No coração de Blumenau, entre o movimento da Rua das Palmeiras e o Terminal da Fonte, está um dos monumentos mais antigos da cidade. A Igreja Luterana do Espírito Santo, no bairro Garcia, foi inaugurada em 1877 e atravessou mais de um século de enchentes, tempestades e transformações urbanas sem perder a função mais importante: reunir a comunidade. Tombada como patrimônio histórico em 2002, ela se tornou um dos símbolos mais duradouros da colonização alemã no Vale do Itajaí.

Continua depois da publicidade

Projetada pelo arquiteto alemão Heirich Krohberger, a igreja segue a linguagem neogótica que se popularizou no Brasil no final do século 19. O interior chama a atenção pelos vitrais que narram a vida e morte de Jesus e pelo lustre em madeira com mais de vinte lâmpadas, cuidadosamente posicionado no centro da cúpula. O púlpito elevado reforça a simbologia da palavra divina que desce aos fiéis. Mais de 60 mil pessoas já foram batizadas na ilha batismal que permanece ativa até hoje.

Se no passado foi ponto de encontro dos imigrantes que desembarcavam às margens do rio Itajaí-Açu, hoje o templo é também um espaço cultural. Concertos gratuitos, corais comunitários e apresentações de órgão de tubos com mais de 1.100 flautas, que ainda é o mesmo que chegou a Blumenau em 1933, mantêm a tradição de chamar a igreja de “casa da música”.

Confira algumas fotos da igreja luterana

Em 2020, um ciclone extratropical provocou prejuízos de cerca de R$ 200 mil no entorno da construção. Árvores arrancadas atingiram túmulos e imóveis vizinhos, telhados e placas comemorativas foram ao chão e parte da rede elétrica precisou ser refeita. Os líderes religiosos da Comunidade Luterana mobilizaram uma arrecadação de doações na época para os reparos.

A estrutura da igreja em si resistiu, mas o episódio reforçou o desafio de manter vivo um patrimônio tão antigo em meio a fenômenos climáticos cada vez mais extremos.

Continua depois da publicidade

Porém, o peso da história exige uma manutenção constante e rigorosa. Entre 2021 e 2022, a Igreja passou por um amplo processo de restauro aprovado pelo Iphan e financiado pela Lei Rouanet por cerca de 18 meses. Foram mais de R$ 7 milhões investidos em telhado, vitrais, estrutura e mobiliário.

No meio da reforma, um objeto inusitado foi achado na parede, entre a sacristia e o altar: uma urna, que funcionava como uma cápsula do tempo, lacrada desde 1977. Dentro dela, estavam documentos, uma edição do Jornal de Santa Catarina e até uma garrafa de vinho assinada pela diretoria da paróquia revelaram um retrato das preocupações de meio século atrás. Porém, também revelou um novo mistério: há uma urna ainda mais antiga de 1877, depositada pelos primeiros luteranos, que nunca foi encontrada e ainda pode estar escondida em algum lugar da propriedade.

A Igreja do Espírito Santo é mais do que um espaço religioso. É memória, identidade e pertencimento de uma comunidade. Por isso, preservar as paredes do local significa também resgatar a própria origem da cidade. Quase 150 anos depois da inauguração, a pequena igreja gótica segue de pé no Centro de Blumenau. E, como no início da colonização, continua sendo lugar de encontro da fé, cultura e comunidade que a construiu.

Leia também

Blumenau ganha 24 mil moradores em três anos e se aproxima dos 400 mil habitantes, diz IBGE

Continua depois da publicidade