*Por Katrin Bennhold

Berlim – Era segunda-feira depois das férias de verão, e Dirk Kwee estava nervoso como jamais tinha estado em seus 31 anos de ensino. Pela primeira vez desde o início da pandemia, todos os 900 alunos de sua escola em Berlim estavam de volta, cheios de animação.

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O temido anúncio veio apenas dois dias depois: uma garota do sexto ano estava com Covid-19. Kwee correu para o ginásio onde os outros 31 alunos de sua classe faziam sua primeira aula de educação física em cinco meses. Foram enviados para casa – imediatamente.

Na quinta-feira, toda a turma foi testada. Na sexta-feira, todos os testes deram negativo. E, na segunda-feira, metade das crianças estava de volta às aulas. Mas, assim que Kwee se permitiu um suspiro de alívio, um aluno do sétimo ano recebeu resultado positivo.

“É uma montanha-russa”, disse Kwee, diretor da escola secundária Heinz-Berggruen.

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Talvez seja esse o futuro previsível da volta às aulas.

A Alemanha, como outros países que administraram a pandemia razoavelmente bem, foi rápida em implantar testes generalizados, rastreamento de contato eficaz e testes com resultados rápidos. Tudo isso ajudou a manter a taxa de transmissão baixa.

Até agora, a lição da Alemanha, da Dinamarca e da Noruega, que estão entre os primeiros países a iniciar o novo ano letivo, é que as escolas podem reabrir e permanecer abertas – caso estejam em locais onde as coisas foram bem feitas. Mas a maioria dos países e a maioria das áreas dos Estados Unidos simplesmente não correspondem a essas condições.

Enquanto os americanos debatem ansiosamente como reabrir escolas e mais campi cancelam aulas presenciais, a Europa é um laboratório vivo. Apesar de um aumento acentuado nos casos de coronavírus nas últimas semanas, mesmo países que foram gravemente atingidos no primeiro semestre, como a Itália, a Espanha, o Reino Unido e a França, estão determinados a retornar às aulas regulares neste outono boreal.

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(Foto: Lena Mucha / The New York Times)

A Alemanha, que foi muito menos afetada no auge da pandemia, fechou as escolas no início, depois adotou um modelo híbrido de aprendizagem remota e presencial. O tamanho das turmas era menor, e regras rígidas de distanciamento social ajudaram a manter o número de infecções sob controle.

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Agora, porém, um novo experimento está em curso: professores e alunos foram chamados de volta às aulas para testar se a nova vigilância é suficiente.

O distanciamento social e a máscara facial são obrigatórios na maioria das escolas, mas raramente dentro das salas de aula, apesar do recente conselho da Organização Mundial da Saúde de que crianças com 12 anos ou mais usem máscara quando o distanciamento for impossível. Se os alunos tivessem de usar máscara durante várias horas por dia, segundo o que se diz na Alemanha, sua capacidade de aprendizado sofreria.

Em vez disso, as escolas buscam ventilar melhor as salas de aula e manter as classes separadas, para que cada aluno tenha contato com apenas algumas dezenas de outros e os surtos possam ser contidos.

A mudança de planos da Alemanha, saindo da estratégia de reabertura mais cautelosa e em tempo parcial, se baseia em parte nas restrições de recursos: como a maioria dos países, não há professores suficientes para dividir os alunos em classes menores e permitir o distanciamento social.

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Várias semanas depois da volta às aulas, no entanto, educadores e até virologistas que estavam céticos em relação à reabertura afirmam que os primeiros resultados parecem promissores. Embora infecções individuais tenham surgido em dezenas de escolas, não houve surtos graves – e nenhum fechamento duradouro.

Nos Estados Unidos, alguns formuladores de políticas se concentraram na taxa de testes positivos de coronavírus entre a população em geral, com alguns dizendo que deve ser inferior a três por cento para reabrir com segurança. Na Alemanha, o número está abaixo de um por cento, assim como em algumas outras nações e no estado de Nova York.

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(Foto: Lena Mucha / The New York Times)

Mas a maioria dos lugares tem taxas muito mais altas – sete por cento em todos os Estados Unidos, oito por cento na Espanha e mais de 40 por cento em alguns países da América Latina.

Entre os maiores sistemas escolares dos EUA, apenas a cidade de Nova York planeja reabrir em setembro – e, mesmo lá, os alunos alternam aulas presenciais e on-line. O uso de máscara é obrigatório, e o prefeito Bill de Blasio declarou que as escolas permanecerão fechadas se a taxa positiva de testes atingir três por cento.

