Se atualmente os moradores de Luiz Alves podem sair de casa sem repelente é porque a ciência venceu uma guerra silenciosa em nome da população. A quantidade de maruim, que trouxe tanto transtorno e riscos à cidade que a prefeitura chegou a decretar situação de emergência e calamidade pública em 2024, está 86% menor. O mosquito, tão pequeno que é quase invisível a olho nu, está sendo combatido com um larvicida criado a partir do problema vivido pelo município do Vale do Itajaí.

Continua depois da publicidade

O larvicida — que mata as larvas do inseto — foi desenvolvido com substâncias naturais e tecnologia que faz com que o produto libere os componentes durante um mês. O trabalho também implantou uma armadilha inédita, que utiliza Inteligência Artificial para capturar e monitorar a presença do maruim. Ela faz a contagem dos insetos coletados no ambiente onde é aplicado o produto e assim ajuda a verificar se ele realmente funciona.

Para testar ainda mais a eficácia, equipes pulverizaram o larvicida em pontos como escolas, creches e prefeitura, justamente para ouvir das pessoas se a situação melhorou. Por anos, sair à rua significou conviver com coceira, vermelhidão e incômodos constantes, afetando o lazer, as atividades ao ar livre e até o turismo em Luiz Alves.

O inseto (Culicoides spp.), também associado à transmissão da Febre Oropouche, foi combatido com sucesso no ano passado. Os resultados foram apresentados no final de janeiro e a redução de 86% é confirmada nos relatos dos habitantes, comenta o coordenador do projeto, Jean Carlos Hoepfner:

— Um fato que me marcou muito foi o relato de uma professora que pensou em parar de dar aula de Educação Física porque se coçava o tempo todo. Depois das aplicações, no fim do ano, ela conseguiu dar aula de shorts, algo que não fazia há muitos anos. Em Luiz Alves, o maruim tinha saído do controle.

Continua depois da publicidade

A solução surgiu a partir de um estudo desenvolvido com fomento da Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Estado de Santa Catarina (Fapesc), aprovado ainda em 2024. Na prática, o projeto avaliou um larvicida desenvolvido pela empresa Nório Nanotecnologia. Nas áreas tratadas, houve redução expressiva do maruim, com queda no número de insetos adultos capturados pelas armadilhas. Ao longo do monitoramento, os dados confirmam a eficácia da estratégia, que age ainda na fase inicial do inseto, ajudando a interromper o ciclo de reprodução.

Do ponto de vista ambiental, não foram identificados danos a outros insetos, como espécies nativas e polinizadores, nem prejuízos ao solo ou à produção agrícola, reforçando a viabilidade do uso contínuo no município. Agora, o objetivo é registrar o produto junto à Anvisa para poder comercializá-lo. Se tudo der certo, esse processo deve ser concluído ainda no primeiro semestre.

Para o prefeito Bertolino Bachmann (MDB), a meta agora é alcançar um controle efetivo do vetor, com benefícios diretos à qualidade de vida da população, além de construir um modelo que possa ser replicado em outros municípios. Já a sócia da Nório Nanotecnologia, Patrícia Zigoski Uchôa, reforçou que o apoio público foi decisivo para transformar um problema histórico em uma solução real.

— O fomento da Fapesc foi essencial para tirar essa ideia do papel e levar a ciência para onde o problema realmente acontece: no campo, junto da população. Tivemos casos de Febre Oropouche, mas, no dia a dia, o maior sofrimento era o incômodo constante. As pessoas deixaram de frequentar áreas abertas, viviam presas ao ar-condicionado. Nas regiões onde aplicamos a tecnologia, elas voltaram a conviver — comemora.

Continua depois da publicidade