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    A corrida para desenvolver a vacina contra a Covid

    Os especialistas também se preocupam com expectativas injustificadas quanto à eficácia de uma vacina

    25/06/2020 - 12h56

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    Por The New York Times
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    (Foto: )

    *Por Jane E. Brody

    A julgar pelos comentários que ouvi e li, muitos americanos esperam que uma vacina contra a Covid-19 acabe com a necessidade de usar máscara e manter o distanciamento social, e nos permita retomar nossa vida pré-Covid em breve. Como disse um vizinho, citando a operação governamental Warp Speed (referência à dobra espacial, uma forma de propulsão mais rápida que a velocidade da luz) do governo, "vou começar a pegar o metrô e voltar ao escritório no outono, quando já tivermos a vacina".

    Infelizmente, os especialistas concordam que esse otimismo é totalmente irrealista. Meu vizinho – e o resto de nós, trabalhadores "não essenciais" – terá sorte se tiver acesso a uma vacina segura e eficaz daqui a um ano. Eis o porquê.

    Os médicos mais bem informados sobre o desenvolvimento de vacina e os perigos reais da pressa imprudente alertam que, por mais promissora que uma vacina possa parecer daqui a alguns meses, a liberação prematura pode fazer muito mais mal do que bem.

    Como foi demonstrado, por exemplo, em 1955, quando a vacina original Salk, destinada ao combate da poliomielite, foi lançada às pressas, nada de bom pode acontecer. Um acidente na produção em massa da vacina fez com que 70 mil crianças contraíssem a poliomielite, incapacitando permanentemente 164 delas e matando dez.

    Um acidente semelhante poderia acontecer com uma vacina contra o coronavírus "e o tiro sair pela culatra, aumentando o ceticismo no que diz respeito às vacinas e seu desenvolvimento, e a desconfiança em relação aos médicos", disse-me o dr. Brit Trogen.

    "Todo mundo quer que a vacina seja a bala de prata que nos livre dessa crise, mas a intensa pressão política e pública para liberar uma vacina antes do aval da ciência pode ter consequências negativas devastadoras", explicou Trogen, residente de pediatria do Centro Médico NYU Langone e do Hospital Bellevue, em Nova York.

    Lembre-se de que, se uma vacina – ou mais – que está sendo testada para a Covid-19 causar doenças graves, mesmo que seja em uma porcentagem muito pequena de pessoas, isso significa que ainda não há cura eficaz.

    Os especialistas também se preocupam com expectativas injustificadas quanto à eficácia de uma vacina. Nenhuma vacina previne uma doença em cem por cento das pessoas e, assim como a vacina contra a gripe, quem a recebe pode acabar contraindo uma versão mais leve da doença. Uma das vacinas contra a Covid que está sendo testada provavelmente conseguiria prevenir muitos casos de infecção mais grave e com risco de morte, observou o dr. Paul A. Offit, líder mundial no desenvolvimento de vacinas.

    "Mesmo uma vacina que seja 50 por cento eficaz na prevenção de uma doença fatal pode ser aceitável", argumentou Offit, professor de pediatria e diretor do Centro de Educação de Vacinas do Hospital Infantil da Filadélfia.

    Não é suficiente saber que uma vacina candidata produz uma resposta de anticorpos – mesmo que seja uma resposta vigorosa – em pessoas suscetíveis, ou que centenas de voluntários inoculados com ela não apresentaram efeitos adversos graves. Só depois que uma vacina é testada em dezenas de milhares de pessoas é que os médicos podem assegurar que ela é segura e eficaz, e às vezes nem mesmo assim.

    Em circunstâncias normais, esse processo leva anos. Mas, como estamos em uma época incomum, o teste de possíveis vacinas contra a Covid-19 está sendo reduzido a meses, o que poderia aumentar o risco de falhas. O dr. Francis Collins, diretor do Instituto Nacional de Saúde, assegurou, no entanto, que, apesar de haver pressa em desenvolver uma vacina eficaz, "não comprometeremos a segurança".

