Caso Karize: ex-companheiro é condenado a 31 anos de prisão por matar advogada com corda de arranhador de gatos

Eloid da Cruz Antunes foi condenado a 31 anos e 10 meses de prisão por matar Karize Ana Fagundes Lemos, em Caçador; julgamento durou quase 15 horas

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Advogada foi morta pelo companheiro após cirurgia e corpo foi levado para o Paraná (Foto: MPSC, Divulgação)

Karize Ana Fagundes Lemos tinha acabado de passar por uma cirurgia nos rins quando foi morta pelo companheiro dentro da própria casa, em Caçador, no Meio-Oeste de Santa Catarina. O corpo da advogada foi enrolado em um cobertor, colocado dentro de um carro e levado por cerca de 150 quilômetros até o Paraná, onde foi abandonado em uma plantação de pinus.

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Quase dois anos depois do crime, Eloid da Cruz Antunes foi condenado a 31 anos e 10 meses de prisão. A sentença foi proferida na noite desta quinta-feira (10), no Tribunal do Júri da Comarca de Caçador, após uma sessão que durou quase 15 horas.

O réu foi condenado pelos crimes de homicídio qualificado por feminicídio, motivo torpe, asfixia e recurso que dificultou a defesa da vítima, além de ocultação de cadáver.

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Karize foi morta em 28 de setembro de 2024. Segundo a investigação, o crime ocorreu depois que ela manifestou ao companheiro a intenção de terminar o relacionamento. Na época, ela ainda se recuperava de uma cirurgia e estava debilitada.

O julgamento reuniu familiares, amigos, colegas de profissão e pessoas interessadas em acompanhar o desfecho do caso. A sentença trouxe algum alívio ao pai da vítima, Rudnei, que relatou ter enfrentado um período de profunda angústia desde o desaparecimento da filha.

“A gente sofre muito. Foram 40 dias de muita angústia, e quando o corpo finalmente foi encontrado nem consegui fazer um velório decente, pois ele já estava em decomposição. A condenação não vai trazer a minha filha de volta, mas alivia um pouco o coração”, afirmou.

Como Karize foi morta

As investigações apontaram que Karize foi enforcada com uma corda de sisal, que teria sido retirada de um arranhador de gatos. Conforme a denúncia apresentada pelo Ministério Público de Santa Catarina (MPSC), o crime foi motivado por ciúmes e aconteceu depois que a advogada demonstrou que queria encerrar o relacionamento.

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Após a morte, o homem teria enrolado o corpo em um cobertor e colocado a vítima no carro. Na sequência, dirigiu até um posto de combustível. Segundo a investigação, abasteceu o veículo e saiu do local sem pagar. Depois, percorreu aproximadamente 150 quilômetros até Palmas, no Paraná, onde abandonou o corpo em uma área de plantação de pinus.

Ainda conforme a investigação, depois de deixar o corpo no local, Eloid telefonou para dois amigos e contou o que havia feito.

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Os amigos procuraram a polícia e relataram o conteúdo da conversa. A partir das informações, foi iniciada uma operação com apoio da Polícia Civil do Paraná. O suspeito foi preso dois dias depois do crime, em um motel de Guaíra, no Paraná, próximo à fronteira com o Paraguai.

Segundo as investigações, ele teria tentado deixar o país, mas não conseguiu porque a fronteira estava fechada para obras.

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Corpo foi encontrado após análise de dados

Durante as buscas, Eloid não informou aos investigadores onde havia deixado o corpo de Karize. A localização foi descoberta a partir de um trabalho de inteligência baseado em dados extraídos do celular.

A identificação da vítima também exigiu trabalho pericial. Como o corpo estava em avançado estado de decomposição, a confirmação foi feita por meio da comparação da arcada dentária com um exame odontológico realizado anteriormente por Karize.

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A perícia também encontrou elementos que ajudaram a confirmar a identidade. O roupão usado pela vítima e o cobertor que envolvia o corpo eram os mesmos que apareciam em fotografias publicadas anteriormente nas redes sociais.

