Norte, Sul, Leste e Centro. Quase como uma rosa dos ventos, Florianópolis se guia pelas direções. Em uma ilha com 674,8 quilômetros quadrados, que abriga mais de meio milhão de moradores, são muitas as “cidades” dentro de uma só. Cada bairro, cada cantinho da Ilha conta com uma característica própria, um mundo à parte, com seus costumes, tradições, paisagens e estilos de viver. A diversidade que acolhe quem vem de todo canto.

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O Plano Diretor de Urbanismo do Município de Florianópolis, instituído na Lei Complementar Municipal 482/2014, e revisado em maio de 2023, estabelece que a Capital é subdividida de forma administrativa e geográfica em regiões, distritos, bairros e localidades, colocando no papel aquilo que quem vive ou visita a cidade percebe: os microcosmos que compõem a Ilha da Magia.

Para retratar esses diferentes lados de uma única Ilha e celebrar os 353 anos de emancipação política de Florianópolis, nesta segunda-feira (23), a reportagem do NSC Total ouviu histórias de quatro moradores que representam as quatro grandes regiões da Capital catarinense, e como suas vidas refletem esses contrastes.

Vidas que cruzam o espaço

A região central pulsa em movimento, com a Ponte Hercílio Luz e o Mercado Público Municipal entre os principais atores. Construções históricas se misturam ao comércio agitado, às universidades, aos prédios públicos e à Avenida Beira-Mar Norte. Junto ao Continente, os bairros adensados recebem um grande fluxo de pessoas no dia a dia e refletem a vida agitada da Capital.

Filho de Chico Peixeiro, é no boxe 27 do Mercado Público de Florianópolis que Marcelo Jaques dá continuidade ao legado da família na Peixaria Marcelo do Chico. O comércio que começou na década de 1950 viu o local, um dos símbolos da Capital catarinense, passar por transformações e momentos marcantes, enquanto também evoluiu, ainda que mantendo as raízes manezinhas.

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Junto com os irmãos, Marcelo assumiu há cerca de 30 anos o negócio no qual atuava desde cedo. Isso sem deixar de lado o nome e marca do pai, Chico, de quem também herdou o gosto por conversar e brincar com os clientes, além da paixão pelo Avaí, que chama com amor de “maior clube do Sul do país”.

— A gente costuma dizer que o Mercado para nós é a nossa casa, né? Só falta a cama e o fogão. Nós chegamos ali, cinco e meia, seis horas da manhã, e saímos às sete, oito horas da noite — detalha.

Moradores contam histórias e constrastes da Ilha

Já no Sul da Ilha, a vida ainda se preserva em outro ritmo. Com as praias mais preservadas, a natureza parece intocada em alguns locais como a Lagoinha do Leste. No Pântano do Sul e no Campeche a tradição da pesca segue forte, enquanto a maricultura se destaca no Ribeirão da Ilha. 

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De família açoriana, uma das que vieram para o Sul da Ilha de Florianópolis em 1748, Arante José Monteiro Filho, o Arantinho, é filho de Seu Arante, do famoso “bar dos bilhetinhos” no Pântano do Sul. Em funcionamento desde 1958, o Bar do Arante é um dos restaurantes mais tradicionais e conhecidos da Capital.

Na década de 70, o turismo na região era principalmente de acampamento. Muitos estudantes, encantados com a beleza das praias preservadas da região, por ali montavam seus acampamentos, em uma época em que a prática também era autorizada. Os bilhetinhos surgiram então como uma espécie de meio de comunicação, em um período sem telefones:

— Eles vinham acampar e aqui não tinha estrada direito, aqui não tinha telefone. Então eles já sabiam que vinham outras pessoas depois, também procurar por eles, procurar onde eles estavam acampando. Vinha o namorado, vinha a namorada, vinha o pai, vinha a mãe. Então eles queriam fazer um bilhetinho para dizer onde é que estavam acampados, para o meu pai botar na gaveta, porque ia vir alguém depois procurar — explica Arantinho.

O Norte exporta Florianópolis para o mundo. Canasvieiras já se tornou a praia dos argentinos, e atrai cada vez mais chilenos, uruguaios e paraguaios. Jurerê, com o luxo e os beach clubs, proporciona experiências exclusivas. E os Ingleses, que recebem cada vez mais gaúchos, seja para visitar ou morar, já são quase uma cidade à parte.

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O diretor de Turismo da Associação Empresarial de Florianópolis (ACIF), Fabiano Penafort, explica que a força do setor no Norte da Ilha ocorre como um “efeito de osmose” por conta da grande presença de turistas ao longo dos últimos anos, que têm tido experiências positivas na região, e assim atraem ainda mais turistas.

Entre as razões para a grande atividade de turistas estão as praias com mar calmo e mais quente, ideal para o banho de mar e com perfil voltado para as famílias. Ainda, a estrutura de entretenimento e passeios, com forte potencial turístico, e o deslocamento próximo entre várias praias se destacam.

— O Norte se consolida porque os bairros são próximos. Você tá em Canasvieiras, facilmente você tá nos Ingleses. Então acho que isso permeia um pouco essa escolha — pontua.

O Leste, por sua vez, tem sua identidade conectada à preservação ambiental e a vida junto à natureza, muito por conta da relação intensa com a Lagoa da Conceição, um corpo d’água de cerca de 20 quilômetros quadrados. As praias Mole, Barra da Lagoa, Joaquina e Moçambique ainda possuem uma conexão direta com o surfe, sendo esta última Reserva Nacional de Surfe, título que conquistou em 2024.

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Há mais de cinco gerações, a família de Kleber Pinho, presidente da Associação dos Moradores da Lagoa da Conceição (Amolagoa), vive no bairro de raízes açorianas. A relação com o local e com a própria Lagoa se estende ao longo da vida, e se desdobra no trabalho comunitário feito na associação.

O envolvimento no bairro passou pela diretoria de times de futebol e mais tarde por uma década à frente da diretoria de carnaval da União na Ilha. Por sentir falta de estar ativo na comunidade, e por defender a necessidade de conservar as tradições do bairro, ingressou na associação de moradores, a Amolagoa.

— A Lagoa precisa muito que moradores com a cultura tradicional do bairro estejam à frente dos acontecimentos, opinando, mobilizando as pessoas, para que a gente veja a Lagoa efetivamente melhorar na questão ambiental, social, cultural — destaca Kleber.