“A condenação não vai trazer a minha filha de volta, mas alivia um pouco o coração”. A frase é do pai da advogada Karize Ana Fagundes Lemos, após o homem condenado pela morte dela receber uma pena de 31 anos e 10 meses de prisão. O julgamento ocorreu nesta quinta-feira (10), no Tribunal do Júri da Comarca de Caçador, no Meio-Oeste de Santa Catarina, e durou quase 15 horas.
Eloid da Cruz Antunes foi condenado pelo assassinato da advogada, ocorrido em setembro de 2024, além de ocultação de cadáver. A sentença foi lida às 22h27, após sete testemunhas serem ouvidas e as provas do processo serem analisadas pelos jurados.
Para Rudnei, pai de Karize, a condenação representa um alívio depois de quase dois anos de dor, buscas e espera por Justiça.
A gente sofre muito. Foram 40 dias de muita angústia, e quando o corpo finalmente foi encontrado nem consegui fazer um velório decente, pois ele já estava em decomposição. A condenação não vai trazer a minha filha de volta, mas alivia um pouco o coração.
Após a morte da filha, Rudnei também precisou passar por um cateterismo, segundo relatou durante o processo.
Colegas acompanharam julgamento
O salão do Tribunal do Júri ficou ocupado durante todo o dia por familiares, amigos e colegas de profissão de Karize. Entre as testemunhas estava a vizinha Vitória de Oliveira, que acompanhava a advogada durante a recuperação de uma cirurgia e costumava levar sopa para ela.
Emocionada, Vitória relembrou a convivência com Karize e os dias de angústia vividos após o desaparecimento.
“A gente se dava muito bem, ela era uma pessoa excelente e confesso que até hoje não caiu a ficha. Não dá para acreditar que fizeram uma crueldade dessas com ela”, afirmou.
Quase dois anos de espera
Karize foi assassinada em 28 de setembro de 2024, mas o julgamento ocorreu apenas nesta quinta-feira. Nesse período, a família enfrentou a dor do desaparecimento, as buscas pelo corpo e a espera pela responsabilização do acusado.
A advogada havia passado recentemente por uma cirurgia nos rins e estava se recuperando quando foi morta. Meses antes do crime, também havia comprado um carro e aberto o próprio escritório de advocacia.
A sessão começou às 7h30 e terminou às 22h27, quando a sentença foi lida. Sete testemunhas foram ouvidas: um amigo e uma vizinha de Karize, dois policiais civis que participaram das investigações, uma frentista do posto de combustível onde o réu esteve após o crime e dois amigos que receberam uma ligação dele depois da morte.
Corpo foi levado para o Paraná
Conforme as investigações, Eloid utilizou uma corda de sisal retirada de um arranhador de gatos para matar Karize.
Depois, enrolou o corpo em um cobertor, colocou a vítima dentro do carro e deixou Caçador. No caminho, parou em um posto de combustível, abasteceu o veículo e saiu sem pagar.
O homem seguiu por aproximadamente 150 quilômetros até Palmas, no Paraná, onde abandonou o corpo em uma plantação de pinus.
Depois de deixar a vítima no local, telefonou para dois amigos e contou o que havia feito. Os dois procuraram uma delegacia e relataram o conteúdo da conversa, o que ajudou a desencadear as buscas.
Eloid foi preso dois dias após o crime, em um motel de Guaíra, no Paraná, próximo à fronteira com o Paraguai. Segundo a investigação, ele não conseguiu deixar o país porque a fronteira estava fechada para obras.
Investigação descobriu onde estava o corpo
O réu não informou aos investigadores o local onde havia deixado Karize. A localização foi descoberta por meio de um trabalho de inteligência baseado em dados extraídos do celular.
Como o corpo estava em avançado estado de decomposição, a identificação foi feita por meio da comparação da arcada dentária com um exame odontológico realizado anteriormente pela vítima.
A perícia também identificou o roupão que Karize usava e o cobertor que envolvia o corpo. Os dois objetos apareciam em fotografias publicadas anteriormente nas redes sociais.
Promotores destacaram provas do crime
Durante o julgamento, os promotores de Justiça Diego Bertoldi e Marco Antônio Vargas Sandi sustentaram as acusações apresentadas pelo Ministério Público de Santa Catarina (MPSC).
Bertoldi destacou a ausência da vítima no plenário.
“Neste plenário há uma pessoa que não pode clamar por justiça, e essa pessoa se chama Karize, mas o Ministério Público de Santa Catarina está aqui para falar em nome dela.”
Segundo os promotores, o conjunto de provas apresentado aos jurados demonstrou a autoria e as circunstâncias do crime.
Eloid confessou o assassinato durante o interrogatório. Ele chegou ao Fórum de Caçador em uma viatura da Polícia Penal e retornou ao presídio depois da leitura da sentença.
Condenação
Eloid foi condenado por homicídio qualificado por feminicídio, motivo torpe, asfixia e recurso que dificultou a defesa da vítima, além de ocultação de cadáver. A pena total foi de 31 anos e 10 meses de prisão.
O crime ocorreu em setembro de 2024, antes da mudança na legislação que transformou o feminicídio em crime autônomo. Por isso, juridicamente, o processo considerou o feminicídio como qualificadora do homicídio, conforme a legislação vigente na época.
A defesa foi realizada por dois advogados, e o réu teve assegurados os direitos ao contraditório e à ampla defesa.




