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As controvérsias da Santa Madre Teresa

Religiosa que viveu na Índia e é reconhecida por seu trabalho de cuidado dos miseráveis será canonizada pelo Vaticano

26/12/2015 - 12h02

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Por Redação NSC
(Foto: )

Quando ainda estava viva, a célebre Madre Teresa de Calcutá foi chamada de santa inúmeras vezes por fiéis e admiradores mundo afora. Às vésperas de ganhar oficialmente esse título, porém, multiplicam-se questionamentos a sua biografia marcada pela criação de instituições dedicadas a abrigar pobres e doentes da Índia e de mais de 120 outros países. Livros, documentários e estudos acadêmicos trazem críticas a ações e discursos da religiosa e fomentam um debate sobre o significado de sua canonização.

Madre Teresa será canonizada por cura milagrosa de brasileiro

Na legislação católica, o caminho para a santidade exige o reconhecimento de pelo menos dois milagres pelo Vaticano. A primeira intervenção de Teresa, nascida em 1910 na atual Macedônia sob o nome de Agnes Gonxha Bojaxhiu, teria ocorrido em benefício de uma mulher indiana um ano após a morte da religiosa, em 1998. A segunda teria beneficiado um engenheiro brasileiro que se recuperou após enfrentar oito abscessos no cérebro. Em razão disso, a Santa Sé confirmou na semana passada que a missionária será canonizada.

Mas a inscrição no catálogo dos santos não livrará Teresa de uma série de controvérsias. Entre elas, estão críticas a sua postura conservadora, à cordialidade com ditadores como o haitiano Baby Doc Duvalier, à má qualidade no atendimento prestado nas chamadas "casas de moribundos" e à falta de ações destinadas a emancipar os pobres em vez de apenas dar-lhes comida, teto e colchão. Seus defensores argumentam que, antes de a religiosa dedicar sua vida aos pobres, eles penavam ao relento na periferia miserável das cidades indianas - sem comida, teto ou colchão.

Papa se dispõe a canonizar Madre Teresa de Calcutá

- Não podemos julgar as ações da Madre Teresa com os olhos do Ocidente de hoje. Ela trabalhou em um nível humanitário emergencial adequado às condições que existiam naquele momento - avalia Luiz Carlos Susin, frei, teólogo e professor da PUCRS.

Esse trabalho transformou a futura santa católica em celebridade internacional desde os anos 1960. Em 1969, um documentário realizado pela BBC catapultou sua fama no mundo inteiro - e deu início às polêmicas envolvendo o limite entre mito e verdade.

O apresentador do programa, Malcom Muggeridge, alardeou ter registrado pela primeira vez um milagre em vídeo. Cenas gravadas em um ambiente escuro no interior de uma das casas da Congregação das Missionárias da Caridade apareceram claras e nítidas na sala de edição. "É a luz divina", bradou Muggeridge, e a história ganhou repercussão. Em entrevista ao jornalista britânico Cristopher Hitchens, anos mais tarde, o operador de câmera Ken McMillan revelou que eles haviam apenas testado um novo tipo de película mais sensível à luz.

"Em dois a três dias, saiu da UTI e teve alta", diz testemunha do milagre de Madre Teresa de Calcutá

Hitchens, um dos principais críticos de Teresa, escreveu um livro e produziu um documentário condenando as ações da religiosa. Reproduzia, em parte, as mesmas críticas do escritor indiano Aroup Chatterjee, autor de Madre Teresa: O Veredito Final, que apontava más condições nas casas mantidas pela congregação para receber os carentes, apesar do alto volume de doações arrecadadas, e a utilização da fama obtida à custa dos pobres e doentes para promover uma agenda cristã ultraconservadora ao redor do planeta.

Pelo menos dois estudos acadêmicos confirmaram as condições inadequadas de atendimento nos abrigos: um artigo publicado em 1994 na revista médica Lancet apontou o uso incorreto de medicamentos e a falta de diagnóstico para doenças curáveis. Mais recentemente, em 2013, um estudo publicado por pesquisadores das universidades de Montreal e de Ottawa, no Canadá, analisou 287 documentos. A conclusão foi de que muitos doentes "não recebiam os cuidados necessários".

Teólogos ressaltam valor do trabalho assistencial

O conservadorismo radical e as vinculações políticas da chamada "santa das sarjetas" compõem polêmicas à parte. Em uma conferência em Oxford, em 1988, ela declarou não admitir que uma criança sob seus cuidados fosse adotada por uma mulher que tivesse abortado ou usasse contraceptivos.

- Uma mulher assim é incapaz de amar - afirmou a religiosa.

Para a teóloga, filósofa e freira católica Ivone Gebara, expoente da teologia feminista no Brasil, Madre Teresa não deve ser analisada sob uma única ótica:

- Todo ser humano é marcado por contradições. Teresa teve o mérito de perceber o abandono de pobres e recém-nascidos, mas refletia os interesses do grupo mais conservador dentro da igreja e representava a imagem de mulher obediente e submissa à hierarquia.

