Governo oferece quase R$ 1 milhão para quem combater praga aquática

Agência federal Bureau of Reclamation oferece prêmio de até US$ 200 mil (cerca de R$ 1 milhão) para quem apresentar tecnologias capazes de combater os mexilhões quagga, zebra e dourado, este último também presente em rios e lagos brasileiros há mais de duas décadas

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Governo oferece quase R$ 1 milhão para quem combater praga aquática

Um aglomerado de sargaço, uma espécie invasora de alga, flutua na correnteza ao largo da costa de La Parguera, em Porto Rico. (Foto: NASA/Milan Loiacono)

Um desafio que assola gestores de recursos hídricos e operadores de hidrelétricas em todo o mundo são as pequenas espécies aquáticas invasoras que conseguem se proliferar em sistemas de captação, tubulações e reservatórios, comprometendo a infraestrutura hídrica e a geração de energia.

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Foi pensando nesse problema, mais especificamente em espécies como os mexilhões quagga, zebra e dourado, que o governo dos Estados Unidos lançou uma competição: até US$ 200 mil, cerca de R$ 1 milhão na cotação atual, serão pagos a quem apresentar soluções inovadoras para conter a disseminação desses moluscos.

A iniciativa é da Bureau of Reclamation, agência federal dos Estados Unidos responsável por boa parte do abastecimento de água e da geração de energia hidrelétrica do país.

Desafio “Halt the Hitchhiker”

A competição se chama Halt the Hitchhiker: Invasive Species Challenge (“Detenha o carona: Desafio das Espécies Invasoras”). Segundo o site oficial, o objetivo é encontrar “soluções inovadoras para eliminar o risco de espécies aquáticas invasoras transportadas em água residual presa nos compartimentos de lastro das embarcações”, as estruturas internas que os barcos usam para se equilibrar na água.

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As propostas precisam ser capazes de eliminar, excluir ou inativar os mexilhões quagga, zebra e dourado, sem prejudicar embarcações, pessoas ou o meio ambiente, e sem gerar resíduos perigosos. Podem se candidatar pesquisadores, universidades, startups e inventores baseados nos Estados Unidos. As inscrições da primeira fase encerram em 29 de maio de 2026, e o vencedor final será anunciado no fim de setembro de 2027.

Como funciona o problema

Mesmo quando uma embarcação parece estar seca, sempre permanecem pequenas quantidades de água em mangueiras, válvulas e compartimentos de lastro fora do alcance dos inspetores. Essa água residual pode carregar veligers, as larvas microscópicas dos mexilhões, que sobrevivem ao deslocamento entre lagos e reservatórios, especialmente nos finais de semana de pico do turismo náutico.

Quando esses moluscos se instalam em um novo corpo d’água, eles se reproduzem rapidamente e se acumulam em sistemas de captação de cidades, fazendas e usinas de energia, em tubulações e bombas. Os equipamentos perdem força e potência, e o custo de manutenção dispara.

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Etapas e prêmios da competição

A competição é organizada pela empresa de inovação yet2 e dividida em três fases:

  • Fase 1 (Conceito): até seis equipes vencedoras recebem até US$ 25 mil cada para apresentar conceitos de novas tecnologias de inspeção ou descontaminação;
  • Fase 2 (Pitch virtual): até três equipes podem receber até US$ 50 mil cada após apresentação no formato de pitch virtual, para avançar com o desenvolvimento dos projetos;
  • Fase 3 (Protótipos em laboratório): três equipes desenvolvem protótipos para testes em laboratório, com prêmios de até US$ 125 mil (cerca de R$ 625 mil) para o primeiro lugar; US$ 75 mil (R$ 375 mil) para o segundo; e US$ 50 mil (R$ 250 mil) para o terceiro.

Se distribuído entre equipes diferentes em todas as fases, o pagamento total da competição pode chegar a US$ 550 mil, segundo a Bureau of Reclamation.

Um problema bilionário, e que também afeta o Brasil

Apenas os mexilhões quagga e zebra já causam mais de US$ 1 bilhão (cerca de R$ 5 bilhões) por ano em prejuízos nos Estados Unidos, segundo dados da própria agência federal. A urgência aumentou após a detecção do mexilhão-dourado no delta do Sacramento-San Joaquin, na Califórnia, em outubro de 2024. Em poucos meses, foram registradas centenas de exemplares em uma única estação de bombeamento.

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A história tem um paralelo direto com o Brasil. O mexilhão-dourado (Limnoperna fortunei), um dos alvos da competição americana, é uma espécie originária da Ásia e chegou à América do Sul nos anos 1990, também por meio de água de lastro de navios cargueiros, com a Argentina como ponto de entrada, segundo o Ibama. A espécie já está presente nas regiões Sul, Sudeste, Centro-Oeste e, mais recentemente, foi detectada na bacia do rio São Francisco.

Em Santa Catarina, o mexilhão-dourado foi incluído em junho de 2025 na nova lista oficial de espécies exóticas invasoras do Instituto do Meio Ambiente (IMA). De acordo com o Programa Estadual de Espécies Exóticas Invasoras, ele integra um conjunto de 99 espécies invasoras que ameaçam a biodiversidade catarinense. Estudo divulgado em 2024 e noticiado pelo NSC Total estimou que apenas 16 espécies invasoras causaram prejuízo mínimo de bilhões de reais ao Brasil em 35 anos.

Enquanto não há solução

Enquanto o desafio americano não avança, o controle dessas pragas segue sendo feito por programas de inspeção e descontaminação manuais, que demandam tempo e mão de obra especializada. O processo geralmente começa com o enxágue dos compartimentos das embarcações com água aquecida, procedimento que pode levar até uma hora por barco e que se torna gargalo nos finais de semana de alta temporada turística.

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A expectativa é que as tecnologias desenvolvidas pela competição “Halt the Hitchhiker” complementem (sem substituir) os programas de inspeção tradicionais.