Finalista do Prêmio Jabuti em 2023 com A vida e as mortes de Severino Olho de Dendê, Ian Fraser retorna ao universo literário com Cartografia para caminhos incertos, seu segundo romance publicado pela Intrínseca, lançado em maio. Com uma prosa que mistura realismo mágico, poesia e subverte forma e conteúdo, o autor baiano constrói um relato profundo sobre descoberta, pertencimento e o complexo mapa do próprio coração.
Nascido e criado em Salvador, neto de americana, Fraser cresceu imerso no cinema hollywoodiano, nas séries de televisão e nos quadrinhos, desenvolvendo um olhar atento à cultura pop que só mais tarde encontrou eco em suas próprias criações literárias. Em Cartografia para caminhos incertos, essa mistura de referências e sensibilidades se materializa em Redenção, uma cidade itinerante da Bahia, impossível de ser encontrada em mapas, onde vive Mané, um jovem poeta que se lança na jornada inesperada de reencontrar o namorado Jeremias e, com ele, a própria casa.
Entre torres construídas de cabeça para baixo, cidades em guerra e espetáculos teatrais permanentes, Mané percorre territórios que desafiam a lógica e a percepção, aprendendo que o coração nem sempre guia por caminhos familiares.
— Eu simplesmente falei: ‘Quero escrever sobre isso’. É sobre um cara andando, e uma hora ele vai parar de andar — explicou Fraser ao NSC Total durante a Bienal do Livro do Rio de Janeiro. O romance abraça a liberdade da narrativa contemporânea e o movimento interno do personagem e a riqueza do mundo que o cerca ganham maior importância que a tensão dramática.
O romance também dialoga com a tradição do realismo mágico, trazendo elementos fantásticos para iluminar a realidade brasileira. Fraser explica que o gênero não se distancia da vida cotidiana: — Quando a gente fala de realismo mágico, a gente fala de realidade. Ele inclina a perspectiva, permitindo que o leitor veja a vida de um jeito novo—. Em Cartografia para caminhos incertos, isso se traduz em imagens poéticas, diálogos que atravessam o tempo e uma geografia imaginária que, paradoxalmente, reflete a cultura, a memória e os dilemas sociais do Brasil contemporâneo.
Além de celebrar a brasilidade, o romance é um espaço de experimentação literária. Fraser mistura prosa e poesia, fragmenta a narrativa, cria capítulos que se desdobram como diálogo consigo mesmo e desafia convenções de tempo e espaço. Para o autor, a criatividade deve fluir livremente, mas sempre com atenção à compreensão do leitor: — Não me podo em circunstância nenhuma. Meu problema é o quanto da minha criatividade consegue ser compreensível para o outro— explica.
O processo de escrita, para Fraser, também é ritualizado e intimamente ligado ao cotidiano. Ele escreve grande parte de suas obras em sua rede, em Salvador, onde mergulha completamente no mundo que está criando. Entre exercícios, banhos, passeios com sua cadela Gorgonzola e momentos de contemplação, o autor encontra o ritmo que transforma ideias em narrativa viva.
Mergulhado nas andanças pela própria escrita, Fraser se coloca nas palavras de forma profundamente pessoal. O autor confessa que revisitar suas memórias e seus processos de autoconhecimento foi parte essencial de Cartografia para caminhos incertos, livro em que colocou muito dele mesmo: — No dia que eu não estiver mais aqui, quem quiser matar a saudade, eu acho que o livro que eu vou recomendar é Cartografia, porque ali tem eu falando diretamente com todo mundo— finaliza.
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