Como mangueiras, vasos e até ervilhas ajudaram a Justiça de SC a economizar R$ 100 milhões

Modelo de jurimetria aplicado na justiça catarinense trouxe economia milionária nos últimos anos

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Como a análise de dados fez a Justiça de SC economizar R$ 100 milhões por ano (Foto Divulgação, TJSC)

Como a análise de dados fez a Justiça de SC economizar R$ 100 milhões por ano (Foto: Divulgação, TJSC)

Uma ação judicial foi ajuizada a cada 20 segundos em Santa Catarina em 2025. Diante de uma das maiores cargas de trabalho do Judiciário brasileiro, servidores do Tribunal de Justiça de Santa Catarina (TJSC) recorreram a uma solução inusitada: desenvolveram um modelo próprio de jurimetria inspirado em mangueiras, vasos e ervilhas. Segundo o tribunal, a estratégia já gerou uma economia superior a R$ 100 milhões por ano e aumentou a produtividade.

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A jurimetria é uma área que utiliza estatísticas, matemática e análise de dados para entender como a Justiça funciona e ajudar na tomada de decisões. No TJ, a técnica passou a ser usada para identificar gargalos, redistribuir processos entre as comarcas e planejar a estrutura do Judiciário.

O matemático Filipe Ivo Rosa, integrante do Núcleo de Dados e Indicadores da Diretoria de Planejamento e Finanças do TJSC, explica que a análise dos dados permitiu criar iniciativas como o programa Jurisdição Ampliada e o regime de cooperação entre gabinetes, voltados a reduzir desigualdades na carga de trabalho entre as unidades judiciais.

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A “mangueira” que equilibra processos

Para explicar um dos modelos desenvolvidos pelo tribunal, Filipe recorre ao princípio dos vasos comunicantes, conhecido da Física. Nele, recipientes ligados por uma mangueira tendem a manter o mesmo nível de líquido. A mesma lógica foi adaptada para distribuir processos entre as comarcas catarinenses.

Santa Catarina possui 113 comarcas, ou seja, divisões territoriais da Justiça Estadual, das quais 40 têm apenas uma vara. Mesmo entre as de pequeno porte, há diferenças: algumas recebem muito mais processos do que conseguem julgar, enquanto outras têm capacidade para absorver mais trabalho.

— Antes eram duas realidades paralelas. Hoje, nós conectamos essas duas realidades por uma “mangueira”. Todo mês é calculada automaticamente a média de entrada de processos desse grupo de comarcas. Aquelas que recebem mais processos do que a média passam a encaminhar parte dessas ações para as comarcas com menor demanda. Isso causa equilíbrio na carga de trabalho — explica o matemático em palestra no TEDx Talks Blumenau.

Segundo o TJSC, o programa Jurisdição Ampliada redistribui cerca de 2 mil processos por mês sem a necessidade de contratar novos servidores ou criar novas estruturas. A economia estimada é superior a R$ 100 milhões por ano.

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As ervilhas que ajudaram a prever gargalos

Nem todos os problemas, porém, podem ser resolvidos apenas redistribuindo processos. Em alguns casos, é preciso identificar onde estão concentradas as maiores dificuldades. Para isso, o tribunal utiliza o chamado princípio de Pareto, conhecido como a regra 80/20.

A teoria surgiu em 1896, quando o economista italiano Vilfredo Pareto observou que cerca de 80% das ervilhas colhidas vinham de apenas 20% das vagens. A partir dessa constatação, desenvolveu a ideia de que uma pequena parcela das causas costuma ser responsável pela maior parte dos efeitos.

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— Com base nesse princípio, podemos dizer que cerca de 80% do aumento do acervo processual está concentrado em aproximadamente 20% das unidades judiciais — afirma Filipe.

A identificação dessas unidades permite que o tribunal concentre esforços onde o impacto tende a ser maior.

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Modelo prevê quantos processos chegarão à Justiça

Além da redistribuição de processos, o TJSC desenvolveu um modelo estatístico capaz de prever a demanda da Justiça nos próximos anos.

O sistema leva em conta indicadores como crescimento da população, Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), número de veículos, casamentos, separações, nascimentos e o histórico de processos em cada comarca. Com essas informações, estima quantos novos casos deverão chegar a cada unidade judicial.

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Segundo o tribunal, a previsão permite antecipar necessidades de estrutura, evitar sobrecargas e orientar decisões sobre distribuição de servidores e recursos.

— Hoje temos muito mais informações para tomar decisões. Conseguimos fazer previsões que tornam as ações mais assertivas, baseadas nas tendências observadas. Isso traz mais segurança porque existe um método científico por trás das decisões — afirma o servidor.

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Por trás dos números existem pessoas

Apesar de trabalhar diariamente com estatísticas, Filipe faz questão de lembrar que cada processo representa a história de alguém:

— Por trás de cada número existe uma mãe esperando uma pensão alimentícia, um trabalhador aguardando uma indenização ou uma família que depende de uma decisão da Justiça. Os dados são importantes, mas nunca podemos esquecer das pessoas que eles representam.