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EPIDEMIA 

A solidão do distanciamento social 

Tudo isso levanta a questão: o que as pessoas podem fazer para minimizar o risco de ficar solitárias quando não tiverem contato humano direto?

26/03/2020 - 12h38

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Por The New York Times
distanciamento social
(Foto: )

*Por Jane E. Brody

Dois anos atrás, quando o dr. Vivek H. Murthy, ex-cirurgião geral dos Estados Unidos, começou a pesquisa para seu livro "Together: The Healing Power of Human Connection in a Sometimes Lonely World (Juntos: O poder da cura da conexão humana em um mundo às vezes solitário, em tradução literal), ele nunca imaginou quão relevante o assunto seria, agora que o livro está prestes a ser publicado.

A pandemia do coronavírus e os conselhos que apareceram com ela – fique em casa, se possível, e evite contato com outras pessoas, mesmo na rua – intensificaram os danos causados por fatores que já isolam as pessoas e tornaram muitos dos antídotos para o isolamento irrelevantes.

Conforme Murthy ressalta, estamos programados para ter conexões humanas que podem combater os efeitos biológicos prejudiciais do estresse e da ansiedade. No entanto, os relacionamentos pessoais já foram diminuídos pelas "conversas" eletrônicas, nas quais as necessidades e os sentimentos humanos são transmitidos com menos honestidade. Acabamos conversando mais com a secretária eletrônica das outras pessoas do que com as pessoas.

De acordo com um novo relatório da Academia Nacional de Ciências, Engenharia e Medicina, o isolamento social foi associado a um aumento de 50 por cento no risco de demência, 29 por cento no risco de doenças cardíacas e 32 por cento no risco de derrame.

Afinal, evoluímos como uma espécie que prospera por meio da conexão e da cooperação. Colocando esses elementos em espera, pagaremos um preço inevitável. E não são apenas os idosos que provavelmente pagarão, embora muitos deles já viessem sentindo falta de contato humano significativo muito antes do ataque do coronavírus. Os efeitos prejudiciais da solidão na saúde não se restringem a idade ou grupo étnico específico. Qualquer um de nós pode sofrer as consequências. Murthy relata que vivenciou a solidão quando criança, pois era tímido e colocado de lado por seus colegas mais velhos.

Com base em vários estudos, Murthy relata que o impacto do isolamento social e da solidão na longevidade é igual ao de fumar quinze cigarros por dia e excede os riscos associados à obesidade, ao consumo excessivo de álcool e à falta de exercício. O aconselhamento para evitar o Covid-19 por meio do distanciamento social pode, para muitas pessoas, aumentar o risco de problemas físicos e emocionais por conta do contato social inadequado.

Minha nora enfatizou a necessidade de que eu seja rigorosa em relação às diretrizes de proteção, não apenas para minha própria saúde, mas para evitar um efeito dominó que poderia colocar em risco a vida dos membros mais frágeis da minha família por extensão. Não há espaço para o egoísmo durante uma pandemia mortal.

Tudo isso levanta a questão: o que as pessoas podem fazer para minimizar o risco de ficar solitárias quando não tiverem contato humano direto? Murthy explica que a solidão é diferente de estar só: "A solidão é o sentimento subjetivo de que você não tem as conexões sociais necessárias – o sentimento de proximidade, confiança e afeto de amigos genuínos, dos entes queridos e da comunidade."

E nessa definição há pistas importantes para combater os efeitos do isolamento físico que agora é necessário para retardar a propagação dessa infecção mortal e provavelmente incontrolável. Nossa melhor esperança no momento é manter as pessoas mais vulneráveis seguras e evitar que nossas instalações médicas e os profissionais da saúde fiquem sobrecarregados por aqueles que podem ficar perigosamente doentes.

Até agora, esse desastre trouxe o melhor das pessoas, em muitas comunidades. Meus vizinhos mais jovens, por exemplo, se ofereceram para me ajudar caso eu precisasse de algo – comida, remédios, qualquer coisa. A um quarteirão de distância, e-mails e números de telefone foram compartilhados para que você possa ligar para um vizinho sem sair de casa, caso precise de ajuda.

Só espero que os sentimentos magnânimos sobrevivam ao provável prolongamento de restrições à liberdade pessoal, especialmente agora que as crianças estão em casa 24 horas por dia, sete dias por semana, e a maioria dos locais fora de casa que oferecem liberdade e entretenimento – cultural, físico e emocional – foi fechada. É extremamente importante manter as conexões humanas que restauram a alma.

Michele Weiner-Davis, uma especialista em relacionamento de Boulder, no Colorado, me disse: "Oferecer-se para ajudar outras pessoas, estender a mão, adotar a perspectiva budista de se concentrar no aqui e agora, isso pode inocular uma pessoa contra a ansiedade."

Murthy explicou: "Ajudar o outro pode ser uma experiência incrivelmente poderosa que forma não só uma conexão entre as pessoas, mas também serve para reafirmar que estamos agregando valor ao mundo. Entre em contato com seus vizinhos e pergunte como eles estão, como você pode ajudar de uma maneira grande ou pequena. Muitas pessoas estarão lutando durante esta crise. Elas não receberão a ajuda, a renda ou o apoio emocional de que precisam para superar isso."

Uma mensagem repetida por todos aqueles a quem perguntei foi: se você não fizer mais nada, "pegue o telefone, ligue para alguém e pergunte como ele está", sugeriu Weiner-Davis. Stacy Torres, socióloga da Universidade da Califórnia, em San Francisco, concordou: "O bom e velho telefone é muito importante. Você consegue ouvir algo na voz de uma pessoa que não pode ser detectado em um e-mail."

Na semana passada, dediquei um dia inteiro a conversar ao telefone com amigos distantes, colocar nosso papo em dia e enviar abraços verbais. Terminei o dia me sentindo conectado e renovado. Esse vírus tem sido um lembrete valioso daquilo que eu estava perdendo.

Murthy explicou que não precisa ser uma conversa longa. "Não se trata de achar mais tempo, e sim de usar melhor o tempo que temos disponível. Elimine as distrações durante a conversa – não faça outras coisas ao mesmo tempo. Uma conversa de cinco minutos com outra pessoa que te dá total atenção pode fazer uma grande diferença na maneira como ela se sente. O som e o tom da voz fornecem informações valiosas sobre como ela está. Uma chamada de vídeo é ainda melhor, pois, como as pessoas realmente conseguem se ver, quase todo o contato direto acaba sendo reproduzido."

"Se eu tivesse um credo para meu livro, seria 'Pessoas em Primeiro Lugar'. Muitos adoram deuses falsos – riqueza, reputação, poder –, que não são mais importantes que as pessoas em nossa vida. Os relacionamentos são o que faz a vida valer a pena", completou Murthy.

Torres também exortou as pessoas a fazer "o que puderem para se conectar com as pessoas, mantendo-se dentro das diretrizes recomendadas, como doar não apenas dinheiro para a comida do sopão comunitário, mas também para a pessoa que o entrega. Precisamos fazer remotamente tudo que pudermos ou a dois metros de distância".

Depois que essa crise viral terminar, espero do fundo do coração que não nos esqueçamos das lições que aprendemos, durante esse período, sobre o valor de criar e manter conexões significativas com outras pessoas. Como me disse Murthy: "Se quisermos ser uma sociedade mais forte e mais resiliente, precisamos nos concentrar na reconstrução de fundações focadas nas pessoas".

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