A cobertura da NSC no South by Southwest (SXSW) 2026 tem mostrado uma mudança no tom do evento: a tecnologia deixou de ser apenas ferramenta e passou a atuar como força ativa na forma como as pessoas pensam, consomem e se expressam. Se nos primeiros dias o foco esteve nas capacidades da inteligência artificial, agora a discussão avança para um território mais sensível:  o impacto direto dessas ferramentas no comportamento humano.

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Dentro dessa virada, um dos temas que mais chamou atenção foi o papel dos algoritmos e da IA na construção da cultura contemporânea. A conversa tem focado em compreender como essas estruturas estão influenciando linguagem, percepção e até o que é considerado relevante ou aceitável na sociedade.

Veja os insights do evento pelo diretor de marketing da NSC, Gustavo Teixeira, que está acompanhando o evento direto de Austin: 

Acompanhar as discussões do SXSW exige um olhar atento não apenas para as tecnologias do futuro, mas para como elas já estão reconfigurando o presente. Na trilha de Creator Economy da edição de 2026, a sessão “Vibe Shift: How New Media Upended Our Ideas and Aesthetics”, conduzida pelo linguista e pesquisador Adam Aleksic, ofereceu uma análise profunda sobre o impacto dessas ferramentas na sociedade. A premissa é clara: a Inteligência Artificial e os algoritmos das redes sociais não são apenas plataformas de distribuição de conteúdo; eles já atuam ativamente na forma como consumimos, falamos e moldamos nossas percepções.

O loop de influência da IA na linguagem 

Aleksic ilustrou esse fenômeno com o uso da palavra “delve” (que pode ser traduzida do inglês como “aprofundar” ou “explorar”). Modelos de linguagem frequentemente utilizam esse termo com uma recorrência muito maior do que a fala humana natural. Como consequência, pesquisas apontam que o uso da palavra em textos e diálogos reais aumentou exponencialmente desde 2023. O contato constante com o padrão gerado pela máquina faz com que, gradativamente, o comportamento humano passe a replicá-lo.

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Essa dinâmica é potencializada pelo que a psicologia chama de “Efeito Eliza”: a tendência humana de atribuir características reais e baixar a guarda diante de tecnologias que interagem conosco. Quando um assistente virtual ou chatbot responde em primeira pessoa, simulando uma conversa humana, o filtro crítico do usuário diminui. Isso facilita a adoção de novos vocabulários e ideias em um ciclo contínuo de influência entre o que a máquina produz e o que a sociedade absorve.

A fábrica de padrões e a economia da atenção

Um dos pontos centrais da análise foi o papel dos algoritmos como rotuladores de comportamento. Ao agrupar usuários com interações e perfis de navegação semelhantes, as plataformas aceleram a criação de microtendências.

Fenômenos recentes exemplificam essa dinâmica. É o caso do “Dubai Chocolate” (um doce com recheio de pistache que viralizou globalmente por seu apelo visual nos vídeos curtos) e da estética “Trad Wife” (um nicho de criadoras de conteúdo que romantiza o estilo de vida das donas de casa da década de 1950). Muitas dessas tendências ganham proporções massivas não por refletirem um desejo orgânico da sociedade, mas porque o algoritmo identifica que aquele formato gera curiosidade e atrito.

Assim que um rótulo se estabelece na internet, o mercado reage. Criadores multiplicam o formato e as marcas buscam associar seus produtos à narrativa em alta. O desafio reside no fato de que o algoritmo prioriza a atenção a qualquer custo. Na prática, isso significa recompensar o atrito. 

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Como apontou Aleksic, visões extremas e opiniões polarizadas são sistematicamente impulsionadas simplesmente porque provocam reações viscerais, garantindo mais comentários e retenção na tela. O risco oculto nessa dinâmica é a criação de um “abismo de percepção”. 

Passamos a superestimar o quão extremas as crenças da sociedade realmente são, pois nossos feeds estão inundados por esse recorte enviesado — o que acaba até mesmo deslocando a chamada Janela de Overton (o limite do que é considerado um discurso aceitável). Para uma marca, correr cegamente atrás de curtidas e engajamento nesse ecossistema significa correr o risco de atrelar sua imagem a debates fabricados e polarizados, afastando-se do equilíbrio do consumidor real.

A ilusão das tendências e a busca pelo atrito real

O alerta mais denso da palestra para profissionais de negócios é que esse ecossistema digital pode ser manipulado. Aleksic citou como tendências e memes já estão sendo inflados artificialmente por grupos financeiros buscando lucrar em mercados de previsão e criptomoedas atreladas à atenção digital. Ou seja: muitas das tendências que o mercado de marketing tenta surfar podem ser apenas bolhas fabricadas.

Como, então, as marcas devem navegar nesse cenário? O palestrante propõe um conceito simples, mas contra intuitivo para a era digital: abraçar o atrito e reconectar-se com o mundo real,  ou, na gíria da internet, “touch grass” (tocar a grama). Ferramentas digitais criam bolhas de hiper conveniência, eliminando qualquer fricção do nosso dia a dia.

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Aleksic usou o Uber Eats como exemplo perfeito: é tecnicamente mais fácil pedir comida sem sair do sofá. Mas, ao evitar a caminhada até o mercado, perdemos as pequenas interações na calçada, a conversa com o vizinho ou o lojista. É justamente nesse “atrito” , nessas interações reais e não roteirizadas, que a vida e o comportamento humano verdadeiro acontecem.

Para as estratégias de marketing corporativo, o insight é profundo. O mercado precisa parar de confundir métricas de engajamento algorítmico com o desejo real do consumidor. A inteligência de negócios não deve ser baseada exclusivamente no que viraliza em um recorte de tela. Em um mundo onde a atenção digital é cada vez mais filtrada e enviesada pela máquina, o foco deve retornar para a compreensão do comportamento genuíno das pessoas, construindo valor sólido pautado na realidade que existe fora das plataformas.

A presença da NSC no evento conta com o patrocínio de Rudnik e F/BRAVE.

Acompanhe o NSC Total para conferir os detalhes do evento.