China busca retomada de plano para transformar-se em potência do futebol

Mercado chinês pode se tornar inspiração para o brasileiro

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torcida chinesa

Torcedores da China durante jogo contra Nova Zelândia em março deste ano (Foto: Marty MELVILLE / AFP)

Não faz muito tempo, menos de 10 anos, que o futebol da China ganhava amplo espaço na mídia ao redor do mundo, inclusive no Brasil.

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Enquanto clubes investiam cifras bilionárias para contratar técnicos e jogadores de renome internacional, o líder chinês Xi Jinping era frequentemente visto chutando bolas em estádios dentro e fora do país.

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Tudo fazia parte de um plano, lançado na virada para 2016 e traçado pelo político, para criar uma cultura futebolística e fazer da nação mais populosa do mundo uma “superpotência do futebol” até 2050.

— O futebol passou a ser visto como o principal setor da indústria esportiva capaz de ampliar a geração de riquezas para o país, além de contribuir para o desenvolvimento econômico chinês — afirma Emanuel Leite, pesquisador associado da International College Football of Tongji University, de Xangai.

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Como tradicionalmente a China teve mais sucesso no futebol feminino, Xi tinha ambições especialmente para a seleção masculina: obter vaga na Copa do Mundo, sediar o torneio e conquistá-lo.

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Não são tarefas fáceis para uma nação que participou da competição apenas vez, em 2002, e figurava fora do top 70 do ranking da Fifa quando o plano foi revelado – hoje, está em 81º lugar. A solução do governo foi fazer um investimento pesado.

Para dar suporte às metas, conglomerados, construtoras e incorporadoras estatais chinesas, inflados por um boom no mercado imobiliário, encheram de dinheiro o principal campeonato doméstico do país, fazendo a Chinese Super League (CSL) rivalizar com as maiores ligas da Europa em termos de dinheiro investido.

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No ápice da temporada de 2015/16, foram gastos US$ 451 milhões (cerca de R$ 2,3 bilhões em valores da época) em transferências de atletas, fazendo o torneio figurar entre as cinco ligas com maior investimento no mundo.

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Parecia não haver limites para o sonho chinês, do qual fizeram parte técnicos campeões do mundo, como Luiz Felipe Scolari e Marcelo Lippi, e jogadores como Lavezzi, Hulk, Renato Augusto e Paulinho, todos eles atraídos por vultosos salários.

Tão rápida quanto a ascensão foi a queda. Decisões financeiras ruins, casos de corrupção em diversas esferas do esporte, além da crise financeira agravada pela pandemia de Covid-19, abalaram severamente as estruturas do futebol no país nos últimos três anos.

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Neste fim de semana, a temporada 2023 da CSL começa com 16 equipes, duas a menos do que na última edição, como resultado das exclusões de Kunshan FC e Guangzhou City. O primeiro renunciou à vaga por sua situação financeira, e o segundo não foi aprovado na etapa de admissão pelo mesmo motivo.

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Os dois casos não são exceções. Em 2021, o Jiangsu surpreendeu ao também encerrar as suas atividades logo após a conquista da CSL em razão da crise financeira da Suning, sua principal acionista.
A pandemia de Covid-19 apenas acelerou um processo que já estava em curso, uma vez que não houve um crescimento sustentável da liga chinesa.

— Para atrair grandes nomes para uma liga sem muita competitividade, os clubes ofereciam salários muito altos. Maiores do que a capacidade de geração de receitas. Existia o incentivo do governo e das empresas, mas a conta não fechava — diz Pedro Daniel, diretor executivo de esporte da empresa de consultoria EY.

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Com a pandemia, as fontes de receitas ficaram ainda mais escassas. Devido à política “zero Covid” do governo chinês, os campeonatos passaram os últimos três anos organizados em bolhas “biosseguras”, o que tirou as torcidas dos estádios e restringiu o convívio dos atletas com seus familiares. Como reflexo, muitos estrangeiros deixaram o país.

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Além disso, mudanças nas regras financeiras da liga, como multas para a utilização de atletas estrangeiros que dobravam seu custo, fizeram com que as grandes contratações praticamente cessassem. Com poucas estrelas, tornou-se mais difícil elevar o nível técnico dos atletas locais.

No auge da crise, nem os maiores clubes escaparam do baque. Em 2021, depois do colapso do grupo Evergrande, que desencadeou a pior crise do mercado imobiliário já registrada no país, o Guangzhou Evergrande não conseguiu pagar integralmente os salários dos jogadores. Em 2022, caiu para a segunda divisão.

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O declínio dos clubes e o fracasso na tentativa de elevar o nível técnico prejudicaram a meta de Xi Jinping de ver sua nação de volta à Copa do Mundo. A ausência no Qatar foi a quinta consecutiva da China no maior palco do futebol.

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A seleção chinesa tentou uma espécie de evolução artificial, buscando atletas nascidos e criados no exterior. A naturalização acelerada gerou situações controversas, como a de cinco brasileiros que ganharam a cidadania sem nenhuma ascendência chinesa.

Eles receberam novos nomes: Fernando tornou-se Fei Nanduo, Aloisio virou Luo Guofu, Elkeson era chamado de Ai Kesen, Ricardo Goulart de Gao Late e Alan Carvalho de A Lan. Durante a pandemia, no entanto, eles deixaram o país e o convite para trás.

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Não foram deixados de lado, no entanto, os planos do governo chinês. De acordo com o pesquisador Emanuel Leite, Xi Jinping está convencido da importância geopolítica do futebol e continuará a buscar soluções para alcançar seus objetivos.

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— O futebol serve como uma ponte, que estabelece ligações, conexões e, consequentemente, negócios — diz Leite, autor do livro “China, Futebol e Desenvolvimento: Socialismo e Soft Power”.

Para ele, a melhor forma para o país asiático suprir suas carências no esporte é buscar intercâmbios com parceiros como o Brasil.

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— Nós temos a expertise na formação de atletas, e há uma demanda enorme na China por aprender.

*Reportagem de Luciano Trindade

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