Uma pequena ave brasileira passa boa parte do ano longe do lugar onde se reproduz. A patativa-tropeira (Sporophila beltoni) percorre entre 3 mil e 5 mil quilômetros durante o ciclo migratório e chega a ficar cerca de sete meses viajando em busca de áreas com alimento.
A espécie se reproduz no Sul do Brasil e, fora desse período, desaparece da região. O deslocamento faz parte de uma estratégia de sobrevivência ligada à disponibilidade de sementes de gramíneas, mas também expõe a ave a diferentes ameaças.
Uma espécie recente
Por muito tempo, a patativa-tropeira foi tratada como uma subespécie da patativa comum (Sporophila plumbea). O reconhecimento como espécie plena ocorreu em 2013, depois de pesquisas que ajudaram a identificar diferenças entre as duas aves.
Uma das marcas mais fáceis de notar está no macho: o bico amarelo, enquanto a patativa comum apresenta bico preto. A tropeira também é um pouco maior e, durante a reprodução, tende a ocupar ambientes diferentes.
Segundo o pesquisador Marcio Repenning em entrevista à EPTV, afiliada da Globo, as duas espécies gostam de áreas arbustivas com capim alto, mas a patativa-tropeira aparece associada a ambientes mais quentes e baixos. Essa separação ajudou os pesquisadores a entender melhor a distribuição das aves.
Sete meses na estrada
O ciclo reprodutivo ocorre aproximadamente entre o fim de outubro e março. Depois disso, a patativa-tropeira deixa sua área de reprodução e inicia o período migratório.
A rota completa ainda é um dos principais enigmas sobre a espécie. Como a ave é pequena, discreta e costuma permanecer quieta, pode passar semanas em locais remotos sem ser registrada.
A migração não acontece ao acaso. De acordo com Repenning, existe uma programação determinada biologicamente, relacionada ao relógio interno da ave e às condições encontradas no ambiente. Ela se desloca em busca de locais onde exista maior oferta de sementes.
Uma viagem arriscada
Percorrer milhares de quilômetros exige que a ave encontre pontos adequados para descansar e se alimentar. Quando chega a uma área e encontra condições diferentes das esperadas, pode precisar continuar a busca por outro local.
O clima é uma das ameaças durante o percurso. A transformação do ambiente por cultivos também pode eliminar áreas usadas como parada. Até mudanças aparentemente pequenas na disponibilidade de gramíneas podem afetar a alimentação da espécie.
Por isso, a migração representa uma etapa delicada do ciclo de vida da patativa-tropeira. O deslocamento só compensa quando a ave encontra recursos suficientes para se manter.
População em declínio
A situação fica mais preocupante quando a espécie retorna às áreas onde se reproduz. Em 2013, quando o animal foi descrito cientificamente, havia uma estimativa de pelo menos 4 mil indivíduos no país, segundo a matéria-base.
Pesquisas posteriores indicaram sinais de declínio populacional, principalmente relacionados à perda de habitat. Repenning relata que áreas que tinham vários casais há pouco mais de uma década chegaram a não apresentar nenhum indivíduo nas contagens mais recentes.
A mudança também aumenta a preocupação sobre o futuro da espécie. O pesquisador afirma que a categoria de ameaça pode se tornar mais grave caso o declínio continue.
Veja também: baixa prevalência de demência entre indígenas da Amazônia chama atenção de pesquisadores