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Os testes em massa têm sido cruciais para países como a Alemanha, que tem liderado em muitas frentes na pandemia, mantendo o número de mortes relativamente baixo.

Os funcionários dos hospitais e das casas de repouso são testados regularmente, as pessoas que voltam de férias podem obter exames gratuitos e um resultado positivo geralmente é seguido por um rápido rastreamento de contato. Agora que as aulas regulares foram retomadas, os professores também podem fazer testes gratuitos, mesmo que não apresentem sintomas.

Tais práticas, embora imperfeitas, ajudaram a tranquilizar os professores, alguns dos quais relutavam em retornar.

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(Foto: Lena Mucha / The New York Times)

Na escola Heinz-Berggruen, em Berlim, o sistema se mostrou eficaz na prevenção de um surto mais amplo. A aluna infectada do sexto ano não tinha sintomas, mas foi testada porque alguém da família dela recebeu resultado positivo. Esse parente foi testado depois do rastreamento de contatos de outra pessoa, que tinha trazido o vírus na volta das férias.

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Na manhã seguinte à notificação dos pais da menina à escola, uma unidade de testes móveis da autoridade sanitária local chegou ao estabelecimento e testou e entrevistou todas as crianças e todos os professores que estiveram perto dela. Depois que os testes deram negativo, metade da turma foi autorizada a voltar para a escola. Aqueles alunos que se sentaram perto da garota foram orientados a ficar em quarentena em casa por 14 dias.

Outros países europeus estão fazendo o mesmo.

Na Itália, o governo disponibilizou mais de dois milhões de testes aos professores antes do início do ano letivo. O presidente da região do Lazio, Nicola Zingaretti, se juntou recentemente aos professores que estavam sendo testados em Roma. “Escolas seguras significam fazer testes, e já começamos”, afirmou ele.

“É assim que você interrompe cadeias de infecções e previne surtos”, disse a virologista Sandra Ciesek, que, ao lado de outros virologistas alemães de renome, apoiou a reabertura das escolas. Mas ela advertiu: “Só funciona se as taxas de transmissão na sociedade em geral forem gerenciáveis.”

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(Foto: Lena Mucha / The New York Times)

À medida que as infecções aumentam, também cresce o temor de que as escolas se tornem centros de contágio.

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Os sindicatos de professores da região de Madri convocaram uma greve para protestar contra a falta de medidas de segurança em vigor antes do início do novo ano letivo. O governo das Ilhas Canárias adiou o fim das férias de verão em duas semanas para ter mais tempo para se preparar.

Na Itália, alguns diretores ameaçaram mudar para aulas on-line se o governo local não fornecesse salas extras, mesas e professores antes do primeiro dia de aula.

Alguns professores alemães citam Israel, onde as infecções em uma escola de Jerusalém rapidamente se transformaram no maior surto em uma única escola do país, infectando centenas de estudantes, professores e parentes.

“Israel me assusta. Estamos realizando esse enorme experimento nas escolas, mas muitos colegas não querem fazer parte dele”, comentou Doreen Siebernik, presidente da filial de Berlim do GEW, o maior sindicato de professores da Alemanha.

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Stefanie Hubig, ministra da educação do estado da Renânia-Palatinado, no sudoeste, e presidente de um grupo que representa todos os 16 ministros estaduais da educação, declarou que a maneira mais eficaz de proteger as escolas tem a ver com o comportamento de pais, professores e alunos fora da sala de aula. “Antes de pensarmos em fechar as escolas novamente, talvez devêssemos pensar em fechar bares ou outros grandes eventos. O objetivo deve ser que as escolas permaneçam abertas. Estamos aprendendo todos os dias. Precisamos ser criativos”, disse ela.

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(Foto: Lena Mucha / The New York Times)

Essa criatividade é exibida em diferentes cantos da Europa.

Na Itália, alguns alunos que retornam à escola podem ser direcionados para salas de aula em cinemas locais, em salões de igrejas ou até mesmo em tendas montadas em estacionamentos escolares, locais usados para garantir que a distância de um metro seja mantida.

O governo da Noruega está usando um código de cores de semáforo para indicar o nível de perigo do vírus, com cada cor ligada a um conjunto de diretrizes para as escolas.

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Na Inglaterra, o governo pediu às escolas que considerassem horários escalonados para dar espaço aos alunos à medida que eles vêm e vão, uma prática que ganha terreno na Alemanha, onde professores e administradores ainda estão trabalhando para encontrar as melhores práticas para manter seguras as escolas totalmente reabertas.

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