A logística do garimpo ilegal na Amazônia não se move apenas por rios ou trilhas abertas na mata. Por meio de uma malha aérea invisível aos olhos das autoridades, essa infraestrutura está presente na logística do crime ambiental.
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Ao todo, 2.869 pistas de pouso clandestinas operam hoje no bioma, formando uma rede paralela que viabiliza a extração mineral em locais de difícil acesso. Desse montante, a preocupação maior recai sobre os 804 aeródromos instalados dentro de áreas legalmente protegidas, como Unidades de Conservação e Terras Indígenas.
FOTOS: O crime ambiental em rotas invisíveis na floresta
Essa malha aérea clandestina é o que mantém o fluxo constante de combustível, alimentos e maquinário pesado para os canteiros de exploração. A proximidade estratégica é a marca dessa operação: dados técnicos do MapBiomas mostram que 456 dessas pistas estão a menos de cinco quilômetros de áreas efetivas de garimpo.
O cenário é ainda mais crítico em territórios sensíveis como a Terra Indígena Yanomami, onde cerca de 33,7% das pistas mapeadas estão nessa faixa de proximidade de até cinco quilômetros em relação aos pontos de exploração mineral, o que mostra a dependência da mineração ilegal em relação ao transporte aéreo.
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Geografia do crime e o avanço da logística
A distribuição dessas pistas segue o rastro do ouro e de outros minérios, concentrando-se em estados como Mato Grosso, Pará e Roraima. Em solo paraense, municípios como Itaituba, Altamira, Jacareacanga e São Félix do Xingu consolidaram-se como pontos logísticos centrais da atividade ilegal, onde a aeronave é, muitas vezes, a única forma de acesso a áreas isoladas.
A rapidez com que essa malha se recompõe desafia as ações de repressão; na Amazônia Ocidental, por exemplo, o número de pistas irregulares cresceu 12,68% em apenas um ano, saltando de 749 em 2024 para 844 em 2025.
Barreiras para a retomada do controle territorial
Embora o mapeamento oficial já identifique quase 3 mil pontos, os registros da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) indicam que o universo de aeródromos sem autorização pode ser maior.
O Ministério Público Federal (MPF) aponta que o grande obstáculo para a erradicação dessas pistas é a fragmentação de competências entre órgãos como o Ibama, a Anac e as Forças Armadas. Essa falta de unidade operacional impede que as estruturas sejam inutilizadas de forma definitiva, permitindo que o crime se reorganize em pouco tempo.
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O impacto dessa aviação clandestina vai além do desmatamento e da degradação dos rios. Ela amplia a insegurança para povos indígenas e comunidades ribeirinhas, ao mesmo tempo em que cria uma barreira para a chegada de agentes de saúde e fiscalização.
Enquanto as operações federais de maior impacto permanecem restritas a territórios específicos, como em Roraima, a malha aérea paralela continua ativa sobre a floresta, garantindo a sobrevivência financeira do garimpo ilegal na Amazônia.
*Com edição de Luiz Daudt Junior.









