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Infância

A infância antes e depois da pandemia

Especialistas ouvidos pela reportagem reconhecem que o impacto do novo vírus é maior em crianças em situação de vulnerabilidade, mas alertam que todas sofrem consequências

07/06/2020 - 06h00

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Por Ângela Bastos
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O coronavírus atravessou a vida de todos nós. Mesmo que necessário como medida para impedir o avanço da pandemia e a sobrecarga do sistema de saúde, o isolamento social emparedou as famílias que sentem efeitos colaterais como desemprego, redução de salário, falta de renda. Desde que a Covid-19 chegou ao Brasil, especialistas avaliam as consequências educacionais e sociais e na saúde das crianças.

Para Patrícia de Moraes Lima, professora do Centro de Educação da UFSC e coordenadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre as Violências (Nuvic), é importante situar sobre qual infância se fala. Para explicar que as crianças vivem a pandemia de forma distintas, a professora compara o cotidiano de meninos e meninas das periferias com aquelas que moram em bairros com melhor padrão. Em Florianópolis, diz, esses “marcadores” são territoriais.

– Nas comunidades mais vulneráveis social e economicamente, as crianças estão como sempre estiveram: nas ruas. Enquanto que as que moram em apartamentos e casas, seguem com as rotinas de ir às pracinhas, ao supermercado e shoppings de máscara com os pais e passam o final de semana no campo ou na praia – avalia a especialista.

Nas ruas, observa Patrícia, doutora em Ciências da Educação e em Psicologia pela Universidade de Porto, em Portugal, as crianças brincam sabendo do perigo eminente das violências produzidas entre ações policiais e redes do tráfico. Em tempos de pandemia com um medo a mais, o da Covid-19. Conforme a professora da UFSC, os meninos e as meninas pobres e quase sempre negras permanecem diante da vida assim como ela é: “vida loka”, a vida nua e crua.

As infâncias, afirma a professora, se dividem por marcadores não apenas territoriais, mas também sociais e geracionais:

– O medo da Covid-19 nos une, mas não o da bala perdida, da violência por ser negro e pobre e morador da periferia.

Mesma linha de pensamento segue a educadora social Thaís Araújo, educadora social na Associação de Amigos da Casa da Criança e do Adolescente do Morro do Mocotó (Acam), de Florianópolis. A pandemia, observa ela, escancara o quanto são profundas as diferenças sociais no país. Mas é preciso reconhecer que parte da população já vivia em isolamento social devido à ausência de direitos básicos, como moradia com qualidade, saúde, educação.

– Negligenciadas nos direitos, as famílias estão agora mais expostas e sobre elas são projetadas responsabilidades que interferem diretamente na vida das crianças – diz.

Por causa do distanciamento social, sempre que possível as conversas com as crianças que participam das atividades na Acam são feitas pela internet. Momentos em que a garotada aproveita para contar sobre dias marcados por dúvidas, incertezas, angústias.

– Reprovar na escola por conta de não ter acesso aos materiais didáticos é um dos medos. Assim como a possibilidade de contaminação de alguém da família, pois na maioria dos casos são muitas pessoas vivendo num mesmo ambiente – conta a educadora.

Há ainda um outro medo muito presente, o da morte de familiares, já que muitas crianças são criadas pelos avós ou mesmo só pela mãe. A educadora percebeu outro sentimento nas crianças e adolescentes: a saudade.

– Como estamos fisicamente ausentes, eles acham que não vamos mais voltar para os espaços de convivência. Estão ansiosas para que a pandemia acabe e dizem estar com saudade de como era a vida antes – pontua Thaís.

Troca de toques

O mesmo susto que os adultos sofreram com a chegada da pandemia também é sentido pelas crianças. A avaliação é da psicóloga e doutora em Antropologia Mirella Alves de Brito. Com a experiência de quem atua em dois campos – direitos e políticas de saúde mental para a infância e acolhimento institucional e no atendimento clínico com crianças e famílias – a psicóloga observa que as situações não são diferentes.

– As crianças estão lidando com novas rotinas, as quais incluem a troca de toques e afetos às possibilidades de trânsito no condomínio. O que está presente no cotidiano dessas crianças parece ser a imposição de construir um novo universo simbólico dentro da casa – conta a especialista.

No projeto Psico-Biografar, a psicóloga conta que as crianças precisaram transformar as relações com a escola e com a rua. De quebra, diz, passaram a ouvir mais os discursos de adultos amedrontados, acentuando a necessidade de um cuidado extremo com a saúde e com a higiene:

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– Temos crianças que convivem com o medo de contrair qualquer vírus, é importante lembrar que existem crianças que convivem com outras doenças ou síndromes, complicações físicas ou existenciais, como: HIV, fibrose cística, autismo. Por isso, é importante pensar que a Covid-19 é mais uma doença que surge no universo das infâncias para amedrontar os dias. Mas que para além dos efeitos físicos que demonstra ter, possui a força de um novo paradigma: o de chegar nas crianças pelo significado simbólico que vai adquirindo nos nossos dias e exigindo respostas que ainda não temos.

