Comediantes falam dos trinta anos do Casseta & Planeta; “Metralhadora giratória de piadas”

Programa foi exibido nas noites de terça-feira entre abril de 1992 e dezembro de 2010

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Comediantes faziam piadas de situações diversas e políticas (Foto: Nando Chagas / Divulgação)

Ao volante de um reluzente carro conversível, Pelé é abordado por um policial militar nas ruas do Rio. ‘Aí, negão. Documento!”, exige o PM, no dialeto malandro carioca, para em seguida ameaçar “botar na caçapa” do camburão o Rei do Futebol.

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Protagonizada por Helio De la Peña, a cena continua com Pelé (ele mesmo), tentando provar ser quem realmente é, um gancho para ser ridicularizado por um irredutível e caricato PM, que o chama de “negão” por mais duas vezes.

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Com pouco mais de dois minutos, o vídeo foi exibido pelo Casseta & Planeta no início dos anos 2000 e traduziria, segundo os próprios ex-integrantes do grupo, toda a essência de seu humor. Se ainda estivesse no ar, o Casseta (para os íntimos), estaria completando 30 anos em 2022.

— A gente era uma metralhadora giratória de piadas. Não poupávamos ninguém, independentemente das nossas opiniões pessoais. Trabalhávamos em cima do humor e não havia vaidade — afirma De la Peña. 

Em um bate-papo com a reportagem da Folha, ex-cassetas dizem que o segredo do sucesso do programa, exibido nas noites de terça-feira entre abril de 1992 e dezembro de 2010, foi justamente não baixar a cabeça para quem quer que fosse. A zoação, garantem, sempre foi ampla, geral e irrestrita.

Ter surgido para o mundo em tempos pré-cancelamento também fez toda a diferença, admitem. “Naquela época as coisas eram bem diferentes. Não havia a força das redes sociais, nossa preocupação era apenas em saber se a qualidade era boa, e não com a patrulha para nos tolher”, afirma Marcelo Madureira.

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Hubert vai na mesma linha. Intérprete de personagens como Devagar Franco (uma caricatura do então presidente Itamar Franco) e de Gavião Bueno (“Rrrrrronaldinhooo!”, bradava, empolgado, quase engolindo o microfone da TV Globo), ele defende que o programa entregava aquilo que o povo queria: uma salada variada e bem temperada de assuntos, que incluía política, costumes, novelas e futebol, sem que isso implicasse num humor “bonzinho e com conteúdo social”.

O mundo mudou nas ultimas décadas e eles sabem que, se ainda estivessem na ativa, suas piadas teriam de se adequar aos novos tempos. “O humor que não se adapta, morre. Comparo muito com a hipótese de que o Pelé hoje em dia não se daria bem no futebol. Mas se ele estivesse na ponta dos cascos e utilizasse das ferramentas do momento, poderia jogar bem. Claro que não podemos resgatar o humor dos anos 1990, mas estaríamos atualizados”, defende De la Peña.

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Opinião semelhante à de Hubert, para quem o cancelamento não seria uma preocupação nos dias de hoje. “Não chegaria a esse ponto [de serem cancelados]. O tempo mudou, algumas piadas que antes não eram um problema hoje não seriam tão engraçadas. Mas a gente saberia como fazer”, aposta.

Morte de Bussunda foi baque

O grande baque para os humoristas (e para o Brasil inteiro) veio em 2006. A equipe do programa acompanhava a seleção brasileira na Copa do Mundo da Alemanha, em clima de oba-oba e muitas graçolas sobre o mundo do futebol e seus personagens, até que veio a bomba: Bussunda havia sofrido um ataque cardíaco em Parsdorf (16 km de Munique). Acabou morrendo, gerou comoção nacional e deixou a equipe arrasada -e atônita.​

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— Rolou um grande vazio entre nós. Ficamos perdidos e sem saber que atitude tomar, inclusive as mais imediatas como atender a imprensa. A gente contou com o apoio do Galvão Bueno, que tinha passado pela experiência traumática de perder o [Ayrton] Senna [em 1994]. Ele foi ao hotel nos orientar, pois não tínhamos noção do que fazer — conta Helio.

Daquele momento em diante, a cobertura do Mundial acabou. Toda a equipe voltou ao Brasil, e o velório aconteceu um dia depois. O diretor do programa foi quem ficou responsável por montar a edição da terça-feira seguinte, que virou uma homenagem com os melhores momentos do comediante morto.

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Na atração seguinte à da homenagem, o Brasil já havia perdido a Copa para a França e o pouco material que restava sobre as aventuras da equipe no Mundial foi para o lixo. O baixo astral se impôs e não fazia mais sentido exibir nada sem Bussunda, o maestro daquela banda.

— Foi uma situação inédita, pois tivemos de reescrever o programa que seria gravado na tarde e editado durante a noite anterior. Mas o conteúdo ficou divertido e ali tivemos a certeza de que não deveríamos parar. Foi um baque nós passarmos de sete para seis integrantes — recorda Helio. 

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— Preferimos continuar, apesar da grande perda para o Brasil, para o humor e para nós. Fomos em frente — diz Hubert.

Comediantes sobre Casseta hoje: ‘Bolsonaro estaria sofrendo’

Para os integrantes do Casseta, os dois pontos altos da história do programa eram os quadros políticos e as sátiras de novelas. 

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— Nunca vi na TV mundial acabar o capítulo da novela e entrar uma paródia imediata dela. Era uma coisa inusitada de um assunto que tinha acabado de rolar e que todo mundo havia assistido — relembra Hubert.

Ele conta que alguns autores como Glória Perez e Manoel Carlos mandavam os capítulos antes para a trupe que, assim, tinha tempo para se caracterizar, maquiar e escrever as piadas sobre a continuação das cenas, no calor dos acontecimentos. 

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— Ficávamos tentando parecer, pegar trejeitos dos personagens. Era realmente o ponto alto do Casseta — lembra.

As paródias políticas do programa, que tinha como lema “humorismo-verdade, jornalismo-mentira”, também eram o ponto forte do humorístico -tanto que todos os presidentes do Brasil empossados enquanto a atração esteve no ar, independentemente de ideologia ou espectro político, foram “vítimas” de seu humor. Fosse quem fosse.

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Em 1992, quando surgiram na TV, eles já começaram fazendo piadas nas ruas sobre o impeachment de Fernando Collor. Fernando Henrique Cardoso era chamado de “Viajando” Henrique; Itamar virou “Devagar” Franco, e Lula estava invariavelmente tomando uma birita -ninguém foi poupado. E hoje continuaria assim, garantem. 

— Se ainda estivéssemos no ar, o Bolsonaro estaria sofrendo”, assegura Helio. Na visão do humorista, o presidente seria uma fonte inesgotável de zoeiras, já que “ele produz seu próprio material de stand-up comedy. 

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Para Madureira, muito além de fazer rir, a atração contribuiu para a reflexão política do Brasil. 

— A gente conseguiu manter a população informada e despertar interesse sobre determinados assuntos que não eram abordados daquela forma.

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O programa teve uma reencarnação, digamos assim, em 2012, mas não vingou. O “Casseta & Planeta Vai Fundo”, uma versão mais pop do humorístico, ficou apenas nove meses no ar.

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