A vista privilegiada para a Lagoa da Conceição está longe de ser o único diferencial da Escola Básica Municipal (EBM) Costa da Lagoa, em Florianópolis. O ponto 16 da linha de transporte por barcos, localizado bem em frente a unidade escolar, serve como desembarque dos cerca de 90 alunos que só conseguem chegar por meio de embarcações ou trilha. São estudantes que “viajam” diariamente, vindos de bairros como o Rio Vermelho e os Ingleses, no Norte da Capital, ou da Barra da Lagoa e da própria Costa, ao Leste.

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A escola tem turmas que vão da Educação Infantil ao quarto ano do Ensino Fundamental. No início das atividades, eram feitas turmas mistas, com alunos com idades parecidas e aulas em meio período, para poder atender a comunidade. Atualmente, a escola se destaca por oferecer o ensino em período integral, o que atrai estudantes de outros bairros.

— A ideia de oferecer período integral começou por conta de ser um número pequeno de crianças. A gente ficou com medo até de fechar a escola. Daí oferecemos essa proposta, com os conteúdos curriculares e oficinas no outro período — explica a diretora da unidade, Waldirene Garcia Moraes.

São 30 profissionais que atuam no local, desde a limpeza, monitores, professores, auxiliares de ensino e de educação especial. Alguns moram na própria Costa da Lagoa, enquanto outros, como Waldirene, precisam fazer o deslocamento para o trabalho de barco. Os alunos que vêm de outros bairros utilizam o serviço da cooperativa Coopercosta, que sai do terminal do Rio Vermelho e tem um trajeto mais curto. As crianças do primeiro ao quarto ano já pegam o barco sozinha, enquanto as da Educação Infantil precisam ser acompanhadas pelos pais, que costumam fazer uma espécie de revezamento para facilitar a logística.

— Por ser uma escola pequena, que tem poucos alunos, a gente consegue fazer um trabalho maravilhoso, com toda a comunidade. Eles participam, se envolvem e tudo que a gente faz aqui é a valorização da cultura local. Da vivência deles do dia a dia junto com a proposta curricular que a gente tem que inserir no aprendizado das crianças — pontua a diretora.

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A escola conta com uma série de diferenciais, como o boi de mamão, que tem mais de 30 anos e valoriza a cultura local. Feito com material reciclado, incentivando o cuidado com a natureza, a música do boi de mamão da escola tem uma letra própria, criada na Costa da Lagoa, em referência aos animais, a natureza e o cuidado com a lagoa.

Veja fotos do EBM Costa da Lagoa

Todos esses elementos folclóricos são trabalhados em atividades na escola, assim como a questão da preservação da natureza e os animais e plantas que fazem parte da comunidade da Costa. Mesmo com os desafios pelo acesso, são feitas saídas de estudo ao longo do ano para que os alunos possam ter uma maior integração com a natureza.

— A gente ensina a criança a se sentir pertencente desse lugar, e as que não são pertencentes, a ser pertencente dos lugares que elas são, e abrir esse leque de conhecimento para outros lugares — destaca Waldirene.

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A professora Fabiana Marlene de Andrade dos Santos, de 43 anos, é natural da Costa da Lagoa e viu a escola onde estudou quando criança se tornar seu próprio local de trabalho. Além de ter o local como própria referência de ensino, a história da família se integra a da unidade escolar: a tia era merendeira, outra prima professora, e assim cresceu o sonho de também exercer a profissão.

— Estudei nessa escola até o quarto ano e amo morar nessa comunidade. Não tenho vontade de sair. Tem gente que é nativo daqui, depois cresce, vai fazer a vida fora. Eu não tenho vontade — conta.

Foram 19 anos como professora e sete na direção da unidade, entre 2018 e 2024. Há dois anos, retornou para a sala de aula que já acolheu o filho, o esposo e os pais, em um espaço que mescla as próprias vivências familiares com o trabalho.

— A família toda estudou nessa escola e eu tenho um grande carinho por ela. É muito gratificante a gente ver a escola crescer, saber que tem um pouquinho do nosso trabalho nesse crescimento da escola. Amo de paixão esse lugar — afirma Fabiana.

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A professora destaca o papel da comunidade em parceria com a escola, por acolher quem vem de fora e pela preservação da cultura tradicional, de características que ainda se mantêm vivas, como a pesca e as rendeiras. O trabalho feito na unidade e projetos ligados à cultura e ao meio ambiente também diferenciam as atividades escolares de outras unidades. 

— A gente trabalha muito a questão do meio ambiente, isso chama muita atenção, porque no mundo que a gente tá vivendo hoje, se a gente não pensar no meio ambiente, se a gente não plantar essa sementinha para nossas crianças, o que será do nosso futuro? — destaca Fabiana.

Serviços públicos repensados para a realidade local

Também no ponto 16 fica o Centro de Saúde da Costa da Lagoa, que atende em média 860 pessoas, segundo a secretaria de Saúde de Florianópolis. O funcionamento da única unidade de saúde da comunidade é de segunda à sexta, das 8h às 14h. O local conta com um médico, uma enfermeira, que coordena o Centro de Saúde, duas técnicas de enfermagem e dois Agentes Comunitários de Saúde.

