre perdermos para os hermanos no quesito cinema talvez ainda demorem para ficar para trás. Mas, talvez, o conhecimento adquirido de fazer campanha permaneça e consiga garantir mais indicações ao Oscar no futuro.

No discurso de vitória no Globo de Ouro, Kleber Mendonça Filho apontou justamente para esse futuro:

Continua após a publicidade

— Eu dedico este filme aos jovens cineastas. Este é um momento muito importante no tempo e na história para se estar fazendo cinema. Aqui nos Estados Unidos, no Brasil… jovens cineastas, façam filmes!

Veja trailer de “O Agente Secreto”

https://www.youtube.com/watch?v=AOBPXs_euPA