    Veja como Offit, que participa da supervisão dos testes da vacina contra a Covid, descreveu a sequência necessária de eventos:

    Primeiro, uma possível vacina é testada em um animal de laboratório que normalmente desenvolve a Covid-19 quando infectado pelo vírus, como o rato, para verificar se ela previne a doença. Essa etapa, que indica se a vacina funciona, é chamada de "prova de conceito". Em seguida, vêm as Fases I e II, que envolvem a participação de centenas ou milhares de voluntários humanos. Os pesquisadores buscam evidências de que a vacina é segura e testam diferentes doses até encontrar aquela que produza uma quantidade de anticorpos suficiente para proteger contra o vírus. Pelo menos duas vacinas candidatas já estão nesta fase.

    Agora vem o grande teste, a Fase III, um estudo prospectivo, controlado por placebo, que abrange dezenas de milhares de indivíduos e que visa avaliar a segurança e a eficácia. Para uma ou mais das cinco vacinas candidatas promissoras cujos testes estão acelerados, espera-se que esse estágio se inicie em julho. Cada teste de Fase III envolverá 20 mil pessoas que receberão a vacina experimental e um grupo de controle (placebo), com dez mil pessoas, que não será vacinado. Os testes serão realizados em áreas aqui e no exterior que já são, ou se espera que sejam, "epicentros" da Covid.

    Contudo, dependendo da prevalência do vírus neste verão boreal em que os testes estão sendo realizados, a determinação da eficácia da vacina na prevenção da doença pode levar meses – ou até um ano.

    "Essa é a única maneira de saber se a resposta imunológica observada no primeiro teste é capaz de proteger de fato no mundo real. Se houver poucos casos da doença durante o verão, isso pode ser um problema. Talvez tenhamos de continuar recrutando participantes até que um número suficiente de pessoas no grupo placebo fique doente para termos uma comparação significativa com o grupo vacinado. Não podemos causar um curto-circuito no processo", analisou Offit.

    Ele acredita que a vacina deva ter pelo menos 70 por cento de eficácia para ser produzida em massa, mas acrescentou: "Não saberíamos por mais quantos meses duraria a imunidade." Ele alertou contra o otimismo indevido em relação à eficácia de uma vacina aprovada. Segundo ele, uma vacina pode ser considerada aceitável se prevenir doenças graves, mesmo que não previna a maioria ou todas as infecções que não causam sintomas ou causam apenas doenças leves.

    "A ciência nos faz ter humildade – sempre traz surpresas que não podemos prever. Depois de conseguirmos a vacina, nosso trabalho será gerenciar as expectativas. Só vamos saber se é segura depois de milhões de pessoas terem sido vacinadas, e só vamos determinar sua durabilidade com o tempo", explicou Offit.

    Enquanto isso, sob a orientação da Operação Warp Speed do governo, as fábricas estão se preparando para produzir dezenas de milhões de doses das vacinas mais promissoras, para que, se e quando uma ou duas forem aprovadas, consideradas seguras e satisfatoriamente eficazes, uma quantidade suficiente de vacina possa chegar, sem mais delongas, aos mais vulneráveis.

    Essa foi a abordagem usada no desenvolvimento da vacina Salk no início da década de 1950, e os desenvolvedores de uma vacina contra a Covid estarão atentos para evitar um erro semelhante, decorrente da pressa.

    As primeiras doses de uma vacina aprovada contra a Covid serão destinadas a profissionais de saúde, residentes e funcionários permanentes de casas de repouso, em seguida a servidores públicos essenciais, como policiais, bombeiros e agentes de trânsito, e a trabalhadores de empresas produtoras de alimentos. Até que haja centenas de milhões de doses disponíveis – em algum momento de 2021, se tudo correr bem –, a vacina não será oferecida à população em geral.

    Acredita-se que sejam necessárias duas doses da vacina para assegurar uma proteção adequada contra a Covid-19. Assim, para que todo o país seja imunizado, mais de 600 milhões de doses da vacina terão de ser produzidas.

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