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    Dados do Pisa

    Adolescentes brasileiros têm defasagem de conhecimento que equivale a três anos letivos

    Mais de 70% dos estudantes de 15 anos avaliados não chegam ao nível esperado em matemática para exercer plenamente sua cidadania

    06/12/2016 - 05h09 - Atualizada em: 21/06/2019 - 22h15

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    Por Redação NSC
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    Os estudantes brasileiros estão ingressando no Ensino Médio sem o conhecimento e as habilidades mínimas para exercer uma plena vida social e econômica no mundo globalizado. Foi o que revelou a última edição do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa), que foi realizada em 2015 e cujos resultados foram divulgados pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) nesta terça-feira.

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    A prova, que traça uma comparação com os resultados de 70 países, traz ainda um diagnóstico mais preocupante: no Brasil, o desempenho dos estudantes na faixa etária de 15 anos está significativamente abaixo da média internacional. No ranking do desempenho dos alunos, o Brasil assume a 63ª posição — atrás de Turquia, Colômbia, México e Costa Rica, e, na América Latina, à frente somente do Peru.

    E pior: a pontuação dos adolescentes brasileiros no último exame caiu em relação à registrada na edição anterior, realizada em 2012. São três as áreas avaliadas: ciência, leitura e matemática. Os participantes brasileiros fizeram respectivamente 401, 407 e 377 pontos em cada uma delas em 2015. A média dos alunos dos demais países participantes do Pisa na mesma edição foi de 493, 493 e 490 pontos. Pode parecer pouco, mas a discrepância é comparada ao aprendizado de três anos letivos.

    Os dados não chegam a surpreender especialistas, que são unânimes ao afirmar: as más notícias eram esperadas. Segundo eles, o desempenho dos estudantes revela uma educação estagnada, reflexo de um país que tem professores malformados, o "conteudismo" como metodologia predominante e é incapaz de corrigir falhas apresentadas em cada nível de ensino.

    — O Pisa 2015 reforça um diagnóstico já feito pelas avaliações brasileiras mais recentes, como a Prova Brasil e a Avaliação da Educação Básica (Saeb). Se forem comparados os resultados deste ano com os de anos anteriores, pode-se dizer que nas outras edições o Brasil vinha crescendo timidamente. E o cenário deste ano é diferente: há uma estagnação. Para não dizer um retrocesso. Em matemática, a pontuação retorna para um patamar-base de 2006 (quando o Pisa foi aplicado no Brasil) — avalia Olavo Nogueira Filho, gerente de projetos do movimento Todos Pela Educação (TPE).

    No Pisa, a competência do aluno em cada área é avaliada por níveis que vão desde o 1B, passando pelo 1A, nível 1, nível 2, até chegar ao nível 6. De acordo com a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), responsável pela prova, o nível 2 compreende as capacidades mínimas para exercer uma cidadania plena — mas a grande parte dos brasileiros não chega a ele. Em matemática, 70% dos brasileiros que realizaram o exame em 2015 ficaram abaixo do nível 2. Em ciência, 56%, e em leitura, 51%.

    Conforme a avaliação, os brasileiros têm maior facilidade para compreender textos que dizem respeito ao universo pessoal: e-mails, mensagens de texto e cartas. Mas penam para interpretar notícias e documentos oficiais. Em matemática, em que a dificuldade é maior, as habilidades dão contas de simples adições e subtrações do cotidiano, como o cálculo de um troco em uma compra. O sufoco é grande quando os números começam a ficar abstratos, como ocorre nos cálculos geométricos, por exemplo. Para Olavo Nogueira Filho, a explicação pode estar na qualificação dos professores para lecionarem as disciplinas.

    — O professor é o elemento que mais pode fazer diferença no aprendizado do aluno. Na nossa realidade, no entanto, pode-se dizer que mais de 60% dos professores de ciências no Ensino Fundamental no Brasil não tem formação específica na área. Os resultados de aprendizagem do sistema estão condicionados à qualidade dos professores — afirma Nogueira.

    Entre os estados brasileiros, estudantes do Espírito Santo vêm à frente no desempenho nas áreas de ciências e leitura, e os alunos do Paraná, em matemática. Os adolescentes no Rio Grande do Sul assumem a 6ª, 9ª e 7ª posições respectivamente. Alagoas é o último colocado nas três áreas, com pontuação de até 30% inferior a dos que lideram a lista.

    O abismo que se vê entre os estados federativos também se revela entre o ensino das escolas federais e particulares e o das escolas municipais e estaduais. Enquanto os escores de alunos das duas primeiras se aproximam do desempenho médios dos alunos de países que lideram o ranking (como Finlândia, Canadá e Coreia do Sul), o desempenho de alunos de escolas públicas — que compõem a grande maioria dos avaliados —, está parelho com os dos últimos colocados.

    Para Antonio Augusto Gomes Batista, coordenador de Desenvolvimento de Pesquisas do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec), o ensino tem capacidade de reverter as discrepâncias da desigualdade social e equilibrar, ao menos no conhecimento, crianças e adolescentes de níveis sociais distintos. Mas não é o que ocorre nas escolas brasileiras.

    — Claramente existe um "apartheid" social e escolar. Os alunos de escola particular e federal têm níveis quase europeus, e os de escola pública puxam o nível para baixo. A nossa escola não é somente ineficaz, como também impotente diante das desigualdades sociais. Elas não consegue exercer o efeito de transformações, de amenizar as desigualdades que estão no ponto de partido. Ela está impotente — afirma Batista.

    Mozart Neves Ramos, diretor de Articulação e Inovação do Instituto Ayrton Senna, é categórico: os dados revelam que o país continua na "rabeira da educação mundial".

    — Mesmo quando comparamos o Brasil com países vizinhos da América Latina, esse quadro não melhora. Colômbia, México e Uruguai alcançaram em 2015 resultados maiores do que o Brasil, mesmo apresentando investimento médio por aluno menor que o nosso. O Pisa nos dá uma bela lição. Colocar mais recursos é necessário, mas não basta. É preciso ter foco e geri-los adequadamente. Investir na qualidade do professor é, de longe, o maior diferencial — afirma Ramos.

    Especialista em Psicologia da Educação e pesquisador da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Fernando Becker credita o mau desempenho dos alunos brasileiros no Pisa à metodologia aplicada no ensino e ao jogo de empurra-empurra enraizado na educação.

    — O ensino que se pratica no Brasil é o do "conteudismo". O professor não está preocupado com a aprendizagem, mas em passar conteúdo. Se ele passou o conteúdo, com esse verbo mesmo, ele se sente com o dever cumprido. Se o aluno não entendeu, o problema é dele. Muito do rendimento do aluno também depende da expectativa dos pais e de como a transformam em acompanhamento. Só que os pais transferiram a responsabilidade do ensino integralmente para a escola, e a escola trabalha com competência baixíssima, em sua grande maioria. E daí é um jogo de empurra, dos pais para a escola, da escola para os alunos. O resultado está aí.

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