Madre Teresa, uma vida a serviço dos pobres

Em termos políticos, seus críticos observam que silenciou sobre violações de direitos humanos e apertou a mão de ditadores cruéis como o haitiano Baby Doc Duvalier. Ela aceitou receber das mãos dele a Medalha da Legião da Honra. O ex-padre, teólogo e professor da PUC de São Paulo Fernando Altemeyer não vê razões para negar um lugar no cânone católico por razões como essas:

- Não dá para catalogar a Madre Teresa como uma revolucionária estrutural ou alguém vinculada a qualquer luta política. Ela está em outro patamar, do humanismo básico. Alguém que está nas últimas não quer revolução, quer alguém que cuide de suas feridas. Era isso que ela fazia, e era um trabalho que eu não conseguiria fazer por mais de cinco minutos.

Principais polêmicas

Condições dos abrigos

- Madre Teresa recebia todos nas casas que mantinha nos cinco continentes: pobres, doentes, órfãos, idosos. Porém, livros como Madre Teresa: O Veredito Final, do autor indiano Aroup Chatterjee, e um estudo publicado em 2013 por professores das universidades de Montreal e Ottawa, no Canadá, sugerem que os pacientes contavam com cuidados médicos inadequados. Os defensores da religiosa argumentam que seus protegidos eram retirados das ruas, onde viviam em condições muito piores.

Conservadorismo religioso

- Madre Teresa foi uma das pontas de lança do conservadorismo cristão entre os anos 1970 e 1990, principalmente durante o papado do também conservador João Paulo II. Para a religiosa, o aborto era a principal "ameaça à paz". Também usava seu prestígio para condenar a contracepção. Para o teólogo Luiz Carlos Susin, a religiosa seguia a linha conservadora oficial do Vaticano.

Relações políticas

- Madre Teresa costumava dizer que não se envolvia em questões políticas. Porém, foi criticada pela proximidade com déspotas e corruptos reconhecidos como o ditador haitiano Baby Doc Duvalier, de quem aceitou uma medalha de Legião da Honra. Na Albânia, depositou flores sobre o túmulo do ditador Enver Hoxha, acusado de diversas violações de direitos humanos.

Origem de doações

- Madre Teresa recebeu milhões de dólares em doações. Mas nem sempre o dinheiro veio de fonte confiável. Um de seus principais benfeitores foi o banqueiro americano Charles Keating - que seria preso como autor de uma das maiores fraudes econômicas dos EUA. Mesmo após as acusações, a religiosa enviou uma carta à corte dos EUA em favor de Keating elogiando sua generosidade.

Um século de história

1910 - Nasce na cidade Skopje, na atual Macedônia, de mãe albanesa e sob o nome de batismo Agnes Gonxha Bojaxhiu.

1928 - Deixa sua casa para ingressar na Congregação das Irmãs de Loreto, na Irlanda. Mais tarde, receberia o nome de Teresa, em referência à Santa Teresa de Lisieux, de quem era devota.

1929 - Chega a Calcutá, na Índia, onde se estabeleceria e passaria a lecionar na Escola Saint Mary, voltada apenas para meninas.

1946 - Em setembro, durante uma viagem de trem de Calcutá para Darjeeling, na Índia, recebe o que ela denominaria de "um chamado dentro do chamado" - um impulso para se dedicar à caridade entre os pobres.

1948 - Passa a vestir o sari branco com detalhes em azul que se tornaria sua vestimenta típica, e visita pela primeira vez as favelas indianas.

1950 - A nova Congregação das Missionárias da Caridade, criada por Madre Teresa, torna-se oficialmente parte da Arquidiocese de Calcutá. Irmãs da congregação seriam enviadas a outras partes da Índia.

1965 - O Papa Paulo VI concede um decreto de aprovação à congregação, que passa a se reportar diretamente ao Vaticano. Isso estimula Madre Teresa a iniciar um processo de expansão que chegaria a mais de cem países.

1979 - Recebe o Prêmio Nobel da Paz por seu trabalho de assistência aos pobres em várias regiões do mundo por meio da congregação. O prêmio de US$ 250 mil, segundo Teresa, foi investido em casas para leprosos e doentes. No mesmo ano, visita Salvador, no Brasil. (foto abaixo)

Foto: Banco de Dados

1982 - Em nova visita ao Brasil, conhece as favelas do Rio de Janeiro.

1997 - Recebe a Medalha de Ouro do Congresso dos Estados Unidos. Nesse momento, sua congregação soma 4 mil religiosas em 610 unidades espalhadas por 123 países. Morre em 5 de setembro, em Calcutá, e recebe funerais com honras de chefe de Estado na Índia.

2003 - É beatificada pelo Papa João Paulo II, de quem era bastante próxima.

2015 - O Vaticano anuncia a canonização de Madre Teresa.

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