O computador ficava aberto no banco de trás enquanto o carro parava na beira de uma estrada europeia. Do lado de fora, um monumento de séculos, uma praça iluminada, às vezes o silêncio de um deserto. Do lado de dentro, a brusquense Júlia Pasa Tomasi, de 17 anos, relia pela décima vez as anotações de estudo ou praticava uma redação. Ela não fazia um curso preparatório e não tinha mentoria. Tinha internet quando aparecia e uma determinação que, meses depois, se traduziu em quatro cartas de aprovação de universidades americanas.

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Júlia foi aceita na Stetson University, na Miami University, na University of Connecticut e na University of Rhode Island. O processo seletivo americano, conhecido por ser um dos mais rigorosos do mundo para estudantes internacionais, foi conduzido de dentro de um furgão adaptado, em aeroportos, em praças de cidades que ela nunca tinha imaginado conhecer. Nos últimos sete meses antes dos resultados, o pai, Jocemar, calcula que ela estudou mais de doze horas por dia.

— A gente fica muito presa com a ideia de que não consegue, que não tem capacidade para ser aprovada em outras instituições, e eu acho que isso tem que ser desmistificado — ela reflete.

Ela não usou mentoria paga, seguiu pessoas que passaram pelo mesmo processo na internet, conversou com alunos e com setores de admissão das próprias universidades e participou de workshops gratuitos oferecidos pelas faculdades. O sistema americano avalia os candidatos de forma holística, com notas, cartas de recomendação, redações, atividades extracurriculares e a capacidade de mostrar quem você é como pessoa, não só como aluno. Júlia aprendeu tudo isso sozinha.

Veja alguns dos registros das viagens

A primeira aprovação chegou quando a família tinha acabado de pousar em Las Vegas, encerrando a segunda volta ao mundo, que passou por 64 países, sete territórios e seis continentes. Era a Stetson University. Vieram mais três cartas depois.

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— Alegria é impossível de colocar em palavras porque dá a sensação que a gente quer sair pulando, gritando que acabou de passar na universidade. Dá um alívio porque a gente sabe que todo esforço valeu a pena, todos aqueles meses de dedicação, lendo e relendo as redações, alinhando os valores com as universidades, pesquisando oportunidade, descrevendo elas na aplicação… Tudo isso valeu a pena para esse momento a gente receber a notícia que foi aceito, é imensurável a alegria — Júlia celebra.

Começo da jornada da família Tomasi

A família Tomasi não é o que a maioria das pessoas imaginaria ao ouvir a palavra “nômade”. Jocemar, 48 anos, é filho de tapeceiro e dona de casa. Adriana, 47, cresceu vendo a mãe costurar e o pai vender roupa de porta em porta com um carrinho. Os dois se casaram em 1999, em Brusque, e abriram uma farmácia de bairro.

Por trabalharem no sábado e domingo, reservavam um dia no meio da semana só para descansar. Nesse tempo reservado apenas para pensar na vida, decidiram que não queriam morrer trabalhando. Mais do que estarem em família e com amizades verdadeiras, queriam ter uma vida cheia de histórias para contar.

— A ideia surgiu justamente de não deixar a vida passar em branco porque a gente não tem uma garantia futura. A vida é uma só e não sabemos o dia que vai acabar. Eu sei que a gente precisa de um pouco de dinheiro, precisa de um pouco de tempo, mas o tempo é a coisa mais cara que existe. Então, a gente queria privilegiar isso e aproveitar que as crianças estavam pequenas e que tínhamos condições para dar certo — conta a família.

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A partir daí, a família atribui a maior parte das mudanças a um efeito borboleta, aquela pequena alteração no dia a dia que muda tudo dali para frente. O tempo passou a ser organizado melhor, defeitos foram corrigidos, as finanças foram rearranjadas e compraram o primeiro carro, um Fiat Doblò que os acompanharia por viagens na América do Sul em meados de 2009. Na época, Júlia tinha um ano de idade, e a mãe, Adriana, estava grávida de sete meses do irmão mais novo, Miguel.

