Os dados da Secretaria de Estado da Segurança Pública revelam algo histórico para Blumenau. A cidade com a terceira maior população de Santa Catarina não registrou nenhum feminicídio ao longo de 2025. É a primeira vez que isso acontece na última década e, inclusive, traz uma coincidência: ocorreu justamente quando a Lei do Feminicídio completou 10 anos de criação.
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Conforme a Polícia Militar de Blumenau (10º BPM), o último feminicídio registrado na cidade foi em setembro de 2024. De lá para cá, já são 15 meses consecutivos sem o assassinato de uma mulher por questões de gênero. Até 2015, esses casos eram considerados homicídios como quaisquer outros, sem penas diferentes. Hoje, esse é o crime com a pena mais alta prevista no Brasil, de até 40 anos de prisão.
Para o comandante do 10º BPM, o tenente-coronel Heintje Heerdt, zerar o indicador representa, sim, uma vitória e reflete o sucesso das estratégias traçadas pela corporação após um 2024 violento.
— Em 2024, dos 16 homicídios que tivemos, quatro foram feminicídios. Ou seja, 25%. E temos uma tendência de alta nos casos de violência contra a mulher, por isso tínhamos essa preocupação. Vimos que ao longo dos meses esses crimes não foram ocorrendo e traçamos uma estratégia para o fim do ano, quando os feminicídios ficam mais comuns com as festas, bebidas, brigas — diz.
A Polícia Militar, através da Rede Catarina, fiscaliza, atualmente, o cumprimento de aproximadamente 1,7 mil medidas protetivas só em Blumenau. A maioria dessas mulheres tem instalado no celular o chamado Botão do Pânico. É um dispositivo para casos de emergência, quando o agressor tenta se aproximar. Ao longo do ano passado, esse serviço foi acionado 90 vezes, conta a soldado Fernanda Almeida.
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Na linha de frente do trabalho de proteção contra a violência doméstica, a militar relembra que, em um desses casos, a mulher só não morreu graças à ação rápida da PM. Luiza*, a vítima, concorda. Após uma relação de mais de sete anos, marcada por altos e baixos, idas e vindas, ela se viu encharcada de gasolina pelo ex-companheiro que não aceitava o fim da relação.
— Quando vi, ele na porta do meu trabalho, um posto de combustíveis, imediatamente apertei o botão do pânico. Foi tudo muito rápido. Ele jogou o líquido em mim e colocou a mão no bolso para pegar o fósforo. Eu corri e ele me agarrou, me sufocou e tentou acender o fogo. A polícia chegou muito rápido. Só por isso estou viva aqui hoje — conta a mulher de 34 anos, cujo nome real não será revelado pela reportagem.

É preciso pedir ajuda
A PM revela um aumento de 28% no número de medidas protetivas em 2025 se comparado com o ano anterior. Fernanda analisa que esse aumento reflete a busca maior de mulheres pelos seus direitos e proteção. Em 2024, exemplifica ela, nenhuma das vítimas de feminicídio em Blumenau tinha registro de boletim de ocorrência contra o agressor, quem dirá uma ordem de restrição para o homem.
— Elas vinham suportando um histórico de violência, acreditando em uma mudança de comportamento do companheiro e vivendo esse ciclo, até que… — comenta a soldado.
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No começo deste ano, o sumiço proposital de uma jovem grávida em Blumenau chamou a atenção. Quando a polícia conseguiu descobrir o paradeiro dela, soube que ela precisou desaparecer para não ser morta pelo companheiro. A história trouxe à tona a importância de uma rede de apoio, com órgãos como Procuradoria da Mulher da Câmara de Vereadores, OAB Por Elas, polícias e Judiciário.
A cidade, inclusive, é um das 11 em Santa Catarina que têm abrigo para receber mulheres e seus filhos.
A luta contra o feminicídio não acabou
Ainda assim, a violência doméstica desafia as autoridades por se tratar de questões culturais e por ocorrer dentro de quatro paredes, difícil de intervir sem uma denúncia. Por isso, apesar de um ano sem feminicídios em Blumenau ser considerado uma vitória pela PM, sabe-se que ainda há muito a ser combatido. E estar atento aos sinais de uma relação tóxica é o primeiro passo
— Busque ajuda antes da agressão física, para evitar que se chegue a essa situação — frisa Fernanda.
E como será 2026? Essa é uma preocupação do comandante da PM de Blumenau, e ele explica os motivos:
— O número de feriados alto neste ano é algo que nos preocupa, porque esse é um tipo de violência muito atrelado ao consumo de álcool e entorpecentes, e ao confinamento. A maior parte dos nossos casos de violência doméstica é na sexta-feira e no sábado à noite e domingo após o meio-dia, quando ocorre mais consumo de bebidas alcoólicas — pontua o tenente-coronel.
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Quantos feminicídios Blumenau registrou por ano na última década
- 2015 – 2 (neste ano entrou em vigor a Lei do Feminicídio)
- 2016 – 3
- 2017 – 3
- 20218 – 1
- 2019 – 4
- 2020 – 3
- 2021 – 1
- 2022 – 2
- 2023 – 1
- 2024 – 4
- 2025 – 0

