Nascida e crescida em Joinville, mais precisamente no bairro Boa Vista, Ana Paula Nunes Chaves ajuda todos os dias a escrever a história da cidade. Um dos seus marcos é ter criado o primeiro escritório de advocacia especializado no direito da mulher e estar nas trincheiras com suas pares.
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Já fora do espaço de trabalho, também constrói a cidade através do ritmo do samba, com a escola da qual é presidente, a Príncipes do Samba. Ana é mistura de força e leveza, da luta por igualdade de gênero e do fortalecimento da cultura popular neste território.
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Filha de pais gaúchos que vieram trabalhar em Joinville, como muitos imigrantes, Ana ama a cidade onde nasceu há 44 anos e, de alguma forma, quis fortalecer este espaço. Foi no Direito que, de alguma forma, se encontrou na vida adulta. Mas, nem sempre foi assim. Ela não sonhava em ser advogada, mas sim jornalista. Os ventos, porém, sopraram para outros lados e fizeram a joinvilense se formar em Direito. Assim, ela veio a construir uma carreira que, anos depois, refletiram em um passo importante para a cidade: a construção do primeiro escritório de advocacia especializado no direito da mulher do município.
— Fui a primeira, pioneira. A gente não falava muito sobre isso. A gente já tinha a Lei Maria da Penha, de 2006, já tinha uma caminhada, falava sobre o assunto, mas a gente não tinha especificamente um debate mais acentuado sobre o tema. Os movimentos feministas começaram a surgir nessa terceira onda do feminismo, na qual eu me incluí e que transformou também a minha atuação enquanto profissional — comenta Ana.
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Pós-graduada com especialização em Direito Penal, chegou um momento da carreira que Ana sentiu que precisava mudar. Ela conta que passou por situações que a fizeram se questionar: “eu passaria por isso se fosse um homem? Será que existe um escritório especializado em mulheres no Brasil? Será que alguém já pensou nisso?”. Assim, foi para a internet pesquisar.
Na sua busca por direcionamento, encontrou um escritório em Porto Alegre, por exemplo, até hoje referência.
— Então, eu não estava errada. Existia alguém que já havia pensado que esse lugar deve existir, que ele faz sentido. E aí, eu resolvi migrar aos poucos, eu fui construindo essa transformação e estou aí até hoje — cita.
Desde as desigualdades no ambiente de trabalho até as mais extremas como o feminicídio. As mulheres estão vulneráveis e precisam se fortalecer. É o que acredita a advogada, que trabalha exclusivamente para suas pares, atendendo violências patrimoniais, familiares, psicológicas e físicas.
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Ana, por exemplo, foi a advogada que atuou em defesa de uma mulher que sofreu abuso sexual de um médico dentro do posto de saúde de Joinville. Ele foi condenado e preso no momento em que concorria ao cargo de vereador em um município da Bahia. O crime aconteceu em 2021, ele foi condenado em todas as instâncias e preso em 2025. Ana defendeu a vítima até o final e esteve com ela nas trincheiras.
A joinvilense conta que, por muito tempo, achou difícil valorizar o próprio trabalho, mas hoje consegue enxergar plenamente a importância dele dentro da cidade.
— A gente teve um crescimento da violência e eu acho que cada vez mais tem importância de eu estar trabalhando com isso e das mulheres terem confiança de terem um lugar onde não vou julgar, que vou acolher, vou escutar, que elas vão poder contar tudo. E eu, como sou uma mulher, eu acho que é muito mais fácil eu compreender. Não excluir os homens dessa, porque eu acho que os homens precisam estar nessa luta. Mas, neste momento de dor, ela vai travar se ela não tiver confiança. Então, que bom que eu consegui construir essa confiança — cita.
Vivência no samba
Nem só da advocacia Ana é feita. Há também a mulher que é coberta de um riso leve, trazido pelo contato com a família, o marido, os filhos e os amigos do peito. Essa felicidade simples também é encontrada quando se junta à sua comunidade, na escola Príncipes do Samba.
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Atualmente, Ana é presidente da escola. Neste Carnaval, de 2026, foi campeã do desfile que varreu a Avenida Beira-Rio. Com os olhos brilhando e um sorriso no rosto, Ana conta que esta foi a conquista de toda a comunidade, mas também da família. O esposo fez parte da harmonia e a filha de 13 anos ajudou a construir as fantasias.
A vitória deste ano trouxe à memória uma das vezes mais marcantes em que Ana esteve na avenida. Foi com a filha, hoje com 13 anos. Na época, ela ainda era pequena, uma bebê, que desfilou colada na mãe pelo canguru.
O samba é uma das realizações de Ana, faz parte da família, junta os amigos e traz o sentimento de pertencimento, tão importante na comunidade da qual a joinvilense faz parte.
— Eu percebo que essa comunidade do samba é muito a união familiar. Eu tinha uma dificuldade de ser inserida naquele meio, mas essa presidência me ressignificou demais, estar com eles e fazer parte. De fato, eu já tinha feito parte, mas eu acho que não tinha sido da mesma forma. Também, eu acho que a maturidade me trouxe isso, eu ver minha filha ali ajudando a construir fantasia, o meu marido na harmonia. Isso tudo ressignificou muito esse lugar assim. Pertencimento. É um momento que eu não consigo, até agora, expressar exatamente o que eu sinto — diz, sorrindo.
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Ana continua construindo a cidade todos os dias quando fortalece a cultura popular ao fazer Joinville pular o Carnaval e ao unir a comunidade ou, ainda, quando atua nas trincheiras com outras mulheres. E assim, no seu dia a dia, faz desta uma cidade melhor e mais justa para se viver.




