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OS DESAFIOS DO CICLISTA EM SC

Blumenau e o desafio de interligar os trechos existentes de ciclovias  

Ligação entre trajetos e manutenção dos atuais 97 quilômetros de faixas para bicicletas são as principais metas do município e desejos dos ciclistas  

01/12/2018 - 10h37 - Atualizada em: 01/12/2018 - 12h45

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Por Jean Laurindo
(Foto: )

O trecho em que o consultor Carlos Jacques Dressler, 53 anos, passa duas vezes por semana agora tem um espaço seguro para ele fazer uma das coisas que mais gosta: pedalar. Desde setembro, a Rua João Pessoa, no bairro Velha, ganhou uma ciclofaixa em um lugar antes destinado a vagas públicas de estacionamento. A novidade foi bem avaliada pelo ciclista, que antes preferia fazer um percurso maior pela Rua 7 de Setembro a trafegar junto dos carros que passam pela via em velocidade elevada.

– Finalmente fizeram algo que incentiva a gente a andar de bicicleta. Os carros aqui andam rápido, não existe respeito, é arriscado. A gente acaba se arriscando, mas eu não deixaria um filho meu trafegar por aqui sem uma ciclofaixa – conta o ciclista.

A ciclofaixa da Rua João Pessoa foi o trecho mais recente inaugurado pelo município, e já rendeu comentários contra e a favor. Alguns comerciantes questionaram a diminuição de vagas de estacionamento e ciclistas criticam fatos como a ciclofaixa acabar em um meio-fio sem rebaixo, direcionando quem anda de bike para uma calçada sem indicação de uso compartilhado. Dali, só vai haver nova via específica na Rua 7 de Setembro. A prefeitura defende a obra dizendo que ela será ampliada e que o trecho já em uso precisa de ajustes porque foi entregue em tempo curto, para evitar que a lateral da via voltasse a ser usada como estacionamento após a conclusão de uma obra próxima, na Rua Humberto de Campos.

Em Blumenau, a rede cicloviária atual tem 97,2 quilômetros. Dessa extensão, 13,6 quilômetros são de ciclovias – quando há canteiros separando a passagem de bicicletas da pista de carros. Outros 64,2 quilômetros são de ciclofaixas, quando o espaço para as bikes é dividido por objetos como tachões, e outros 19,3 quilômetros têm passeios compartilhados.

O assunto mobilidade para ciclistas foi discutido durante a elaboração do Plano de Mobilidade Urbana, ano passado. No documento, foram estipuladas metas para o avanço de ciclovias e ciclofaixas no município. A intenção mais imediata é alcançar 102,3 quilômetros em 2020 e, em longo prazo, chegar a 155 quilômetros em 2035.

Para o gerente de Projetos Viários da Secretaria de Desenvolvimento Urbano de Blumenau, Paulo Sérgio da Costa, a rede cicloviária atual com 97,2 quilômetros coloca a cidade em uma boa posição no quesito estrutura para ciclistas. Ele cita um levantamento de agosto do portal G1 só com as capitais dos 27 estados brasileiros em que apenas oito cidades apresentaram malha viária superior a Blumenau.

Com isso, o principal desafio da cidade para os próximos anos é quase um consenso entre prefeitura e ciclistas: interligar os trechos de ciclovias e ciclofaixas já existentes. Essa deficiência já identificada há muitos anos é mais nítida em pontos como as ruas Gustavo Zimmermann, Jacob Ineichen, Frederico Jensen, nos bairros Itoupavazinha e Itoupava central, onde há obras paradas de ciclovias que criam trechos com espaço para bicicletas que hoje terminam no meio da rua.

Na eleição municipal de 2016, o tema de vias para os ciclistas não foi muito explorado durante a campanha. No plano de governo da coligação vencedora, de Napoleão Bernardes (PSDB) e do atual prefeito Mario Hildebrandt (PSB), o assunto aparece em seis itens, com propostas amplas como “melhorar, implantar e interligar calçadas e ciclovias” e “incentivar o uso da bicicleta por meio da continuidade de programas de implantação de ciclovias no município”. Nesse sentido, entre os próximos trechos que podem receber ciclovias ou ciclofaixas estão a Rua Benjamin Constant, República Argentina (já em execução) e a continuação da Rua João Pessoa.

Foco em manutenção do que já existe

Para as novas ciclovias foi criado um padrão em um decreto municipal publicado em 2015. É nele que estão padrões como a largura de 2,20 metros para ciclovias bidirecionais e outros critérios para padronizar as novas construções. A ciclovia da Alameda Rio Branco e a ciclofaixa da Rua Nereu Ramos, as obras mais recentes e consideradas modelo na cidade, já foram construídas dessa forma.