— Viagem legal pra caramba, fomos para a Cordilheira dos Andes, lá em Los Caracoles, fomos para o Chile e lá para Bariloche — relatam sobre a viagem que durou cerca de sete meses.

Ao voltarem ao Brasil, Miguel nasceu e a família logo partiu em direção a outro lado da América do Sul, rumo ao Atacama, Bolívia, Peru e Lago Titicaca. O carro foi adaptado para ser mais do que um meio de transporte, era também onde eles dormiam e preparavam as refeições.

Primeira volta ao redor do mundo

A família estava decidida que queria expandir esse projeto, nomeado de “Família Pelo Mundo”, e conhecer também a Europa por ainda mais tempo. Correram atrás, criaram uma renda passiva com aluguéis de imóveis até no exterior e decidiram partir para a primeira volta ao mundo. 

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— Na época, a gente tinha uma farmacinha de bairro, bem pequena, e vinham filas de pessoas, amigos, família, dizendo: “Não, vocês estão loucos”, “viajar se as coisas estão indo tão bem?” e “para quê fazer isso?”. E as crianças eram pequenas também, então não iam na aula ainda — lembram dos desafios.

Em 2012, com Júlia com três anos de idade e Miguel com um ano e oito meses, a família saiu pela primeira vez. O carro comprado usado foi adaptado em casa com isopor, serpentina no motor para aquecer a água do banho e inversores de energia. Sem fogão a gás, sem aplicativo de tradução, quase sem inglês na ponta da língua — hoje, os filhos crescidos são fluentes. Foram 65 países e 58 deles o carro atravessou junto. 

Na época, não tinham smartphone e dizem ter tido uma viagem “offline”, sem tradutor, internet e com apenas livros dentro do carro como auxílio tanto para se guiar quanto para comunicar. A conta de onde moravam e o dinheiro para isso vieram de imóveis para alugar, muito bem planejados antes da partida. 

Entre risadas, a família conta como era a rotina ao viajar de carro. Logo ao acordar, faziam café e uma mamadeira para os filhos antes mesmo de ligar o motor. Uma das memórias que mais traz risos é lembrar do estoque que fizeram de cereal Mucilon, fraldas e remédios para os filhos por pensarem que não achariam com facilidade ao longo da viagem e, a maioria, nem chegou a ser usada.

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Com todo mundo alimentado, o carro aprovado na vistoria técnica do pai e as crianças na cadeirinha com o cinto, era hora de partir. Os planos já eram delimitados no dia anterior, junto com as preparações e escritas detalhadas dos diários de bordo, que viraram um livro em 2017, “Família pelo Mundo: uma volta ao mundo de carro com duas crianças pequenas”. 

Uma das maiores paixões mencionadas pela família ao viajar é como um dia nunca é igual ao outro. Ao passarem por diversos países e se surpreenderem com a cultura de cada um, a ideia de que seria possível parar e morar ali até chegou a passar rapidamente pela cabeça. Porém, confessam que, ao mesmo tempo que não trocariam o Brasil e sempre sentem saudade de uma coisa ou outra da cultura brasileira, também não trocariam a vida na estrada. Liberdade geográfica é uma prioridade e, agora, uma tradição familiar também.

— A verdade mesmo é que a vida é tão curta que eu acho que é viável [ter liberdade geográfica]. A gente nem tem uma moradia meia fixa mesmo, sabe? Agora, o nosso foco é ficar quatro meses no Brasil, quatro meses, quem sabe, na América do Norte, e quatro meses viajando pelo mundo — pensam.

Hoje, a família divulga as viagens e experiências nas redes sociais, como Instagram e Facebook. Júlia também conta sobre as viagens, experiências conhecendo as faculdades americanas e faz vlogs de viagens em um canal do YouTube.