No atendimento psicológico on-line que faz neste período devido ao isolamento social, Mirella conta que o novo coronavírus surge como um marcador temporal para a infância. A pandemia trouxe o afastamento das pessoas com quem as crianças costumavam estar, como amigos, avós, primas. Uma das formas que meninos e meninas encontram para organizar as narrativas é utilizar o coronavírus como marcador do tempo:

– As crianças dizem “antes do corona eu brincava na rua’” Ou “quando o corona acabar a gente vai se abraçar”. Ou ainda, “depois que apareceu o corona ficou chato”.

Assim, diz Mirella, não é bem de medo que as crianças falam, mas de um desconforto, de um descontínuo causado pela pandemia. Por outro lado, explica, ela também já ouviu crianças dizerem que “prefiro o agora porque a escola é chata” e ou “gosto de ficar em casa”. De acordo com a psicóloga, é preciso entender que para cada uma das expressões dessas crianças existe um modo de vida a partir do que vivem no cotidiano:

– Suspeito que nesse momento seja mais interessante para nós adultos observarmos o que as crianças têm a nos dizer – pondera.

“Não importa a classe social”, diz especialista

Danielle Espezim dos Santos é professora na Unisul e assessora em Sistema de Garantias de Direitos da Criança e do Adolescente. Para ela, quem atua com o tema proteção integral dos direitos das crianças e dos adolescentes tem que estar preocupado e vigilante:

– Temos que nos perguntar em que condições estão vivendo no isolamento social não apenas as meninas e os meninos em situação de vulnerabilidade, mas os de todas as classes sociais que se encontram mantidos em casa e com mais intensidade de convívio com os respetivos responsáveis.

Nesta linha, observar a doutora, arranjos familiares que já sofriam com marcas de violência doméstica – física, sexual, psicológica ou negligência – estão mais isolados. Mas há outros grupos familiares sem sinais de violências que tendem a ser tensionados pelas condições crescentes de fragilização trazida pela crise sanitária e econômica que se instalou no país. Realidade que perpassa a condição social:

– A pressão sobre as famílias tende a se reproduzir sobre crianças e adolescentes, os quais historicamente são mais vulneráveis.

Danielle reconhece o isolamento social como medida correta para impedir o avanço do coronavírus e a sobrecarga do sistema de saúde. Mas alerta sobre a necessidade de esforços de remodelação e qualificação das práticas dos serviços e gestão que envolvem a criança. A professora cita áreas como Saúde Pública, Educação, Assistência Social, Segurança Cidadã.

Além disso, diz ela, é preciso que o Sistema de Justiça especializado na infância (Ministério Público, Poder Judiciário, Defensorias Públicas) mantenha-se como observador do que está previsto na lei. É necessário ainda exigir acompanhamento atento dos Conselhos Tutelares e Conselhos de Direitos da Criança e do Adolescente.

– Essas instituições devem atuar com interação nos municípios catarinenses e observar as práticas, incluindo-se a destinação orçamentária estatal para saúde, educação e assistência social – pontua Danielle.

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“Sonhei que o corona tinha acabado”, diz menina

As famílias das primas Maria Luiza, nove anos, e Mariah Caroline, 10, moram no Maciço do Morro da Cruz, em Florianópolis. Alunas da escola pública, o Instituto Estadual de Educação, as meninas literalmente chegam a sonhar com o fim da pandemia.

– Sonhei que estava na escola abraçando minha professora. Mas quando acordei fiquei triste, pois não era verdadeiro que o corona tinha acabado – conta Maria Luiza.

Para as duas, escola é mais do que o espaço para aprender. Além das atividades pedagógicas, citam a prática de esportes, o encontro com os amigos e as brincadeiras como o que de melhor existe. Por compensação, enumeram o que acham o mais chato destes dias de isolamento social:

– Não poder ver os colegas de aula – diz Mariah.

Elas também revelam outro sentimento comum, o da saudade:

– Acho ruim ter que ficar sem ver as pessoas, como o meu primo, que mora longe daqui (outro bairro) – conta Maria Luiza.

Rafael, oito anos, mora com os pais e um irmãozinho de três anos. O isolamento social alterou a rotina do menino que frequentava a escola pela manhã e tinha atividades no contra turno escolar. Fazia inglês e natação, e nas tardes de quinta-feira o que mais gosta: ir à escolinha de futebol.

Além de dormir mais e mais tarde – pois fica jogando na internet mais tempo do que antes – Rafael conta que de vez em quando se aborrece. O motivo principal, diz, é não poder ir brincar fora do condomínio:

– No prédio tem piscina, mas por causa da corona ninguém vai. Tem hora que dá vontade de sair correndo e sumir – conta o garoto.

Outra coisa que chateia Rafael é ter que fazer as tarefas pelo computador. Apesar de ter a mãe perto para ajudar, ele diz que na escola se aprende “com mais interesse”. Em maio, Rafael deu um susto nos pais. Teve febre alta e houve suspeita de que tivesse contraído o vírus de um colega que teve a mãe infectada. A dor de garganta que deu início ao mal-estar não passou de uma infecção viral combatida com antibiótico.

No último final de semana, a família de Rafael foi para a casa de praia. O menino queria levar um amigo que mora no mesmo condomínio, mas os pais explicaram que não seria possível por que as pessoas devem evitar contatos. Ele parece ter compreendido, mas surpreendeu os pais com uma observação:

– Todo mundo fala que o corona mata as pessoas. Mas ele (coronavírus) faz outras coisas ruins, como deixar a gente sozinho.

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