“Não temos água pra tomar banho”: moradores vivem pesadelo após comprar terrenos irregulares em Florianópolis

Imóveis são vendidos com promessa de futura regularização e viram dor de cabeça para moradores; falta de legalidade dificulta acesso a serviços básicos

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Moradores relatam problemas gerados pela falta de legalização dos imóveis (Foto: Reprodução, NSC TV)

Falta de energia elétrica, água e dificuldade de acesso a serviços públicos básicos, como coleta de lixo, marcam a vida de pessoas que compraram terrenos irregulares em Florianópolis. Os moradores receberam a promessa de que os imóveis seriam legalizados, mas não têm a documentação em mãos mesmo morando há anos no local.

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Marina Barbosa Marcolino mora no Rio Vermelho, bairro com mais ocupações irregulares. Ela não tem documentação do imóvel e convive com serviços básicos restritos, chegando a sofrer com anos de cortes de energia e gatos. Agora, o serviço foi regularizado, mas ela ainda possui outros problemas.

“Chega quinta ou sexta-feira alguém fica sem banho. Eu tenho uma caixa de 500 litros, são três pessoas dentro da casa e não fazemos nada no fim de semana. Não temos água pra tomar banho porque a água não sobe”, relatou ao Jornal do Almoço, da NSC TV.

FOTOS: Ocupações irregulares transformam cenário de Florianópolis

Marina mora na mesma rua que Edson Borges, que se mudou para o bairro há 10 anos. Ele chegou na Capital em busca de um local mais tranquilo e seguro para viver. 

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Edson procurou uma imobiliária, comprou um terreno por R$ 60 mil num loteamento e começou a construir. Contudo, isso não impediu que ele tivesse problemas com a regularização do imóvel. A rua ainda não tinha infraestrutura, mas a imobiliária prometeu que teria.

“Em pouco tempo já ia regularizar tudo. Ia ser ligado o relógio com tudo. Tava tudo certinho pelo que passaram pra nós na imobiliária”, aponta o morador.

Desde a construção, porém, Edson ainda não tem a documentação. A imobiliária que vendeu o terreno não existem mais.

“Não tínhamos nome na rua, não tinha CEP,não entrava correspondência, nada. Não entrava caminhão de lixo, tínhamos que levar tudo lá na ponta da rua nos dias que passavam. Não tínhamos luz”, relata Edson.

O que tem sido feito para frear as construções ilegais?

Desde 2025, a Operação Solo Legal derrubou 171 imóveis que estavam em construção irregularmente em Florianópolis. Já foram 11 fases da operação, que é uma das principais estratégias das autoridades para combater as ocupações ilegais na capital catarinense.

“A demolição sumária hoje é um mecanismo que não existia antes e que permite que o município faça essa fiscalização e faça essa prevenção desses crimes ambientais e de parcelamento irregular de solo”, destaca a delegada Aline Hermes.

Veja fotos da operação

As operações no município envolvem as Polícias Civil e Militar, prefeitura, Justiça, guarda municipal e órgãos de fiscalização ambiental. A estratégia de juntar forças tem sido usada para lidar com a falta de profissionais para fiscalizar toda a cidade. Um dos objetivos atuais é encontrar quem negocia os terrenos irregulares, segundo a vice-prefeita de Florianópolis e secretária de Segurança Pública, Maryanne Mattos.

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“O que eu deixo de alerta pras pessoas que elas procurem a prefeitura antes de comprar qualquer área em Florianópolis. Procure a prefeitura, veja se essa área é viável, se não há uma área de preservação permanente no local, para não ser vítima de um golpe. Se for irregular, em algum momento, a gente vai chegar lá e vai derrubar”, afirma.

Quem compra esses imóveis?

Diferentemente do que se possa imaginar, a maioria dos imóveis irregulares não pertence a pessoas em situação de vulnerabilidade. De acordo com dados da prefeitura, famílias de baixa renda representam apenas 6% dos chamados ‘núcleos urbanos informais”.

Segundo o mesmo estudo, as áreas irregulares são fruto, principalmente, de loteamentos clandestinos e irregulares. A delegada Aline Hermes, uma das responsáveis pela Operação Solo Legal, afirma que a “grilagem de terra” é o maior causador das ocupações irregulares.

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“Começando a ouvir as pessoas e seus depoimentos, eu comecei a entender que geralmente eram as mesmas pessoas, os mesmos personagens, que estavam fazendo o que a gente chama de grilagem: invadindo e revendendo essas terras muitas vezes com intermédio de corretores de imóveis e imobiliárias”, aponta Aline.

O município tem usado a REURB, projeto de regularização fundiária urbana. A ideia, quando o projeto foi lançado, era garantir mais de 25 mil regularizações. Mas, desde 2023, 1,2 mil famílias conseguiram regularizar totalmente a situação dos imóveis.

Outros 1,5 mil processos de regularização fundiária estão em tramitação, além de 12 núcleos de Reurb/Social em implantação, que, segundo a Prefeitura, vão beneficiar aproximadamente 3 mil imóveis.

Veja lista dos bairros com mais construções irregulares em Florianópolis

  1. São João do Rio Vermelho 81,84%
  2. Campeche 71,80% 
  3. Ingleses do Rio Vermelho 66,35% 
  4. Barra da Lagoa 51,46%
  5. Cachoeira do Bom Jesus 48,37%
  6. Pântano do Sul 42,98% 
  7. Lagoa da Conceição 38,39%
  8. Ribeirão da Ilha 35,98% 
  9. Ratones 34,09%
  10. Canasvieiras 16,58%
  11. Santo Antônio de Lisboa 16,26%