Quando alguém segura um lápis com a mão esquerda e o nomeia em voz alta, uma ponte de informações se forma entre os dois hemisférios do cérebro.
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Essa troca é possível graças ao corpo caloso, uma estrutura robusta de até 10 centímetros que conecta milhões de fibras nervosas.
Mas um estudo publicado na revista Cerebral Cortex por neurocientistas brasileiros mostrou que essa não é a única estrada entre os lados direito e esquerdo do cérebro.
Eles identificaram feixes mais sutis, as comissuras talâmicas, situadas abaixo do corpo caloso, no tálamo, uma região ovalada que processa sensações, regula o sono e coordena a atenção.
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As conexões que passaram despercebidas
As comissuras começaram a ser estudadas pelos biomédicos Pamela de Meneses Iack e Diego Szczupak, sob orientação do neurocientista Roberto Lent, na UFRJ. Em 2021, eles descreveram essas estruturas em um artigo também na Cerebral Cortex.
Durante o doutorado, Iack avançou no mapeamento: injetou em roedores um vírus modificado que produzia uma proteína fluorescente e acompanhou seu percurso no cérebro.
Ela comparou os dados com o Allen Mouse Brain Connectivity Atlas, um banco tridimensional criado pelo Instituto Allen, fundado por Paul Allen, da Microsoft. Assim, conseguiu traçar as rotas dessas fibras e as áreas que elas conectam.
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A pesquisadora, porém, faleceu inesperadamente em 2024, aos 29 anos. O projeto foi finalizado por Szczupak e pelo grupo da UFRJ, que publicou o trabalho com Iack como autora póstuma.
Um novo nível de complexidade
O estudo mostrou que as comissuras são feixes que ligam o córtex cerebral de um hemisfério ao tálamo do lado oposto. Essa descoberta surpreendeu os cientistas, já que se conheciam apenas conexões entre regiões do mesmo hemisfério.
“Esses circuitos são de menor densidade e, portanto, não são tão visíveis”, disse Lent à Fapesp. “Talvez por essa razão não apareciam na literatura especializada anteriormente.”
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Para Szczupak, hoje professor na Universidade de Pittsburgh, as novas conexões dão mais complexidade ao papel do tálamo. “O tálamo é quase como um maestro regendo uma orquestra”, explicou.
“O fato de esses feixes de fibras cruzarem os hemisférios indica que ele não seria responsável somente por fazer essa regência em um único hemisfério, mas nos dois.”
Conexões onde as decisões nascem
O grupo notou que as comissuras não estão distribuídas de forma uniforme. A maioria se concentra nas regiões frontais do cérebro, próximas ao córtex pré-frontal, ligado à tomada de decisões.
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“O tálamo integra os sinais e os envia para o córtex pré-frontal já integrados, informando sensorialmente o que está acontecendo ao redor do indivíduo e isso contribui para tomar uma decisão”, disse Newton Canteras, neuroanatomista da USP, à Fapesp
O legado de uma descoberta
Embora o estudo tenha sido feito em camundongos, estruturas semelhantes já foram observadas em primatas, e é provável que também existam em humanos. Identificá-las, no entanto, ainda é um desafio.
“As tecnologias de imagem disponíveis hoje para analisar o cérebro humano ainda são rústicas e não permitem chegar ao grau de precisão necessário para identificar fibras nervosas individuais”, explicou Lent.
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Para o grupo da UFRJ, o artigo foi mais que uma conquista científica. “Saber que o legado da Pamela foi lido por outras pessoas dá um alento”, afirmou Szczupak.
E, como lembrou Lent, “é um lado afetivo da ciência que não aparece muitas vezes na frieza das publicações científicas.”
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