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    "A música me salvou a vida", conta Alex Klein, criador do Festival de Música de Santa Catarina

    Da criança prestes a ser expulsa na escola ao músico ganhador de dois prêmios Grammy, ele dedica sua vida a fazer o mundo melhor por meio da arte

    02/02/2020 - 07h55 - Atualizada em: 28/02/2020 - 12h02

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    Cláudia
    Por Cláudia Morriesen
    foto mostra o maestro e oboísta Alex Klein sorrindo em frente ao palco segurando o oboé
    Em 2020, o Femusc chegou ao 15º ano em Jaraguá do Sul
    (Foto: )

    Existem pessoas com um grande talento e existem pessoas que dedicam-se a fazer o mundo melhor. Reunir as duas características na mesma missão de vida é para poucos, mas o maestro e oboísta Alex Klein está nesta lista restrita de indivíduos que conseguiram orquestrar sua trajetória de sucesso e superação pessoal ao mesmo tempo em que atuam na mudança de caminhos de centenas de pessoas. Um destes pontos de mudança ocorrem em Jaraguá do Sul, no interior de Santa Catarina, onde ele alicerçou um de seus grandes legados, o Festival de Música de Santa Catarina (Femusc).

    A 15ª edição do evento chega ao fim neste fim de semana, depois de 14 dias com apresentações de mais de 200 concertos em Jaraguá do Sul, com músicos vindos de 21 países que, além de tocar, passam duas semanas em uma “maratona” de aulas com mestres internacionais da música.

    O outro grande projeto de Klein está assentado do outro lado do país, na Paraíba. Lá, ele fundou o Projeto de Inclusão Social Através da Música e das Artes (Prima), aliado à Orquestra Sinfônica da Paraíba, no qual forma orquestras, grupos de câmara, camerata de cordas e corais com crianças e adolescentes de baixa renda — cerca de 6 mil são atendidos no momento.

    Estas atividades nasceram em um momento em que Klein precisava reorganizar os próprios planos. Depois de uma vida dedicada à carreira de músico, com uma história de sucesso que havia o levado ao cargo de oboísta principal da Orquestra Sinfônica de Chicago e a dois prêmios Grammy em 2002, veio o diagnóstico de distonia focal, um distúrbio do movimento que afeta os músculos, provocando a contração involuntária dos músculos e resultando em torções e repetições de membros essenciais ao seus trabalho. No caso dele, os dedos das mãos, que são fundamentais para tocar as teclas e cobrir os buracos do oboé. Era uma aposentadoria forçada aos 38 anos.

    — Quando recebi o Grammy, eu já estava diagnosticado, contemplando minha saída da Orquestra de Chicago, e a depressão já estava muito grande. Não deu para curtir aquele momento — recorda Klein.

    Por pouco mais de uma década, ele permaneceu longe das orquestras, reinventando a própria carreira ao assumir o papel de “agitador” cultural, gestor e maestro. Em 2016, como uma espécie de recompensa, voltou à Orquestra de Chicago e, desde outubro de 2018, é o principal oboísta da Orquestra Filarmônica de Calgary, no Canadá.

    foto mostra um menino de nove anos tocando flauta. a foto é antiga, dos anos 1970
    Aos nove anos, ainda tocando flauta, instrumento que aprendeu a tocar enquanto esperava a chegada do oboé, que foi encomendado
    (Foto: )

    Você começou a tocar oboé aos nove anos. Qual era a sua relação com a música antes disso?

    Zero. Não sabia nada. Nunca tinha ido a um concerto, não sabia o que era uma orquestra. Minha atividade principal era jogar bola na rua com meus amigos e voltar para casa sujo de barro. O que aconteceu é que eu não estava indo bem na escola. Eu seria expulso da escola na terceira série, não por ser malcriado, mas porque atrapalhava a classe. Hoje em dia dão ritalina para essas crianças. No meu caso, a escola disse: “artes ou esportes, para usar bastante a energia”. E a música pegou. O oboé pegou.

    Então houve outras tentativas antes? Por que o oboé foi o escolhido, entre todas as opções?

    Meus pais me levaram no ensaio de uma orquestra, eu olhei aquele monte de violinos e falei “não”. Olhei a flauta e tudo o que estava mais para trás, e não me interessei. Então olhei o oboé e pensei “que engraçado! Um instrumento tão grande e o som sai por um buraquinho tão pequeno da palheta”. Aquilo me deixou intrigado. É aí que entra o Femusc nessa história. Justo quando meus pais estavam preocupados pensando o que fazer com aquela “criança maluca”, tinha um festival de música em Curitiba. Foi lá que tudo começou. A música me salvou a vida através de um festival. É uma maneira de eu dizer para todos esses jovens através disso aqui que o que eles fazem importa.

    Pela sua experiência com o Femusc e com o Prima, você acredita que a arte pode ser uma solução para resolver estes casos?

