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Governo em crise

Bolsonaro ataca Moro, nega interferência na PF e diz que ex-ministro cobrou vaga no STF

Presidente respondeu acusações feitas pelo ex-juiz federal ao deixar o Ministério da Justiça

24/04/2020 - 16h52 - Atualizada em: 26/04/2020 - 10h46

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Jean
Por Jean Laurindo
Bolsonaro respondeu acusações de Moro em pronunciamento no fim da tarde desta sexta-feira
Bolsonaro respondeu acusações de Moro em pronunciamento no fim da tarde desta sexta-feira
(Foto: )

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) rebateu as acusações feitas pelo agora ex-ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro, que deixou o cargo na manhã desta sexta-feira (24) com críticas ao presidente. Bolsonaro ainda negou interferência e investigações e foi ao ataque contra o ex-juiz federal.

Bolsonaro criticou Moro por, segundo ele, não investigar casos relacionados ao presidente, como a facada que ele sofreu em 6 de setembro de 2018, em Juiz de Fora (MG), e o episódio da portaria do Condomínio Vivendas da Barra, onde os suspeitos de matar a ex-vereadora do Rio de Janeiro, Marielle Franco, foram antes do crime.

- Será que é interferir quase que implorar Moro que apure quem mandou matar Jair Bolsonaro? A Polícia Federal do Rio de Janeiro mais se preocupou com Marielle do que com seu chefe supremo. Cobrei muito deles, não interferi - apontou Bolsonaro.

A investigação sobre o caso Marielle, no entanto, ocorre no âmbito do Ministério Público do Rio de Janeiro, e não da Polícia Federal.

O presidente negou interferências em investigações, mas sustentou que caberia a ele a prerrogativa de nomear o diretor-geral da PF.

- Falava-se em interferência minha na Polícia Federal. Oras bolas, se posso trocar um ministro, por que não posso, de acordo com a lei, trocar o diretor da PF? Não tenho que pedir autorização a ninguém para trocar diretor ou qualquer outro que esteja na pirâmide hierárquica do poder executivo - desafiou Bolsonaro.

O presidente disse que Moro escolheu toda a equipe em 2018, e que estranhou o fato de diretores da PF e da PRF terem vindo de Curitiba, onde o ex-juiz federal atuava. No entanto, disse que na ocasião resolveu "dar um crédito" a Moro.

Ele disse que se reuniu com Moro nesta quinta-feira e disse que era preciso "colocar um ponto final" na atual gestão da Polícia Federal. Segundo Bolsonaro, o então diretor-geral Maurício Valeixo já teria dito estar cansado e que pensava em deixar o cargo.

"Por que tem que ser o seu, e não o meu?"

Segundo Bolsonaro, nessa conversa, Moro teria relutado com a troca no comando sugerida por Bolsonaro, e dito que o nome do novo diretor-geral teria que ser indicado por ele.

- Falei: vamos conversar. Por que tem que ser o seu, e não o meu? Ou então, vamos pegar, já que não tem interferência, pegar os que têm condições e fazer um sorteio. Por que tem que ser o dele, ou o meu, ou um de consenso? Lembrei da lei de 2014, que diz que a indicação é prerrogativa minha. E o dia que eu tiver que me submeter a qualquer subordinado meu, eu deixo de ser presidente. Jamais vou pecar por omissão. Falei que quero um delegado que eu possa interagir com ele. Por que não? - insistiu Bolsonaro.

O presidente disse que Moro seria a pessoa que "realmente não quer me ver na cadeira presidencial" e chegou a desafiar o ministro a ter sido candidato a presidente em 2018.

- Fica difícil a convivência com a pessoa que pensa bastante diferente de você - afirmou.

Bolsonaro chegou a acusar Moro de que teria consentido com a troca de Valeixo no comando da PF, desde que ela ocorresse em novembro, mediante a indicação de Moro para uma vaga no Supremo Tribunal Federal (STF).

- Me desculpe, mas não é por aí. Reconheço suas qualidades, chegando lá, se um dia chegar, pode fazer um bom trabalho. Mas não troco (uma coisa por outra). Outra coisa: é desmoralizante para um presidente ouvir, mais ainda, externar, ou não trocar, porque não foi trocado - acusou.

A indicação de Moro ao STF era especulada desde o convite feito ao ex-juiz federal para integrar o governo, mas foi negada por Moro nesta sexta. Segundo o ex-ministro, o único pedido feito por ele para assumir o cargo seria uma pensão para a família "caso algo lhe acontecesse".

Pelo Twitter, após a fala de Bolsonaro, Moro voltou a negar que a indicação ao STF teria sido cobrada para permitir a troca no comando da PF.

Bolsonaro nega querer saber sobre investigações

No fim do pronunciamento, Bolsonaro leu uma carta em que se disse decepcionado e surpreso pelo comportamento de Sergio Moro, que comunicou a decisão de deixar o governo em um comunicado à imprensa.

- Não são verdadeiras as insinuações de que eu desejaria saber sobre investigações em andamento - afirmou.

Sobre a exoneração de Valeixo, Bolsonaro disse que conversou com o diretor-geral na noite de quinta-feira, e ele teria concordado com a demissão.

Bolsonaro falou também sobre temas dispersos

Em tom sentimental, Bolsonaro lembrou que no primeiro contato com Moro, em 2017, o então juiz federal não teria lhe dado muita atenção, o que o deixou triste: "fiquei triste, era um ídolo para mim".

Durante o discurso, Bolsonaro divagou sobre outros temas não relacionados à saída de Moro. Falou sobre benesses do cargo da qual teria aberto mão, como um terceiro cartão corporativo e um aquecedor de piscina na residência oficial e sobre uma "implosão" ao Inmetro que teria feito após um projeto de instalação de chips em bombas nos postos de gasolina.

Frases

Nunca pedi a ele (Moro) para que a Polícia Federal me blindasse onde quer que fosse".
É um ministro com visão desarmamentista, (com) dificuldades enormes com decretos para facilitar, para aqueles que têm uma arma, a compra de armamento e munição".
Nunca pedi para ele andamento de qualquer processo. Até porque a inteligência com ele perdeu espaço na Justiça. (Tinha de ficar) quase que implorando informações. E assim, eu sempre cobrei informações dos demais órgãos de inteligência oficiais do governo, como a Abin".
Tenho que ter um relatório do que aconteceu nas últimas 24 horas para poder definir o andamento desta nação".

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