Foi a apresentação de solo de Rebeca Andrade que encerrou a final individual geral feminina do Mundial de ginástica, em Liverpool, na Inglaterra. Quando foi interrompida a melodia de “Baile de Favela”, a brasileira ergueu o braço, momento derradeiro de sua coreografia, e apenas esperou a medalha de ouro.
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Líder desde a primeira rotação, com uma execução excepcional no salto, ela precisava de um 12.901 para se manter à frente da norte-americana Shilese Jones. Os 14.400 lhe deram a conquista com folga, e ela pôde enfim comemorar um grande título com a música que a embalou nos últimos anos.
— É para mostrar do que o preto é capaz — afirmou, em entrevista ao SporTV. — Eu me sinto muito orgulhosa de levar essa música para o mundo todo, feliz que ela buscou o ouro. Acho muito, muito, legal que as pessoas tenham realmente gostado da música, da coreografia. Você vê como o público se levanta.
— No Brasil, são muitas dificuldades que uma pessoa preta tem para chegar ao alto rendimento. Para chegar, eu tive muita ajuda, de todo o mundo, dos vizinhos, dos que emprestaram dinheiro, fiquei na casa dos outros para treinar. Então, representa toda a minha história, toda a minha luta. Espero continuar fazendo história — acrescentou.
Agora, a paulista de Guarulhos adotará nova coreografia, com outra trilha.
— É até triste me despedir — afirmou. Mas o funk de MC João -que foi composto em 2015 e explodiu no Réveillon de 2016, exaltando bailes de rua de São Paulo e retratando sua realidade- já está na história da ginástica artística brasileira.
Também está na história o nome de Rebeca, primeira pessoa do país a conquistar o título individual geral no Mundial. Ela já tinha levado ouro por aparelhos no salto -nos Jogos Olímpicos de Tóquio e no Mundial do Japão, ambos em 2021-, mas foi só agora que assumiu o posto de ginasta mais completa do planeta.
— Significa todo meu trabalho, o trabalho da equipe disciplinar, o das meninas que treinam comigo. A gente trabalha muito duro. E estou muito orgulhosa das meninas que se apresentaram também. Sei quanto trabalho e tenho certeza de que elas trabalham muito também. Por isso, arrasaram — disse a atleta de 23 anos.
Estudante universitária de psicologia, ela exaltou também a atuação de sua psicóloga. Sempre demonstrando muita calma, a brasileira não teve celebrações em lamentações efusivas como muitas de suas adversárias. Ela disse não ter prestado atenção no desempenho das concorrentes para ficar concentrada no seu.
— Não gosto de pensar no que as pessoas estão fazendo, mas no que eu realmente tenho que fazer — declarou. — Eu não percebo nada, não vejo nada. Vejo as meninas fazendo as provas, mas ao mesmo tempo estou muito nos meus pensamentos. Sabe quando você está vendo televisão, mas começa a mexer no celular e só percebe o movimento?
A tática funcionou.