    O que fazer com uma criança que está “desajustada”? A arte é importante para isso, ela canaliza o emocional e, no meu caso, me dedicar ao oboé foi fisicamente e intelectualmente muito desafiador. Dali para frente foi tudo certo, passei no vestibular. O que eu tento passar para os nossos alunos no Femusc é a responsabilidade e a importância que eles têm em relação à humanidade. Nós nos vemos como civilizados desde cerca de 50 mil anos atrás e o que demonstra que nossa civilização já existia? As pinturas nas cavernas.Não são apenas pinturas de uma caça. São pinturas com proporção, com beleza, com nuances de cor que estão querendo indicar uma expressão pessoal de quem o fez. A arte é um indicativo da nossa civilidade. É por isso que eu acredito que a arte é o mais importante que o Brasil deveria produzir. Precisamos das artes como nunca, porque estamos perdendo nossa civilidade. Estamos em um mundo que está se polarizando e a arte é excelente para isso. Aqui no Femusc você pode colocar gente de direita, esquerda, “de cima para baixo” na mesma orquestra. Na hora em que desce a batuta, todo mundo coloca tudo de lado e vão fazer a mesma coisa juntos. A arte ensina isso.

    Aos 11 anos, você começou tocar na Orquestra Jovem de Curitiba. Não era muito jovem para decidir qual seria sua carreira e se dedicar a ela?

    Na verdade, eu comecei a tocar na Orquestra Jovem aos 10 anos. Aos 11 anos, fui para Camerata Antiqua de Curitiba, com músicos profissionais. Foi ali que eu, essencialmente, comecei minha carreira. Eu sentia que minha vida tinha encontrado um caminho. Fui uma criança de 11 anos que decidiu o que queria fazer da vida. E até hoje aquele sentimento permanece igual. É isso que nasci pra fazer. Já tentei “fugir” do oboé, da música,mas não consigo.

    Como foi a trajetória até os Estados Unidos para estudar e depois tocar na Orquestra de Chicago?

    Eu estudei na escola de belas artes de Curitiba, estudei na Unesp e então me transferi para os Estados Unidos. No começo dos anos 1980, o Brasil era um pouco como está agora. Era o fim da ditadura militar, a economia estava estagnada, a esperança era baixa. Muito problema, muita briga. A ideia era que, se eu não conseguisse uma bolsa de estudos e fosse embora do país, era porque eu não tinha mesmo muito talento.

    Como foi chegar lá e perceber a diferença de incentivo para os músicos entre os dois países?

    Aqui no Brasil não tinha nenhum incentivo para tocar. Acho que ainda hoje não tem. Nós temos orquestras fechando, nós temos censura, nós temos a imposição ideológica vinda de cima e oposta à liberdade que as artes exigem. Eu não falo isso de maneira a criticar o governo, mas simplesmente estabelecer um fato. Se o governo quer seguir uma linha ideológica tal qual, é de se ver como normal que aqueles que acreditam na liberdade de expressão ficarão presos, ficarão excluídos. Mas a coisa é que a cultura não se compra nem se impõe. A cultura somos nós. Ironicamente, quando você estabelece a censura, como vimos na Alemanha nazista e no comunismo da União Soviética, e cria normas de que daqui pra frente a arte só pode isso e não aquilo, você cria uma ação inversa em igual proporção. É como a lei de Newton. Se a partir de agora, não pode ter obras que são produzidas pela comunidade LGBT, você causa um impulso à maior produtividade destas obras. Se falar que é errado que uma mulher seja maestrina de uma orquestra, verá que aparecerão mais mulheres querendo reger uma orquestra. Quando você mexe com a cultura, sempre leva uma bordoada de volta. Isso aconteceu com todos os lugares que tentaram se meter com a cultura: estimularam o povo a se levantar contra aqueles direcionamentos. Com o Brasil indo de volta a essa ideologia, você espera que, no próximo ano ou em dois anos, encontraremos a mesma coisa. Precisamos valorizar a liberdade de expressão e a completa liberdade de todos os sentidos do ser humano, de ser quem é e o que quer ser. Somos o que somos e expressamos o que o instinto nos traz. Se não for assim, a sociedade não anda.

    Você já passou por um momento difícil frente às instituições quando assumiu a direção artística do Teatro Municipal de São Paulo, em 2010, e renunciou ao cargo logo depois.

    Naquele momento [do convite], fiquei muito honrado. Mas o que eu percebi é que o Teatro Municipal de São Paulo não existe a favor da arte. Existe a favor da política. De manter a possibilidade do partido se reeleger. No Prima e no Femusc, utilizamos a música como ferramenta social. O Teatro Municipal de São Paulo usa como ferramenta eleitoral. Ninguém gosta de ouvir isso, especialmente as pessoas que estavam acima de mim. E não posso chegar e acusar que tal pessoa pediu dinheiro “por debaixo da mesa”, mas quem conhece sabe que estava subentendido. Então, eu percebi que eu não seria de qualquer utilidade para o Teatro Municipal de São Paulo. Depois de quatro meses, entreguei o cargo porque não queria sujar meu nome. Um ano depois, um foi preso por corrupção e o próximo maestro foi afastado. Eu seria um daqueles e não estou na vida para isso.

    foto mostra Alex como maestro de uma orquestra do Femusc
    Quando descobriu a distonia focal, ele dedicou-se a tornar-se maestro
    (Foto: )

    Logo depois você foi para a Paraíba, onde teve a chance de fundar o Prima. Ele é uma prova de que qualquer um pode gostar de música erudita desde que tenha contato mais próximo com ela, como os jovens têm com o instrumento?

