A maior parte das frases atribuídas a Albert Einstein na internet não é dele. O nome funciona como selo de inteligência, e qualquer formulação que soe engenhosa acaba colada a ele mais cedo ou mais tarde. Por isso vale o esforço de separar. Esta em particular resiste à checagem, e resiste com data, lugar e testemunha.
A frase trata da diferença entre duas formas de medir uma vida profissional. Uma delas é medida de fora, por resultado acumulado. A outra é medida por aquilo que a pessoa devolve ao ambiente em que trabalha. Einstein não a apresentou como aforismo. Ele a disse em conversa, respondendo a um jovem que pediu conselho.
Não tente se tornar um homem de sucesso, tente em vez disso se tornar um homem de valor.
A versão que circula sozinha é apenas a primeira sentença. A continuação é o que fecha o raciocínio, porque transforma uma preferência moral em uma definição operacional. Sucesso, na formulação dele, é um saldo extraído. Valor é um saldo entregue. Sem a segunda parte, a frase vira slogan motivacional. Com ela, vira critério.
O contexto da fala explica o tom. Meses antes de morrer, em abril de 1955, Einstein recebeu em sua casa em Princeton a visita de William Miller, editor da revista LIFE, acompanhado do filho Pat, então calouro em Harvard, e de William Hermanns. A conversa foi publicada na edição de 2 de maio de 1955, sob o título “Death of a Genius“, poucos dias após a morte do cientista.
No mesmo trecho aparece a recomendação de nunca perder a curiosidade e de não parar de fazer perguntas. Ou seja, não se trata de uma reflexão sobre carreira dirigida ao público, e sim de um conselho dado a um estudante dentro de uma casa.
O conceito que ilumina a distinção existe na psicologia e tem nome. A teoria da autodeterminação, formulada pelos pesquisadores Edward Deci e Richard Ryan a partir da década de 1980, separa motivação extrínseca de motivação intrínseca. A primeira depende de recompensa externa, como salário, prêmio ou reconhecimento. A segunda vem do interesse pela atividade em si e da percepção de competência e de vínculo. A literatura da área associa a segunda a maior persistência em tarefas longas, que é exatamente o tipo de tarefa que Einstein exercia.
Nada disso significa que buscar reconhecimento seja erro. Einstein recebeu o Nobel de Física de 1921 e não recusou nem o prêmio nem a fama que veio depois. A frase não opõe ambição a decência. Ela apenas propõe que o critério de avaliação seja outro, e a diferença entre os dois critérios costuma aparecer não no fim da carreira, mas em decisões pequenas tomadas no meio dela.