Nas quartas e quintas, a dentista do Centro de Saúde da Lagoa da Conceição vai até o CS da Costa da Lagoa para atender a unidade. Já o médico, a enfermeira e um dos Agentes Comunitários de Saúde, que moram em outros bairros da Capital, se deslocam diariamente.

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As questões ligadas à saúde, como procedimentos, exames e emergências, exigem preocupações diferentes devido ao contexto do bairro, com acesso feito somente por barco ou trilha. De acordo com a prefeitura, caso seja feito agendamento de exames, consultas ou procedimentos eletivos, a comunidade deve se deslocar por conta própria até os respectivos locais. O mesmo acontece quando os moradores buscam a atendimento para a UPA ou hospital. O paciente precisa ir até a unidade por meio do terminal lacustre do Rio Vermelho ou da Lagoa da Conceição e, de lá, pegar um transporte

Já em situações urgentes, durante o horário de funcionamento da unidade, a equipe presta suporte para a avaliação inicial sempre que possível, afirma a prefeitura.

“No caso de situações mais graves, onde há o acionamento de serviços de urgência e emergência (SAMU ou Bombeiros) com a necessidade de deslocamento das equipes, o deslocamento se dá de helicóptero ou em terra com as ambulâncias até os terminais lacustres e, posteriormente, com a lancha dos bombeiros até o local onde o paciente se encontra”, explica.

Atualmente, dois helipontos prestam apoio no caso da necessidade de acionamento das equipes por helicóptero, um deles público e outro privado. O Centro de Saúde está cadastrado desde novembro de 2001.

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E a coleta de lixo?

Outra dúvida que pode surgir sobre a rotina em uma comunidade de difícil acesso como a Costa da Lagoa é como é feita a coleta de lixo. A secretaria de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável de Florianópolis explica que ela é feita através de barcos, que saem do terminal lacustre do Rio Vermelho e percorrem os trapiches da Costa da Lagoa com o apoio de três garis.

Durante a baixa temporada a coleta convencional acontece três vezes por semana e a seletiva uma vez por semana. Na alta temporada, a convencional é ampliada para atender a maior demanda de visitantes.

“Os moradores devem depositar os resíduos nos pontos previamente determinados, localizados ao longo da trilha e nos decks”, especifica a secretaria.

Como funciona o único mercado da Costa da Lagoa

Os visitantes que caminham entre a rota gastronômica da Costa da Lagoa e a cachoeira, um dos principais atrativos da região, passam pelo único mercado disponível no bairro: o Mercadinho Costa. O local é administrado por Eliziane Nunes, de 34 anos, e pelo esposo, Adelson dos Santos.

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— Abrimos antes da pandemia, em novembro de 2019. A gente já vinha há alguns anos com a ideia de abrir, mas não sabia se ia dar certo ou não — conta Eliziane.

Por lá, um refrigerante de dois litros custa R$ 10 e um de lata é R$ 5,50; uma água de 500 ml sai por R$ 4,50; uma barra de chocolate é R$ 10; e um litro de água sanitária é R$ 7. Os preços são um pouco acima dos praticados em supermercados nos bairros da Capital, mas os donos garantem que colocam uma margem pequena para poder vender, já que a maior parte dos clientes são os próprios moradores.

O abastecimento de um mercado que fica em um bairro de difícil acesso, contudo, é diferente e gera custos extras. Eliziane relembra que, no início, oferecia poucas mercadorias, e, aos poucos, conforme os pedidos dos clientes, foram ampliando a gama de produtos.

— A rotina é uma vez por semana. Ele [Adelson] sai daqui um dia, eu faço uma lista um dia antes, do que tá faltando, do que alguém pediu. Ele vai no dia seguinte, vai de barco, faz as compras, põe no carro, do carro põe no barco, do barco, tira, traz para cá, e a gente guarda tudo manualmente — detalha a comerciante.

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O casal conta que possui um barco próprio para buscar as mercadorias, seja na Lagoa da Conceição ou no Rio Vermelho, ponto onde alguns fornecedores entregam itens como bebidas e congelados. No começo, os produtos eram carregados na mão pela família, do barco até o mercado, toda semana.

— Juntava eu, ele, a irmã dele, a mãe dele, o pai dele, e ia trazendo as coisas. Aí depois a gente viu a necessidade e ele comprou uma moto, adaptou e a gente traz a mercadoria com uma “carrocinha” — conta.

Apesar de ver o movimento e as vendas crescerem durante a temporada de verão, a principal clientela do Mercadinho Costa são os próprios moradores da comunidade, que têm no comércio uma referência para buscar os produtos que precisam no dia a dia. Já os turistas costumam passar pelo local e comprar bebidas para refrescar a caminhada pela trilha.

— O que mais sai é feijão, bolacha, pão, café. Coisas assim do dia a dia mesmo — explica Eliziane.

Fotos revelam cotidiano da Costa da Lagoa, em Florianópolis

Costa da Lagoa: uma joia escondida na Ilha da Magia

O especial “Costa da Lagoa: uma joia escondida na Ilha da Magia” retrata como é viver na comunidade de Florianópolis onde só é possível acessá-la por meio de trilha ou barco. Em uma série com seis reportagens, o leitor poderá conhecer histórias, as curiosidades, a biodiversidade e a rotina de quem vive no canto mais isolado da capital catarinense.

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