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Histórias para contar

No Irã, a família esperava encontrar o que os noticiários descrevem, mas encontraram muita hospitalidade e solidariedade. Em Teerã, acamparam por uma semana inteira no meio da cidade enquanto aguardavam um documento, e não havia dia sem que alguém aparecesse com frutas, convites para jantar ou um fio de energia elétrica pendurado do segundo andar para alimentar o carro estacionado lá embaixo. 

— A gente foi muito, muito bem recebido pelas pessoas iranianas. É um povo muito hospitaleiro. A gente ficou um mês lá no Irã, principalmente na capital Teerã, e não tinha um dia que não passasse sem que viesse alguém para querer conhecer a gente. Eu, particularmente, fiquei muito encantada com as pessoas do Irã e isso desconstruiu aquele pré-conceito que a gente, às vezes, tem — conta Adriana.

Era o Ramadã e, à noite, os parques se enchiam de famílias inteiras, do recém-nascido ao idoso, com tapetes no chão e jogos de chá. Em Bandar Abbas, a 55 graus, um homem que só falava persa os encontrou perdidos na rua, ligou para um amigo que falava inglês e usou o telefone como intérprete para convidá-los para irem dormir na casa em que morava. 

A comunicação, dali em diante, foi feita em mímica e desenhos no papel. A família descobriu que o anfitrião tinha duas mulheres e filhos de cada uma, comeram sentados no chão como é o costume local, e quando não havia palavras, havia o telefone passado de mão em mão com o amigo do outro lado da linha.

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— Muitas das viagens proporcionam coisas que a gente vai levar para o resto da vida. Uma delas, eu acho que é a coragem de ter uma mente aberta para outros pontos de vista. Eu acho que isso é o que mais eu vou levar para o resto da vida porque você tem a habilidade para conversar com alguém, entender a situação dela e ainda compreender o pensamento. Você fica mais aberta para entender como as pessoas agem, em diferentes situações — reflete Júlia.

Já a chegada à Rússia começou com um choque literal de temperatura. A família tinha saído de Singapura com 29 graus positivos, com uma parada rápida em Pequim, na China. Em Vladivostok, na Rússia, já eram 29 graus negativos. No aeroporto, abriram a porta e esbarraram no frio como quem esbarra em uma parede. O plano era pegar o trem para a cidade, mas uma passageira que conheceram no avião, ao ver as crianças, os convenceu a pegar um táxi pela temperatura. 

Para o espanto da família, o motorista dormia no volante. A estrada era coberta de neve, cheia de curvas, e eles se revezavam para dar tapas no encosto do banco dianteiro e mantê-lo acordado enquanto o carro seguia rápido em zigue-zague. Por fim, chegaram ao destino vivos e apavorados. Porém, o medo de antes vira risada hoje.

Na Moldávia, o carro parou numa beira de estrada que, pelo GPS, parecia à margem de um lago. Árvores bloqueavam a visão, mas era tarde, todos estavam cansados e o lugar parecia o suficiente. Um carro desconhecido parou na frente. O homem que desceu não falava inglês direito, mas foi possível entender que ele conhecia um lugar melhor e queria levar a família até lá. O cansaço era tamanho que nem tiveram forças para retrucar e foram. 

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O lugar era, de fato, melhor. O homem os convidou para jantar e tomar banho na casa em que morava, contou histórias sobre os movimentos separatistas do sul do país e sobre a corrupção do governo, e no meio da noite, buscou um garrafão de vidro guardado há anos. Era uma bebida feita pelos avós do anfitrião para o casamento dos pais dele. Disse que receber uma família brasileira era motivo suficiente para abri-lo mais uma vez. O garrafão, de quase uns 20 litros, já estava na metade quando brindaram pela primeira vez.

