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OS DESAFIOS DO CICLISTA EM SC

Com infraestrutura precária, bicicletas seguem à margem da mobilidade urbana no Brasil

Ausência de ciclovias e bicicletários públicos dificulta a rotina de quem opta por utilizá-la como meio de transporte

01/12/2018 - 10h05 - Atualizada em: 01/12/2018 - 12h41

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Larissa
Por Larissa Neumann
Diário Catarinense
Ciclistas disputam espaço com veículos nas ruas e rodovias por falta de espaço próprio
(Foto: )

Pedalar no Brasil é difícil. O desafio não está somente no condicionamento e destreza que a bicicleta exige. A complexidade mora no pouco investimento e manutenção de ciclovias. A falta de segurança é outro motivo de desistência para aqueles que, por lazer ou necessidade, escolhem a “magrela” como meio de transporte.

O comprometimento do poder público em dar as mínimas condições para que o ciclismo evolua é ínfimo. Dados do IBGE coletados ano passado são a prova disso. Apenas 14 em cada 100 municípios no país possuem ciclovias. A parcela de cidades que oferecem bicicletários públicos é mais insignificante: cinco em cada 100.

Em território nacional, São Paulo (capital) ainda desponta como referência no incentivo do uso de bicicletas. Calcula-se que os paulistanos têm à disposição 498,3 quilômetros de malha cicloviária, a mais extensa entre as outras 25 capitais e o Distrito Federal. É pouco se comparado aos 35 mil quilômetros de malha viária pavimentada na cidade.

Mesmo com o avanço nos grandes centros, a aplicação de recursos se mostra irrelevante se comparada com as cidades onde o uso da bicicleta é tratado como prioridade. Em Copenhague, capital da Dinamarca, por exemplo, estudos mostram que na última década, 134 milhões de euros – o equivalente a R$ 586,9 milhões – foram destinados à construção de instalações para bicicletas e melhorias na infraestrutura. Já no Brasil, especialistas têm dificuldade até de quantificar tudo o que falta.

— Se você pegar o que foi investido historicamente em infraestrutura para automóvel e comparar isso com infraestrutura de bicicletas, você não consegue nem chegar nessa comparação. Qualquer discurso como falta de recursos é balela, já que a infraestrutura destinada a bicicletas é muito barata e beneficia mais gente — analisa Daniel Guth, mestrando em Urbanismo e consultor em políticas de mobilidade urbana.

Em quatro anos, 96 ciclistas morreram

Florianópolis está entre as capitais que conseguiram ampliar a oferta de espaços para quem pedala e ainda planeja novas intervenções – a proposta é passar de 96,2 quilômetros de ciclovias para 158,6 até o fim deste mandato. No entanto, o Estado ainda esbarra na qualidade e manutenção das estruturas já existentes.

— Não é só construir ciclovias, é criar estruturas cicloviárias seguras e adequadas. É pensar além dos tachões e da largura, na drenagem, iluminação e arborização. Pensar no conforto térmico de quem está usando a bicicleta — alerta Fabiano Faga Pacheco, representante da Associação Mobilidade por Bicicleta e Modos Sustentáveis (Amobici).

Assim como as vias em perímetro urbano, as rodovias federais e estaduais de Santa Catarina também são figurantes no rol de prioridades quando o assunto é ciclismo. Não se sabe nem qual é o total de malha cicloviária nas BRs e SCs. Questionado pela reportagem, o Departamento de Infraestrutura (Deinfra-SC) informou que não dispõe desses dados.

O reflexo da falta de estrutura específica e de segurança nos acostamentos é visto nos atendimentos das Polícias Rodoviária Federal (PRF) e Polícia Militar Rodoviária (PMRv). Ao longo dos últimos quatro anos foram registrados 1.432 acidentes envolvendo bicicletas nas rodovias do Estado. Nessas ocorrências 1,2 mil ciclistas ficaram feridos e 96 vidas foram perdidas.

– O que falta hoje é uma parceria, um convênio nas rodovias que passam nas áreas urbanas. Hoje as pessoas moram às margens das rodovias. Se investir em um convênio, todos ganham – sugere Fábio Campos da Silva, coordenador estadual do Movimento Maio Amarelo e especialista em transporte.

Percebe-se que o sistema cicloviário não só de Santa Catarina, mas dos outros Estados da federação já conseguiu transpor a mais difícil das barreiras: a falta de vontade dos gestores. Agora é preciso seguir com foco em fazer da gestão desse sistema cicloviário uma prioridade. As diretrizes poderiam buscar responder qual é a cidade que queremos para o futuro. Uma cidade que vai privilegiar a mobilidade? Ou uma cidade paralisada pelo caos do trânsito e pela insegurança?

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