Aline Lustoza entrou na sala de aula com o coração acelerado na primeira vez em que pisou em uma universidade, aos 17 anos, para cursar História, especialmente porque cresceu vendo o ensino superior mais como um sonho distante do que como uma possibilidade concreta. Hoje, aos 38 anos, a moradora de Blumenau soma duas graduações e construiu uma trajetória profissional marcada pela educação e pela Língua Brasileira de Sinais (Libras). Se antes a universidade parecia inacessível, agora faz parte do cotidiano.
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Criada entre Osasco e Barueri, duas cidades da Grande São Paulo, Aline se mudava com frequência conforme o trabalho da mãe, uma professora da rede estadual que chegou a ter dois empregos para sustentar a família. Aos 14 anos, se tornou jovem aprendiz para complementar a renda. Apesar das dificuldades financeiras, ela concluiu o ensino médio em 2004 com o desejo de ingressar no ensino superior, ainda que visse poucas oportunidades para estudantes de escola pública.
— Não existiam tantas políticas afirmativas quanto hoje. Era tudo incerto, então quais seriam as nossas opções, para mim e para os outros estudantes de escola pública e baixa renda? — relembra.
A jovem fez o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e também prestou vestibular para a USP, Unicamp e Unesp, mas, mesmo como aluna estudiosa e dedicada, não passou em nenhum. Foi quando os professores começaram a falar sobre o Programa Universidade Para Todos (ProUni), que exigia um bom desempenho no Enem e permitia a concessão de bolsas de estudos para estudantes de escolas públicas com baixa renda. Aline guarda na memória a incerteza e descrença dos colegas com a iniciativa do governo federal porque era uma novidade e, ao mesmo tempo, uma grande aposta. Sem computador em casa, fez a inscrição para as vagas reservadas às cotas em uma lan house com um sentimento de “vai-que-dá-certo”.
O resultado veio com uma bolsa integral para cursar História no período noturno. Com a euforia de ter conquistado um sonho, veio também um frio na barriga. O curso era noturno em Santo André, no ABC paulista, a cerca de duas horas de viagem e a 80 quilômetros de casa. Mesmo assim, o entusiasmo da garota era indescritível.
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— Eu me senti capaz, sabe? Me senti confiante de ter essa oportunidade e me recordo com muito carinho dessa chance — relata Aline, com nostalgia na voz.
No mesmo ano em que iniciou a graduação, completou 18 anos e foi aprovada em um processo seletivo do IBGE, o que ajudou a custear o transporte e a alimentação. A permanência firme ao longo da universidade só foi possível pelo apoio e convívio com a família, que a permitia voltar para a casa no fim de um dia intenso de estudos e trabalho e se sentir acolhida.
Foi ao longo da trajetória acadêmica que Aline retomou um interesse antigo, a Língua Brasileira de Sinais (Libras), uma paixão descoberta ainda no ensino médio durante a convivência com colegas deficientes auditivos. Já formada, atuou como professora de História em uma escola especializada para surdos, uma experiência que consolidou a escolha profissional. Pouco depois, surgiu a oportunidade de cursar Letras Libras na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Mais uma vez, apostou no “vai-que-dá-certo”.
Desta vez, não pôde concorrer às vagas reservadas para cotas por já possuir um diploma de ensino superior, o que a obrigou a disputar a ampla concorrência. Após ser chamada na segunda lista, a família precisou se reunir e emprestar dinheiro para que ela conseguisse ir até Florianópolis, se matricular e encontrar uma moradia em menos de uma semana. Em 2009, Aline começava um novo capítulo em uma quitinete mobiliada a mais de 600 quilômetros de casa, com o primeiro aluguel pago pelo apoio incondicional da mãe.
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— Se eu não tivesse tido aquela oportunidade pelo Prouni lá em 2005, talvez minha trajetória fosse outra. Talvez eu nem tivesse saído da minha cidade, talvez não tivesse nem me motivado para tentar novamente entrar na universidade pública, que era o meu grande sonho. Às vezes, basta uma oportunidade para mudar um destino — expressa.
Ela reconhece a mãe como uma inspiração por ter se formado em Pedagogia em um tempo em que poucos professores tinham ensino superior. Eurlyne, que hoje é professora aposentada, conseguiu ingressar em um projeto do governo estadual de São Paulo, em parceria com as universidades, para dar formação aos professores em atuação na época com o magistério. Ainda assim, Aline foi a primeira da família a ingressar na universidade por meio de vestibular e pelas políticas públicas de acesso. Essa trajetória também influenciou o irmão mais novo, Jaime, que hoje é formado em Psicologia e atua na área.
— A Lei de Cotas é o mínimo de reparação. É uma migalha de reparação para mais de 300 anos de violência e opressão contra um povo que foi sequestrado de suas terras, ou um povo, no caso dos indígenas, que foi escravizado e tiveram seus territórios invadidos e foram sumariamente assassinados — aponta a historiadora e tradutora.
Ao longo da carreira, Aline atuou como professora e intérprete de Libras em escolas, prefeituras e instituições de ensino superior em Santa Catarina. Atualmente, trabalha como tradutora intérprete na UFSC, campus Blumenau. Aline considera que as políticas afirmativas de acesso ao ensino superior são fundamentais não apenas individualmente, mas socialmente.
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— Como uma pessoa que foi contemplada por essa política, digo que as pessoas que negam a oportunidade de mudança de vida para o outro, além de uma mesquinhez e um egoísmo tremendo, são pessoas que não têm um senso de comunidade. Uma vez que as pessoas estudam, melhoram as suas condições de vida e se afastam da violência. O benefício social, a longo prazo, é inegável — conclui.