Julgamento durou quase 15 horas

A sessão do Tribunal do Júri começou às 7h30min e terminou às 22h27min, quando a sentença foi lida. Ao longo do julgamento, sete testemunhas foram ouvidas. Entre elas estavam um amigo e uma vizinha de Karize, dois policiais civis envolvidos na investigação, uma frentista do posto de combustível onde o réu esteve após o crime e os dois amigos que receberam a ligação dele.

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A vizinha Vitória de Oliveira contou que costumava levar sopa para Karize durante a recuperação da cirurgia. Durante o depoimento, relembrou a convivência com a advogada e os dias de angústia após o desaparecimento.

“A gente se dava muito bem, ela era uma pessoa excelente e confesso que até hoje não caiu a ficha. Não dá para acreditar que fizeram uma crueldade dessas com ela”, disse, emocionada.

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Eloid chegou ao Fórum de Caçador escoltado em uma viatura da Polícia Penal e retornou ao presídio depois do julgamento. Durante o interrogatório, confessou o crime.

A defesa foi realizada por dois advogados. O réu teve assegurados os direitos previstos constitucionalmente, incluindo o contraditório, a ampla defesa e o julgamento pelo Tribunal do Júri.

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Caso ocorreu antes de mudança na lei

Embora a condenação tenha considerado a qualificadora do feminicídio, o caso possui uma particularidade jurídica. O crime ocorreu em setembro de 2024, antes da entrada em vigor da lei que transformou o feminicídio em crime autônomo. Por isso, o processo foi julgado com base na legislação vigente à época dos fatos.

A legislação penal brasileira não pode retroagir para prejudicar o réu. Dessa forma, a condenação considerou o feminicídio como qualificadora do homicídio, e não como um crime autônomo.

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Karize havia aberto o próprio escritório

Meses antes de ser assassinada, Karize havia vivido importantes momentos pessoais e profissionais. A advogada tinha comprado um carro e aberto o próprio escritório de advocacia, dando continuidade a projetos profissionais que foram interrompidos pela violência.

No Tribunal do Júri, os promotores de Justiça Diego Bertoldi e Marco Antônio Vargas Sandi sustentaram as acusações apresentadas na denúncia e reconstruíram para os jurados a dinâmica do crime.

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Durante a sessão, Bertoldi destacou que a vítima não poderia estar presente para falar sobre o que aconteceu.

“Neste plenário há uma pessoa que não pode clamar por justiça, e essa pessoa se chama Karize, mas o Ministério Público de Santa Catarina está aqui para falar em nome dela.”

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Já Sandi afirmou que as provas reunidas ao longo da investigação demonstravam a dinâmica e a autoria do crime.

Três gatos também foram mortos

Karize também era conhecida pelo cuidado com animais. Segundo familiares e pessoas próximas, ela costumava resgatar gatos das ruas e encaminhá-los para tratamento. Na época do crime, ela tinha cinco gatos em casa.

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As investigações apontaram que três dos animais também foram mortos no mesmo dia, possivelmente utilizando a mesma corda empregada contra Karize. Os outros dois conseguiram deixar o imóvel antes de serem atacados.

Caso aparece nas estatísticas do Mapa do Feminicídio

O assassinato de Karize também se enquadra em padrões identificados pelo Mapa do Feminicídio do Ministério Público de Santa Catarina.

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Segundo os dados apresentados pelo órgão, 63,9% das vítimas de feminicídio em Santa Catarina são mortas por parceiros ou ex-parceiros. No caso de Karize, o crime também ocorreu depois que ela manifestou o desejo de terminar o relacionamento, situação identificada em 45,8% dos casos de feminicídio analisados pelo MPSC.

A condenação encerra a etapa do julgamento em primeira instância, mas não devolve à família a vítima nem os planos que ela tinha para a própria vida. Para o pai de Karize, a sentença representa, ao menos, o reconhecimento da responsabilidade do homem condenado pela morte da filha.