Um estudo com a participação de uma pesquisadora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) revela que espécies de plantas, animais e microrganismos, que não fazem parte do ecossistema brasileiro, mas que vivem aqui, causam prejuízo bilionário, principalmente por serem vetores de pragas e doenças. O prejuízo se reflete, principalmente, em custos relacionados a perdas de produção e horas de trabalho, além de internações hospitalares e interferência na indústria de turismo.

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A pesquisa é inédita e mostra que existem 476 espécies conhecidas como exóticas invasoras registradas no Brasil, sendo 268 animais e 208 plantas e algas, na maioria nativas da África, da Europa e do sudeste asiático. Entre elas, estão espécies distintas, como tilápia, javali, mexilhão dourado, sagui, pinus, tucunaré, coral-sol, búfalo, mamona e amendoeira-da-praia, por exemplo.

Ebook mostra cinco espécies de invasores que ameaçam a biodiversidade de Santa Catarina

Em Santa Catarina há a presença invasora de duas espécies emblemáticas: os pinheiros americanos e o javali. No caso dos pinheiros, se eles estão em áreas abertas, como restinga ou campos de cima da Serra, a especialista afirma que as plantações acabam sombreando a vegetação nativa e a alterando por completo, já que as nativas não conseguem mais permanecer no local e, consequentemente, muda o habitat dos animais naturais da região.

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— A gente tem toda uma alteração no sistema, que significa também um impacto para nós, humanos, porque a gente não tem mais insetos que polinizam, por exemplo. E eles são importantes para a nossa alimentação, para plantas medicinais, enfim. Então esses impactos, apesar de serem ambientais, também chegam à espécie humana — exemplifica Michele de Sá Dechoum, professora adjunta do departamento de Ecologia e Zoologia da UFSC.

Já o javali provoca uma série de impactos ambientais, econômicos e até sociais para o Estado. Michele cita que muitos produtores rurais, por exemplo, perdem a fonte de renda, porque o animal destrói roças, e ainda representa um risco para a saúde de criações, especialmente na de suínos, porque é um transmissor de doenças.

Veja algumas das espécies invasoras no território brasileiro

Desenvolvimento das espécies

A professora, que participou da pesquisa, explica que essas espécies exóticas chegam e se criam fora de seu habitat natural por influência da ação humana, seja de forma intencional ou acidental, e são uma das cinco maiores causas de perda de biodiversidade em escala global.

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Elas são identificadas não nativas a partir do conhecimento de pesquisadoras da flora, da fauna e de micro-organismos. Também há uma base de dados gerenciada pelo Instituto de Desenvolvimento e Conservação Ambiental utilizada como referência sobre o tema.

A principal porta de entrada dos invasores é o comércio de animais de estimação e de plantas ornamentais e hortícolas, e estão presentes em todos os ecossistemas, com maior concentração em ambientes degradados ou de alta circulação humana. Segundo a professora, há registro de espécies exóticas invasoras em todos os ambientes brasileiros e reforça que não existe um ecossistema que seja resistente ou imune a elas.

— Essas espécies vêm sendo introduzidas no Brasil desde o momento em que as grandes navegações começaram e isso se intensificou muito, mas especialmente a partir da Revolução Industrial e a partir do processo de globalização. Esse mundo globalizado no qual a gente vive, no qual o transporte de mercadorias e pessoas leva a introdução de muitas espécies, isso foi muito intensificado — diz a especialista.

Michele explica que, uma vez transportadas para fora de sua área de distribuição natural, que pode ser dentro do país ou fora, ao chegar em um novo ambiente, as espécies invasoras ocupam o espaço das espécies nativas, se dispersam para novas áreas e acabam gerando uma série de impactos.

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No meio ambiente, a presença delas pode alterar fisicamente e biologicamente o espaço. Como competem com espécies nativas, podem ser suas predadoras e levar algumas delas até à extinção. Isso tudo resulta na perda de biodiversidade.

Prejuízo bilionário à economia

Na economia, ao longo de 35 anos (1984 a 2019), o estudo aponta que o prejuízo mínimo estimado em razão dos impactos ocasionados por apenas 16 espécies exóticas invasoras variou de US$ 77 bilhões a US$ 105 bilhões de dólares – uma média anual de R$ 2 bilhões a R$ 3 bilhões.

O que ocasiona mais estragos são as pragas agrícolas e silviculturais (US$ 28 bilhões) e vetores de doenças (US$ 11 bilhões). Nesses setores, os custos são atrelados a perdas de produção e horas de trabalho, internações hospitalares e interferência na indústria de turismo.

O mexilhão dourado também é um dos principais vetores de sérios danos econômicos, afetando empreendimentos hidrelétricos, estações de tratamento de água e tanques-rede de fazendas aquícolas. Autores da pesquisa citam que a limpeza das bioincrustações pode custar R$ 40 mil por dia para uma usina de pequeno porte. Para grandes usinas, como a de Itaipu, esses valores atingem R$ 5 milhões por dia, por causa da paralisação das turbinas.

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Possíveis saídas para controle das espécies

No documento, especialistas que participaram do estudo apontam possíveis caminhos para que esta temática seja trabalhada, tanto na gestão pública quanto privada, para gerar cada vez menos impactos ao ecossistema.

Michele de Sá Dechoum aponta que Santa Catarina é referência no assunto, pois possui um programa estadual sobre controle de espécies invasoras, que é coordenado pelo Instituto de Meio Ambiente do Estado (IMA). Algumas espécies, inclusive, já vêm sendo controladas em unidades de conservação.

Para ela, esta iniciativa deveria ser replicada em outros estados e indica a necessidade da execução de outros projetos de prevenção a fim de controlar e erradicar as espécies não nativas, principalmente quando elas chegam aos locais, para que o custo seja menor.

— Muitas das espécies têm um uso econômico, então é importante que a iniciativa privada reconheça que isso é um problema, assuma a responsabilidade. É um problema que só vai ser resolvido pela cooperação de diferentes instituições e atores envolvidos, tanto diretamente quanto indiretamente, incluindo toda a sociedade — reforça.

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No caso da sociedade, ela recomenda que as pessoas tenham cuidado no momento em que escolhem uma planta para o jardim e que busquem informações se é um organismo nativo ou não. Já quem tem animal de estimação em casa, o documento pede que tenham uma posse responsável e que não os deixem soltos na natureza, para evitar que passem doenças ou predem a fauna silvestre.

Michele também orienta que o setor de plantas ornamentais comece, cada vez mais, a trabalhar na perspectiva de uso das nativas e que os órgãos de extensão rural deixem de disseminar espécies invasoras e comecem a promover as nativas.

— Isso é uma emergência que nós temos hoje — define.

O estudo

No relatório, foram identificadas 1.004 evidências de impactos negativos e apenas 33 positivos, pontuais e de curta duração, em ambientes naturais pela presença das espécies exóticas e invasoras. O estudo teve a duração de três anos e contou com a participação de 73 autores líderes e mais 12 autores contribuintes de 40 organizações que englobam instituições de ensino e pesquisa, órgãos de governo e representantes de ONGs.

O documento tem o objetivo de listar as espécies, suas principais formas de introdução e os ambientes que ocupam, além de apontar os impactos provocados e as medidas de gestão recomendadas para o Brasil enfrentar essa ameaça em curto, médio e longo prazos.

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