Quadro de Rembrandt escondia um segredo de séculos, restauração revela pintura perdida sob camadas de tinta

Obra bíblica atribuída à escola neerlandesa escondia detalhes pintados pelo próprio Rembrandt, incluindo personagens que desaparecem após a intervenção de outro artista

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Comprada em um leilão na Alemanha, a pintura intrigou especialistas e revelou uma composição do século 17 que permaneceu oculta durante séculos (Foto: Jan Six I / Rembrandt / Wikimedia Commons)

Comprada em um leilão na Alemanha, a pintura intrigou especialistas e revelou uma composição do século 17 que permaneceu oculta durante séculos (Foto: Jan Six I / Rembrandt / Wikimedia Commons)

À primeira vista, era apenas mais uma pintura antiga em um catálogo de leilão na Alemanha. Mas um detalhe fez o negociante de arte Jan Six parar diante da imagem: um rosto conhecido aparecia discretamente no meio da multidão.

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Era um homem jovem, olhando diretamente para fora da cena. Six reconheceu ali algo familiar. A suspeita era ousada, aquele personagem poderia ser o próprio Rembrandt.

E foi assim que começou uma história que levaria anos para revelar todos os seus segredos.

Uma descoberta quase por acaso

Em 2014, Jan Six folheava um catálogo de uma casa de leilões alemã quando encontrou a obra intitulada ‘Let the Little Children Come Unto Me’. A pintura era atribuída à escola neerlandesa de meados do século 17. O nome de Rembrandt não aparecia como autor.

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Ainda assim, havia algo estranho. A obra mostrava um homem jovem entre os personagens da cena, e Six percebeu que ele poderia representar o próprio artista.

A ideia fazia sentido porque Rembrandt costumava inserir a si mesmo em pinturas históricas e bíblicas. Six decidiu comprar a obra por cerca de R$ 8 milhões.

Depois, especialistas confirmaram aquilo que parecia improvável: tratava-se, de fato, de uma pintura perdida de Rembrandt. Mas a história ainda não tinha terminado.

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O quadro escondia outro quadro

Rembrandt provavelmente começou a pintura em 1627, quando ainda vivia em Leiden, cidade onde nasceu. O problema é que ele não terminou a obra.

Quando se mudou para Amsterdã, na década de 1630, a pintura ficou para trás. Em algum momento posterior, outro artista assumiu o trabalho e completou a composição.

O resultado, segundo a descrição do lote, foi considerado uma finalização feita de maneira bastante rudimentar. Durante muito tempo, porém, ninguém conseguia enxergar exatamente o que havia sido alterado.

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Isso porque camadas de tinta cobriam partes importantes da composição original. Foi justamente esse trabalho posterior que os conservadores começaram a remover cuidadosamente durante a restauração.

Aos poucos, Rembrandt voltou a aparecer

A restauração mudou a aparência da obra de maneira significativa. Algumas figuras que estavam visíveis simplesmente não correspondiam à composição original.

Em determinados pontos, os restauradores encontraram personagens completamente diferentes por baixo da pintura posterior. Um dos exemplos mais curiosos envolve o próprio Cristo.

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Na versão modificada, ele aparece colocando a mão sobre a cabeça de uma criança mais velha. Na pintura de Rembrandt, porém, Cristo segurava um bebê.

Uma outra transformação, chama ainda mais atenção. Um homem alto, originalmente retratado com barba escura e turbante, teve sua aparência modificada posteriormente.

O turbante desapareceu, a barba ficou branca e ele passou a usar uma espécie de gorro holandês. A intervenção acabou deixando a cena mais convencional.

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E com a restauração, a diversidade que Rembrandt havia colocado na multidão voltou a aparecer.

Uma passagem bíblica ganhou rostos conhecidos

A obra representa o episódio em que pais levam seus filhos até Jesus para serem abençoados. Os discípulos tentam impedir a aproximação, mas Cristo acolhe as crianças.

Rembrandt, no entanto, parece ser colocado algo de sua própria vida dentro da cena. Especialistas acreditam que alguns personagens possam ter sido inspirados em pessoas que faziam parte de seu círculo.

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Uma mulher mais velha pode ser sua mãe. Ao lado dela, uma jovem talvez represente uma afilhada órfã que teria sido acolhida pelo pai do artista.

No fundo da composição, outro homem apresenta características semelhantes às do pai de Rembrandt. A pintura religiosa também acabou se tornando uma espécie de retrato do mundo ao redor do artista.

O jovem escondido na multidão

Foi justamente um dos personagens que despertou a atenção de Jan Six. O jovem aparece entre as pessoas reunidas ao redor de Cristo e olha para fora da cena.

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A possibilidade de que seja o próprio Rembrandt combina com uma característica conhecida de sua própria produção: o artista costumava inserir sua própria imagem em algumas pinturas.

A composição também pode estar relacionada ao contexto de Leiden naquele período. A guerra dos Trinta anos estavam devastando partes da Europa Central, enquanto a cidade recebia milhares de refugiados.

A presença de pessoas de diferentes origens religiosas na pintura chamou a atenção de especialistas. Para o historiador de arte Andrew Graham-Dixon, essa escolha pode ter relação com as mudanças que aconteciam na população local.

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Um passado que voltou a aparecer

A história da obra antes de sua descoberta em 2014 continua cercada de incertezas.

Existem registros históricos que podem estar relacionados à pintura, incluindo inventários de colecionadores de Amsterdã que mencionam uma grande obra de Rembrandt mostrando Cristo chamando as crianças.

Ainda não é possível afirmar definitivamente que se trata da mesma pintura. Mas a restauração já revelou o suficiente para transformar completamente a compreensão da obra.

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O que a restauração confirmou foi que, escondida sob intervenções posteriores, estava uma composição iniciada por Rembrandt no século 17.