Segunda volta ao mundo

A segunda volta ao mundo começou em 2022 e terminou há pouco tempo. Desta vez sem o furgão em boa parte do trajeto. Hoje, o carro já é outro, um furgão Peugeot Boxer, grande o suficiente para acomodar a família com conforto, mas ainda no tamanho ideal para circular pelas cidades, ir aos centros históricos e até estacionar em vagas comuns. 

Essa viagem também foi feita em barcos, trens, ônibus, jipes com barraca no teto, carros realocados na Austrália, Nova Zelândia, Japão, Indonésia, Bali e até Maldivas. Mais improviso e, segundo a família, mais aprendizado.

— A nossa viagem é muito intensa, a gente gosta de ver tudo e gosta de explorar os lugares. Então, por exemplo, ali na Europa, cada dia era um lugar diferente. Um país diferente. Então, eu queria explorar tudo porque eu adoro conhecer outras culturas, outras pessoas, a história — relata Júlia.

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Viajar com o carro próprio tem uma lógica simples: a família embarca, o carro embarca junto e a casa vai junto. Sem ele, era reserva atrás de reserva, carros alugados, hostels, barracas, noites improvisadas. Na Islândia, couberam em um carro pequenininho porque hotel, ali, custa caro. A família até tinha condições de pagar, mas decidiram por uma votação: gastar o dinheiro com hospedagem ou com outras atividades, como um tour gastronômico? 

Assim, dormiram dois dias dentro do carro diante de um vulcão que havia entrado em erupção no sudoeste da ilha, em julho. De dia, escalaram parte dele. De noite, olhavam pela janela para a fumaça que subia do chão como se a terra respirasse. Em alguns pontos, era possível encostar a mão no solo e sentir o calor vindo de baixo. Uma experiência “de outro mundo”, como conta os Tomasi.

Foi nessa viagem que Júlia, já adolescente, decidiu se candidatar para universidades americanas. Nos últimos sete meses antes dos resultados, mais de doze horas diárias de estudo. O sistema americano avalia os candidatos de forma holística: notas, cartas de recomendação, redações, atividades extracurriculares e a capacidade de mostrar quem você é como pessoa, além do aluno.

— Eu faço de tudo para conseguir acompanhar meus estudos na viagem. Quando eu tinha um espaço-tempo no meio, tipo quando a gente parava o carro, eu estudava. Então, além de aproveitar o meu dia conhecendo os lugares, eu fazia essa intercalação com os meus estudos — conta a estudante.

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Da mesma forma que aprendeu inglês de forma autodidata, com experiência ao longo das viagens “na marra”, Júlia estudou para as universidades por conta própria. Foi seguindo pessoas que passaram pelo mesmo processo na internet e davam dicas valiosas, conversando com alunos e com setores de admissão das próprias universidades, participando de workshops online e trilhando o próprio caminho ao sucesso.

— Para mim, como pai, já foi uma coisa muito gratificante. Viajar só agrega. E eu acho que essa volta ao mundo deles, a primeira habilidade que trouxe é que os dois falam inglês fluente. Se nós soubéssemos o que eles sabem quando nós tínhamos a idade deles, a nossa vida era outra — reflete Jocemar.

A família ainda não decidiu qual universidade Júlia vai frequentar. No momento, a família descansa na cidade Natal, Brusque, mas embarcarão no dia 14 para a formatura da Júlia no Ensino Médio nos Estados Unidos. O que já está no ar é que uma menina que estudou entre vulcões na Islândia, piqueniques noturnos no Irã e estradas cobertas de neve na Rússia vai entrar em uma sala de aula americana carregando uma bagagem que não cabe em nenhuma mochila.

— Foi incrível, foi uma conquista que não é somente minha, mas é dos meus pais, é da minha cidade, é do meu Estado, para levar o orgulho e inspirar outras pessoas ao mesmo tempo, para mostrar que a gente consegue fazer o que a gente quiser, se a gente colocar o nosso objetivo na cabeça e fazer acontecer — conclui a jovem.

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