    A mensagem é justamente outra. Nenhum aluno foi forçado a gostar do Prima. Quando o aluno quer sair, sai. Quer voltar? Volta. Quer trocar de instrumento? Troca. E nunca falávamos mal das outras opções disponíveis aos jovens, ou seja, as drogas. Não precisávamos. Os alunos que ficavam no Prima sabiam a resposta de tudo isso. E também sabiam que, se eu falar uma palavra contra drogas ou traficantes nas áreas onde nós estamos trabalhando, eu termino o dia com um balaço na cabeça. Eu cheguei a sair de um dos bairros e ver o exército entrando. À noite, as crianças mandam mensagens no grupo de Whatsapp para contar que está acontecendo um tiroteio. Às vezes, eles nos olham e falam: “eu tô com fome”. Isso que o resto do Brasil não entende: o pobre trabalha incansavelmente. Falar que a pessoa não é rica porque não trabalha é um enorme um insulto à inteligência. Quantos pais já me contaram que foram procurados pelo tráfico e recusaram, para depois chegarem em casa cansados, suados, e verem suas crianças perguntando: pai, trouxe pão? E ele não trouxe nada. Quem vê isso? Quem vê as meninas, no final da tarde, passando batom porque a prostituição infantil é o que alimenta a família? Quem vê isso acontecer e não se debruça de joelhos na frente deste problema é porque está com um problema muito grave no coração. O que temos que fazer é abrir as portas e as oportunidades, e é isso que fazemos com o Prima. Eu não precisava mandar essa criançada estudar. E eles não param de tocar. Passam seis, oito horas ensaiando. Em pouco tempo estão tocando obras de Beethoven, cantando em alemão e em russo, porque não tem outra opção.

    A criação de projetos como o Femusc e o Prima ocorreram porque você precisou deixar a Orquestra de Chicago. Mas eles já estavam em seus planos?

    A gente sempre tem sonhos, mas que naquele momento não dá pra fazer porque a carreira está indo em outra direção. O que a doença me trouxe foi uma oportunidade. Uma janela de experimentar outras coisas e uma das coisas que eu quis experimentar era fazer um festival de música. Com ele, eu posso trazer todas as amizades que eu fiz naquele meu momento “top” e que me acompanhou, viu o que estava acontecendo, se sentiu mal por mim e queria me ajudar de alguma forma. Até hoje, temos seis professores que estão aqui desde a primeira edição.

    O Femusc era para ser, inicialmente, em Curitiba. Por que vir para Jaraguá do Sul?

    Ele começou em Curitiba, como a Oficina de Música, mas era um projeto da prefeitura. E, como tudo que é público, era sujeito não às ambições artísticas da comunidade, mas às eleitorais. Chegou um momento em que, em 2005, estávamos com a Oficina de 2006 pronta, professores e alunos com passagens compradas e o prefeito decidiu que seria interessante cortar o orçamento pela metade. E lá, assim como no Femusc, fazíamos o milagre da multiplicação do dinheiro. Eu pedi para mudarem de ideia, mas não mudaram. Vim a Santa Catarina e pedi ajuda, e (o então governador) Luis Henrique da Silveira ofereceu Jaraguá do Sul. A Scar havia sido inaugurada dois anos antes e procuravam projetos para este espaço. Eu não consigo imaginar uma cidade melhor para um festival de música do que Jaraguá do Sul. Ela tem proximidade com hotéis, com aeroportos, com as rodovias. E tem a Scar, que é gigantesca, com teatros e salas que transformamos em salas de concerto. Para um festival de música, isso aqui é um sonho.

    No domingo, houve a premiação do Grammy, no qual você estava concorrendo pela segunda vez. Como foi a primeira premiação, em 2002?

    Em 1998, gravamos concertos para sopros de Richard Strauss com a Orquestra Sinfônica de Chicago e regência de Daniel Borenboim, que foi lançado em 2001. Participei como solista de oboé e na orquestra, tocando para os outros concertos. Com completa falta de modéstia, eu considero um Grammy duplo. Eu recebi a estatueta como solista mas também como membro da orquestra. Foi uma coisa que eu não celebrei na época. Já estava diagnosticado [com a distonia focal] e a depressão já estava muito grande quando saiu o Grammy. Não deu pra curtir aquele momento.

    Você voltou a tocar e, inclusive, tem uma nova indicação ao Grammy. A doença está controlada?

    É como se eu tivesse uma muleta, mas aprendi a andar normalmente. Dependendo de como você olhar, não vai perceber a diferença. Eu fiz um retreinamento dos dedos, mas o problema está lá, eu só tento enganar da melhor forma possível. Eu estou na Filarmônica de Calgary, no Canadá e estou muito feliz. Agora, estamos concorrendo com o primeiro CD completo que eu fiz em 15 anos, desde que a distonia “explodiu”. Ele foi nomeado na categoria de produtor do ano.

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