No entanto, outro avanço importante apontado pelo município seria a manutenção dos trechos atuais. Isso porque no Plano de Mobilidade, a avaliação das ciclovias e ciclofaixas já existentes teve nota considerada baixa, 4,49. Os principais problemas foram falta de sinalização em alguns pontos, pintura e buracos que surgem com o tempo. A intenção do município é investir mais em manutenção e levar essa avaliação de qualidade a 6,0 em 2035.

– Um dos nossos focos do ano que vem deve ser fazer projetos para requalificar o que a gente tem. Essa demanda de corrigir os problemas, até para gerar uma segurança maior. A gente pensa muito em avançar números, números, números, e acaba deixando o que tem para trás. Pelo número a gente tem bastante em comparação com as outras. A manutenção básica é feita, mas tem situações que aparecem – avalia o gerente de Projetos Viários.

Ciclistas apontam pontos onde seria preciso melhorar

Quem trafega de bicicleta na cidade, porém, considera que a cidade ainda tem muito a melhorar. O coordenador-geral da Associação Blumenauense Pró-Ciclovias (ABC Ciclovias), Giovani Seibel, admite que mais ciclovias e ciclofaixas estão sendo feitas, mas confirma que faltam interligações entre elas. Ele sugere que as ciclovias sejam pensadas para ligar lugares importantes da cidade e não tenham o trajeto dos ciclistas interrompido no caminho pela falta de espaço exclusivo.

Outra crítica é sobre os chamados passeios compartilhados. Onde não há espaço, em ruas como a 7 de Setembro e a Avenida Beira-Rio, a opção é por unir pedestres e ciclistas na calçada, separando ambos por marcações no pavimento. A própria prefeitura admite que não é a melhor solução e que só decide por isso nas vias em que há dificuldade de espaço para reservar uma pista apenas para as bikes.

– É a pior de todas (as alternativas). Muitas vezes a calçada não comporta nem a quantidade de pedestres no horário de pico. Assim leva mais tempo para fazer o trajeto. Se fizer na pista, é mais rápido, mas fica mais perigoso. Quem está usando a bicicleta está indo para trabalho ou para a escola e precisa se deslocar com rapidez – cobra Seibel.

O coordenador cita ainda o caso das ciclovias da região da Itoupava Central e Itoupavazinha, que estão paradas há mais de um ano. Ele defende que na região muita gente usa a bicicleta para ir ao trabalho ou levar os filhos à escola e que a ciclovia faz muita falta. A prefeitura alega que a empresa vencedora da licitação teve dificuldades financeiras, mas que o caso está solucionado e que agora aguarda apenas a aprovação da Caixa Econômica Federal de alterações do projeto em razão de mudanças que ocorreram na região nesse período de obra parada para enfim retomar os trabalhos.

O prolongamento da Rua Humberto de Campos, recém-inaugurado, também está passando por melhorias no trecho destinado aos ciclistas. Para Seibel, essas situações reforçam a necessidade de cobrança de mais qualidade nas obras feitas para o tráfego de bicicletas.

– Nas reuniões que participamos sempre digo: vocês estão fazendo essa obra para ônibus, carros, bicicleta e pedestre. Levem a obra toda na mesma linha. A hora que inaugurar, inaugura para todos. Ok, hoje temos mais ciclovias, mas queremos algo com qualidade porque para o carro é sempre feito com qualidade – defende.

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Dados de atropelamento de ciclistas na cidade

O ano de 2018 ainda não registrou mortes de ciclistas no trânsito urbano de Blumenau. O número de feridos e acidentes está abaixo dos últimos quatro anos, embora considere apenas dados até outubro.

Ano Mortes Feridos Acidentes com ciclistas

2015 1 41 54

2016 2 51 65

2017 2 48 61

2018* 0 37 53

* Até outubro

Modelos de deslocamento em Blumenau

Deslocamentos por transporte individual motorizado: 58%

Deslocamento por transporte coletivo: 20,7%

Deslocamento a pé: 19,1%

Deslocamento por bicicleta: 2%

Evolução da rede cicloviária de Blumenau

2010: 46,9 km

2011: 55,3 km

2012: 60,8 km

2013: 70,8 km

2015: 76,0 km

2016: 81,7 km

2018: 97,2 km

(Sendo 13,6 km de ciclovias, 64,2 km de ciclofaixas e 19,3 km de passeios compartilhados)

Metas*:

2020: 102,3 km (66% de abrangência)

2025: 131,7 km (85% de abrangência)

2035: 155 km (100% de abrangência)

* Incluídas no Plano de Mobilidade Urbana do município

Fonte: Secretaria de Desenvolvimento Urbano de Blumenau

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