O número de casos de diabetes no Brasil cresce em ritmo acelerado ano após ano. Em menos de duas décadas, a prevalência da doença mais que dobrou, impulsionada por hábitos cotidianos que muitas vezes passam despercebidos. A boa notícia é que pequenas mudanças na rotina podem frear esse avanço, e a alimentação é uma das principais.

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Dados do Vigitel 2025, sistema de monitoramento do Ministério da Saúde divulgado em janeiro de 2026, mostram que a porcentagem de adultos brasileiros com a doença saltou de 5,5% em 2006 para 12,9% em 2024. O aumento é de aproximadamente 135%, ou cerca de 20 milhões de pessoas convivendo com a doença atualmente, segundo estimativas do próprio ministério.

E o ritmo está se acelerando. Entre 2006 e 2024, o avanço médio foi de 0,35% ao ano. Nos últimos cinco anos, porém, o ritmo de crescimento quase triplicou e chegou a 0,90% ao ano, o que mostra uma aceleração recente preocupante da doença no país, segundo o relatório oficial do Ministério da Saúde.

O cenário é ainda mais grave porque a diabetes raramente vem sozinha. No mesmo período, a obesidade entre brasileiros cresceu 118%, o excesso de peso avançou 47% e a hipertensão arterial aumentou 31%. As doenças se reforçam mutuamente.

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Diabetes tipo 1 e tipo 2: nem toda diabetes pode ser prevenida

Antes de falar em prevenção, é importante distinguir os dois principais tipos da doença. O diabetes tipo 1, também chamado de insulinodependente, representa cerca de 5% a 10% dos casos, surge geralmente na infância ou adolescência e é causado por uma destruição autoimune das células do pâncreas. Não há prevenção possível para esse tipo, segundo a endocrinologista Jamilly Drago, ouvida pelo NSC Total.

O diabetes tipo 2 responde por 90% dos casos e está diretamente ligado a hábitos de vida, obesidade, sedentarismo e fatores genéticos. É essa forma que disparou nas últimas duas décadas no Brasil. E é nela que cabem as ações de prevenção.

Sinais de alerta: quando procurar o médico

Um dos maiores problemas do diabetes é o subdiagnóstico. A Federação Internacional de Diabetes (IDF) estima que cerca de 43% das pessoas com diabetes no mundo não sabem que têm a doença, o que aumenta o risco de complicações graves antes do tratamento começar. A endocrinologista Jamilly Drago alerta que o diabetes é “pouco sintomático” e “permanece por muitos anos sem diagnóstico”.

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Ainda assim, alguns sinais merecem atenção. O Ministério da Saúde e a Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) listam os principais:

  • Sede excessiva (polidipsia) e necessidade de beber água o tempo todo;
  • Vontade frequente de urinar (poliúria), inclusive durante a noite;
  • Fome constante, mesmo após as refeições;
  • Perda de peso sem motivo aparente;
  • Cansaço persistente e falta de energia;
  • Visão turva ou alterações visuais;
  • Cicatrização lenta de feridas, mesmo as pequenas;
  • Formigamento ou dormência nas mãos e pés.

Pessoas com mais de 45 anos, com histórico familiar de diabetes, obesidade, diabetes gestacional anterior ou síndrome dos ovários policísticos estão entre os grupos de maior risco, e devem fazer exame de glicemia em jejum pelo menos uma vez por ano, mesmo sem sintomas.

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Práticas eficazes para prevenir o tipo 2

Entre os principais hábitos que ajudam a prevenir o avanço do diabetes tipo 2 estão a perda de peso e a prática regular de exercícios físicos. A recomendação do Ministério da Saúde, alinhada às diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS), é de pelo menos 150 minutos de atividade moderada por semana (cerca de 30 minutos por dia em cinco dias da semana). A meta foi alcançada por 42,3% dos brasileiros adultos em 2024, segundo o próprio Vigitel, número crescente, mas ainda insuficiente.

A alimentação entra como peça-chave. Não existe uma dieta única para prevenir o diabetes, mas o foco deve ser reduzir o consumo de alimentos ultraprocessados, açúcares simples e carboidratos refinados (como farinha branca, pão branco e doces industrializados), priorizando opções mais naturais, com fibras, integrais e proteínas magras. O NSC Total já listou 8 alimentos que devem ser evitados e 10 alimentos saudáveis para quem tem ou quer prevenir a doença.

Segundo a nutricionista Deise Regina Baptista, professora da Universidade Federal do Paraná e coordenadora do Departamento de Nutrição da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), em entrevista ao NSC Total, o ideal é montar um plano alimentar individualizado com nutricionista, respeitando “preferências, faixa etária, hábitos, horários da alimentação e atividade física”.

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O sono também conta (e os brasileiros estão dormindo mal)

Outro ponto que muita gente subestima é o sono. Dormir mal desregula hormônios importantes para o metabolismo, como o cortisol e a insulina, e pode contribuir para o aumento da glicose no sangue. Pela primeira vez na sua série histórica, o Vigitel 2025 trouxe dados sobre sono, e os números são alarmantes: 20,2% dos adultos brasileiros dormem menos de seis horas por noite, e 31,7% apresentam sintomas de insônia, com maior prevalência entre mulheres.

Manter uma rotina de descanso adequada, com 7 a 9 horas de sono por noite, faz parte do pacote de prevenção do diabetes.

Programa do governo: Viva Mais Brasil

Em resposta ao crescimento das doenças crônicas, o Ministério da Saúde lançou em janeiro de 2026 a estratégia Viva Mais Brasil, com investimento de R$ 340 milhões em ações de promoção da saúde e prevenção de doenças crônicas. Entre as medidas previstas está a retomada do programa Academia da Saúde, com novos repasses programados a partir de 2026.

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A estratégia inclui ainda a ampliação do acompanhamento na Atenção Primária à Saúde, com foco em rastreamento da diabetes e da hipertensão, fortalecimento das equipes do Sistema Único de Saúde (SUS) e ações educativas em escolas e ambientes de trabalho.

Prevenção começa cedo

Apesar do avanço preocupante da doença, o diabetes tipo 2 é em grande parte moldado pelo estilo de vida, e isso significa que práticas simples adotadas no dia a dia podem reduzir significativamente o risco. As orientações do NSC Total, com base em entrevistas com endocrinologistas, reforçam que o controle precoce e os cuidados regulares são fundamentais para evitar complicações graves a longo prazo, como problemas cardíacos, renais, oftalmológicos e neurológicos.

Em qualquer dúvida ou desconforto persistente, a recomendação é procurar um médico. O exame de glicemia em jejum, oferecido gratuitamente pelo SUS, é simples, rápido e pode mudar o rumo da vida de quem ainda não sabe que está convivendo com a doença.

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