Encontrar o profissional certo para a vaga de emprego virou um dos maiores desafios do mercado brasileiro atual. Uma pesquisa global divulgada pelo ManpowerGroup revela que 80% dos empregadores no Brasil enfrentam sérias dificuldades para contratar mão de obra qualificada. O número coloca o país bem acima da média mundial de escassez, que hoje gira em torno de 72%.

Continua depois da publicidade

O levantamento, que ouviu quase 40 mil empregadores em 41 países, mostra que o “apagão de talentos” se mantém no topo das preocupações das companhias desde 2022. Essa dificuldade acontece justamente em um momento em que os índices de desocupação do Brasil estão em queda.

FOTOS: Os dados do apagão de talentos no mercado brasileiro

Continua depois da publicidade

A contradição do desemprego

Esse cenário de vagas sobrando chama a atenção porque caminha na contramão de outro dado importante da nossa economia. O Brasil vem registrando taxas historicamente baixas de desemprego, operando na casa dos 5,6%, um dos menores patamares já medidos pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua, do IBGE.

Especialistas explicam que essa aparente contradição revela um problema de ordem estrutural. O mercado nacional está aquecido e abrindo postos de trabalho, mas a qualificação da mão de obra disponível não avançou no mesmo ritmo. Embora existam muitas pessoas empregadas, boa parte está em funções de menor exigência técnica ou na informalidade, deixando um vácuo nos setores que exigem alta especialização e tecnologia.

Continua depois da publicidade

Os setores mais afetados

A escassez de profissionais não atinge o mercado de forma igual. O segmento que mais sofre hoje é o de serviços profissionais, científicos e técnicos, onde 85% dos contratantes relatam entraves para fechar a equipe.

A área de informação e tecnologia aparece logo atrás, com 83% de queixas. Setores tradicionais da economia, como o comércio, a manufatura e a logística também ligaram o sinal de alerta, com 79% das empresas com vagas travadas por falta de pessoal qualificado.

Continua depois da publicidade

As habilidades mais raras

O avanço rápido das ferramentas digitais ajudou a aprofundar esse problema. De acordo com o estudo, as habilidades técnicas mais difíceis de encontrar no mercado nacional estão ligadas ao letramento e desenvolvimento de aplicações de Inteligência Artificial (IA), além de segurança de dados.

Mas o problema vai além do diploma técnico. Os empresários apontam que faltam competências comportamentais básicas nos candidatos que chegam para as entrevistas. Profissionalismo, ética no trabalho, boa comunicação, capacidade de trabalhar em equipe e flexibilidade para aprender são os atributos mais valorizados e, curiosamente, os mais escassos.

Continua depois da publicidade

O tamanho do problema

A pesquisa traz um dado de que quanto maior a empresa, maior é a dor de cabeça para contratar. Nas grandes companhias que têm entre mil e 5 mil funcionários, o índice de dificuldade atinge o pico de 90%. Já entre os pequenos negócios, com menos de dez colaboradores, o indicador cai para 72%.

Estados que concentram grandes polos industriais e de serviços lideram o ranking da escassez. São Paulo aparece no topo da lista com 88% de dificuldade, seguido de perto por Minas Gerais, com 85%, e Rio de Janeiro, com 80%.

Continua depois da publicidade

Como o mercado reage

Para não ficar com as cadeiras vazias e a operação travada, as empresas brasileiras estão sendo obrigadas a mudar a estratégia. Em vez de buscarem o candidato pronto no mercado, 44% dos empregadores decidiram investir em treinamento dentro de casa para capacitar quem já trabalha na empresa, um índice que supera de longe a média global de 27%.

Outras saídas adotadas envolvem oferecer horários mais flexíveis, permitir o trabalho remoto ou híbrido e, em última necessidade, inflar os salários para conseguir atrair os poucos profissionais disputados que estão disponíveis no mercado.

Continua depois da publicidade

*Com edição de Luiz Daudt Junior.