O hábito de ver cinema concentra-se, majoritariamente, em salas de shopping centers e plataformas de streaming. Enquanto a escassez de cinemas públicos desafia a preservação da memória em várias regiões do país, o Cine Brasília mantém suas atividades firmemente ligadas à sétima arte e ao urbanismo, resistindo ao avanço comercial e mantendo viva a tradição das exibições de rua no Distrito Federal.
A praça pública é o fim das salas de bairro
A transformação de antigos cinemas de rua em estacionamentos ou centros comerciais altera profundamente o tecido urbano. Estes locais funcionavam historicamente como pontos de encontro essenciais, onde comunidades inteiras se reuniam. A expansão dos complexos multiplex alterou drasticamente o modelo de exibição e reduziu a presença de cinemas públicos de rua, transformando o ato coletivo de assistir a um filme em uma experiência isolada e de consumo.
Cinema projetado para ser um monumento
Contrariando essa tendência de apagamento, o Cine Brasília foi planejado durante a construção do Plano Piloto para ser um cinema oficial da nova capital. Oscar Niemeyer projetou a monumental sala com acústica e curvatura de teto específicas para a projeção de cinema de autor. Mais do que um prédio, o espaço preserva características técnicas e estéticas voltadas para a celebração da identidade cultural brasileira, unindo a precisão do urbanismo moderno ao afeto físico de ir ao cinema.
A força renovada da 59ª edição
Essa vocação monumental ganha sua expressão máxima na 59ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro (FBCB). Diante de uma plateia que lotou as mais de 600 poltronas vermelhas do complexo, a tela de Niemeyer transformou-se em um espelho do próprio país.
O grande destaque da noite de premiação foi o longa-metragem mineiro Se Eu Fosse Vivo… Vivia, dirigido por André Novais Oliveira, que conquistou o prestigiado Troféu Candango de melhor longa pelo júri oficial. A obra, que marcou a emocionante estreia da escritora Conceição Evaristo como atriz de cinema aos 79 anos, arrebatou o público ao cruzar cotidiano, luto e memória.
Paralelamente, o documentário Tudo é Tempo, de Marcos Guttmann, consagrou-se vencedor pelo júri popular, enquanto as produções Cana e Lagoa do Abandono foram os grandes laureados entre os curtas-metragens da temporada.
O desafio urgente de preservar a memória
A consagração de obras que debatem justamente a passagem do tempo e as marcas da vivência, como o título vencedor provoca: se eu fosse vivo… vivia, ecoa como o desfecho perfeito para o próprio Cine Brasília. A preservação de cinemas públicos exige, de fato, políticas contínuas de manutenção e apoio institucional, pois a desativação dessas salas altera a dinâmica cultural dos centros urbanos.
No entanto, enquanto as luzes se apagam e a projeção começa, o Cine Brasília prova que sua arquitetura de concreto é feita, na verdade, de permanência. Diante do efêmero fluxo dos streamings e do silêncio dos antigos cinemas que viraram estacionamentos, a sala de Niemeyer permanece como um portal de resistência urbana. Ali, o cinema de rua não é apenas o registro do passado: é o lugar onde a memória coletiva insiste em continuar viva, pulsante e iluminada no coração da capital federal.
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*Sob supervisão de Luiz Daudt Junior.










