Poucas citações atribuídas a Albert Einstein resistem a uma checagem rigorosa. A maioria circula sem origem, colada ao nome do físico porque o nome dá peso a qualquer afirmação. Esta é uma exceção rara. Existe papel, data, cidade e testemunha.
O tema é a relação entre sucesso e bem estar. Mais precisamente, o custo emocional de perseguir reconhecimento em estado permanente de agitação. Einstein escreveu isso justamente no momento em que a própria fama explodia.
O bilhete no Hotel Imperial
Em novembro de 1922, ele estava hospedado no Hotel Imperial, em Tóquio, durante uma turnê de palestras pelo Japão. Havia recebido pouco antes a notícia de que ganharia o Nobel de Física de 1921 e decidiu manter a viagem em vez de seguir para Estocolmo.
Um mensageiro subiu ao quarto para uma entrega. Sem trocado para a gorjeta, ou diante da recusa do rapaz, Einstein pegou o papel timbrado do hotel e escreveu duas notas à mão. Disse ao mensageiro que aquilo talvez valesse mais do que qualquer gorjeta.
A primeira dizia:
Uma vida simples e tranquila traz mais alegria que a busca pelo sucesso em uma inquietação constante.
A segunda era mais curta e afirmava que, onde há vontade, há um caminho.
Vale registrar uma diferença. O texto original em alemão é “Stilles bescheidenes Leben gibt mehr Glück als erfolgreiches Streben, verbunden mit beständiger Unruhe“. Traduções mais literais falam em vida “calma e modesta” e em “felicidade“, não em “alegria“. O sentido geral se mantém, mas quem lê a frase em português está diante de uma entre várias versões possíveis.
O que a frase realmente diz
O bilhete se sustenta sobre um contraste, não sobre uma condenação. Einstein não escreveu que buscar sucesso é errado. Ele qualificou a busca. O problema aparece quando ela vem acompanhada de “uma inquietação constante”, e a palavra alemã Unruhe carrega exatamente esse sentido de agitação sem descanso.
Há um conceito que ajuda a entender por que a observação funciona: a adaptação hedônica. É a tendência de o ser humano voltar a um patamar emocional parecido pouco tempo depois de conquistas ou perdas importantes. O salário novo, a promoção, a casa maior deixam de produzir a sensação inicial em semanas ou meses. A inquietação, ao contrário, permanece, porque não depende do resultado alcançado e sim do modo de perseguir o próximo.
Os dois papéis ficaram quase um século com a família do mensageiro. Em outubro de 2017, foram levados a leilão em Jerusalém pela casa Winner’s. A nota sobre felicidade tinha estimativa entre 5 mil e 8 mil dólares e foi arrematada por 1,56 milhão, valor que inclui a taxa do comprador. A segunda saiu por 240 mil. Roni Grosz, responsável pelo arquivo de Einstein na Universidade Hebraica, descreveu os documentos como peças de mosaico para compreender o físico.
O bilhete não é uma teoria científica, apesar do apelido que a imprensa lhe deu. É uma anotação de circunstância, escrita em poucos minutos, por alguém que naquela semana havia se tornado a pessoa mais famosa da ciência mundial. Talvez esteja aí o que a torna interessante. Ela não foi escrita para durar. Durou assim mesmo.
