O preço que você paga no prato de comida e na hora de abastecer o carro no posto tem relação direta com o caminho que esses produtos fazem pelas estradas, trilhos e portos até chegar à sua cidade. Para desvendar esse mapa invisível da economia brasileira, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) reuniu de forma inédita registros de rodovias, ferrovias, portos e dutos no estudo Logística dos Transportes 2024, divulgado na última segunda-feira (13).

Continua depois da publicidade

O levantamento cruza dados de diversos órgãos federais como, como a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), a Agência Nacional de Transportes Aquaviários (ANTAQ), a Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC), o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) e a Empresa de Pesquisa Energética (EPE) para mostrar onde estão os maiores gargalos do país e explicar como a falta de opções de transporte encarece as compras do dia a dia.

Os caminhos do abastecimento nacional

O estudo mostra que o abastecimento do país se concentra em grandes eixos que ligam as áreas de produção aos grandes centros urbanos e aos portos para exportação. No caso dos grãos (como soja e milho) e dos combustíveis, o fluxo corre do Centro-Oeste e do interior do país em direção aos portos de Santos (SP), Paranaguá (PR) e Itaqui (MA).

Continua depois da publicidade

Para o consumo do dia a dia, como comida e produtos industriais, a circulação acontece perto das grandes capitais e regiões metropolitanas. É nesse vai e vem diário que o país se mostra extremamente dependente dos caminhões, que fazem a ligação final de quase tudo o que consumimos.

Santa Catarina no mapa de fluxos de carga

Santa Catarina aparece no estudo do IBGE inserida em corredores logísticos muito relevantes. O estado tem um papel de destaque na circulação de mercadorias da Região Sul por conta de seus portos estratégicos, como Itajaí e Navegantes, e pelo forte movimento de cabotagem, que é o transporte marítimo feito entre os portos da nossa própria costa. A rede rodoviária que liga o território catarinense ao Paraná, Rio Grande do Sul e ao Sudeste também favorece o fluxo de importação e exportação de cargas agrícolas e industriais.

Continua depois da publicidade

Por outro lado, Santa Catarina perde competitividade quando o assunto é infraestrutura terrestre. A malha ferroviária no Sul é pouco densa e pouco integrada em comparação com outras regiões do país. Sem trens estruturados como alternativa para o transporte de longa distância, várias rotas catarinenses dependem quase que exclusivamente de caminhões para ligar a produção ao resto do país, o que aumenta a vulnerabilidade a congestionamentos e encarece bastante o valor do frete. No balanço de “ganha ou perde”, o estado ganha pela força de seus portos, mas perde eficiência pela falta de trilhos para escoar sua produção.

A disputa entre estradas e trilhos

A pesquisa do IBGE deixa claro que o Brasil é um país que roda no asfalto. As estradas são as grandes campeãs de movimento, pois são as únicas com capilaridade para chegar a praticamente qualquer município e entregar mercadorias direto nos supermercados e comércios locais.

Continua depois da publicidade

As ferrovias carregam volumes gigantescos, mas ficam restritas a cargas pesadas como minério de ferro e grãos, correndo apenas em corredores bem específicos controlados por poucas empresas. Já os portos são os gigantes do comércio com outros países e da cabotagem, mas eles não funcionam sozinhos: dependem sempre de trens e caminhões para trazer e levar as mercadorias de dentro do país até a beira da água.

O impacto direto no seu bolso

A forma como essas cargas circulam pelo país ajuda a explicar por que a inflação aperta no supermercado e no posto de gasolina. Quando um caminhão precisa rodar por estradas ruins, o gasto com manutenção aumenta. Se o preço do óleo diesel sobe ou o pedágio fica mais caro, o custo da viagem dispara imediatamente.

Continua depois da publicidade

Como a comida que chega à sua mesa viaja quase sempre de caminhão, qualquer aumento no frete é repassado para o preço da batata, do arroz e da carne. As regiões do país que conseguem combinar o transporte de navio ou trem para as distâncias longas e usar o caminhão só no trecho final conseguem gastar menos com logística e segurar melhor os preços, enquanto quem depende só da estrada fica muito mais exposto a esses aumentos.

*Com edição de Luiz Daudt Junior.