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    BR-470 chega a 61 mortes no trecho do Vale, expõe dramas familiares e recoloca à tona os riscos na rodovia

    Número de mortes entre Pouso Redondo e Navegantes é 33% maior em comparação ao mesmo período do ano passado

    31/07/2018 - 05h07 - Atualizada em: 31/07/2018 - 05h08

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    Por Redação NSC
    Acidente em maio resultou na morte de uma pessoa em Agronômica, no Alto Vale.
    Acidente em maio resultou na morte de uma pessoa em Agronômica, no Alto Vale.
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    As bicicletas e peças ainda estão estacionadas pela casa. As medalhas, guardadas com carinho no quarto dos filhos. Desde que o pai, o representante comercial Everaldo Batista, o Xinéca, 57 anos, morreu em um acidente na BR-470, as bikes e as premiações das provas de triatlo disputadas em todo o Estado viraram pedacinhos de lembrança conservados pela casa.

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    A esposa Fernanda Stofella Batista, os dois filhos mais velhos, de 13 e 10 anos, e o mais novo, um bebê de quase 1 ano, ainda lutam para superar a ausência do pai, apaixonado por esportes e conhecido em todo o Estado pelas competições – ele presidia uma associação de atletas da modalidade em Brusque.

    O acidente que tirou a vida de Xinéca ocorreu na manhã de 3 de abril, no Km 78 da BR-470, em Indaial. A família ainda não conhece ao certo as circunstâncias, mas a principal suspeita é de que o carro que ele dirigia, uma caminhonete Santa Fe, tenha se chocado com uma árvore após tentar desviar de uma colisão com um caminhão.

    Objetos de triatlo são lembranças de Everaldo Batista, morador de Brusque que morreu em abril.
    Objetos de triatlo são lembranças de Everaldo Batista, morador de Brusque que morreu em abril.
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    Everaldo foi a 37a vítima fatal deste ano na BR-470, em abril, no trecho entre Navegantes e Pouso Redondo, onde desde 2000 o Santa contabiliza os acidentes com óbito. Nesta semana, este trecho da rodovia registrou a 60a morte no ano. O último acidente fatal foi na madrugada de ontem, no Km 63, em Indaial. Um homem de 28 anos morreu após a caminhonete S-10 que ele dirigia bater em uma árvore e pegar fogo. Ele ficou preso às ferragens e teve o corpo carbonizado.

    As 60 mortes registradas este ano representam uma alta de 33% em comparação com o mesmo período do ano passado. Até o final de julho de 2017 houve 45 mortes. Foram os sete primeiros meses do ano mais sangrentos na rodovia desde 2014, quando 74 pessoas perderam a vida na BR-470 no Vale. O número registrado até esta segunda-feira equivale a uma morte a cada três dias e meio.

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    Desde 2000, o trecho entre Navegantes e Pouso Redondo já registrou 1.909 vítimas nesses 17 anos e meio. Os números do Santa contam também pessoas que morrem em hospitais após os acidentes, enquanto o levantamento da PRF contabiliza as vítimas que perdem a vida já no local da ocorrência.

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    Everaldo estava a caminho de uma visita de trabalho quando sofreu o acidente fatal. Os planos de viagem com a família no meio do ano e os esperados churrascos de fim de semana foram abreviados, como tantos outros objetivos das 60 vidas perdidas na rodovia este ano. Nesses quase quatro meses, a vida da família de Xinéca tem se resumido a um dia de cada vez.

    – A gente fica sem chão, a vida virou de cabeça para baixo. As crianças estão reagindo bem, amadureceram bastante. Mas é complicado. A cada dia o bebê faz uma coisinha nova. Começa a sentar, bater palminha, e os meninos sempre dizem: "E o pai não está aqui para ver isso, né mãe?".

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    Quando ouve o relato de um novo acidente na BR-470, a sensação de Fernanda é sempre negativa.

    – Passa um filme na cabeça. Penso que mais uma família vai passar pelo que passei, e que não queria que ninguém passasse porque foi bem difícil – conta Fernanda, que diz ter cada vez menos esperança de que a BR-470 se torne uma rodovia mais segura.

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    Dramas vividos também no Alto Vale do Itajaí

    Luís João Stolf foi a segunda vítima fatal deste ano, ainda em 12 de janeiro. Morava em Rio do Sul e usava a BR-470 pelo menos uma vez por mês para ir visitar amigos na região de Otacílio Costa e Lages. No dia 12 de janeiro, uma sexta-feira, partiu com um colega para mais um desses passeios, mas teve o trajeto interrompido.

    Chovia muito. Na altura do Km 169, em Pouso Redondo, a pista estava no sistema "Pare/siga" por causa da queda de uma árvore. Um caminhão que seguia no sentido oposto não conseguiu frear a tempo, acabou perdendo o controle e invadindo a pista contrária. Os dois veículos se chocaram de frente e o impacto fez o carro em que Luís e o amigo seguiam rolar por um barranco ao lado da rodovia. Luís morreu na hora.

    O caso de Luís é mais um exemplo em que esses acidentes deixam um espaço só preenchido pela saudade. A filha Ceres Stolf era uma das companhias mais próximas. Morava em frente à casa do pai e sempre tinha sua companhia na loja que ela administra.

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    – Ele vivia aqui na loja, sempre me ajudava, estava comigo. Está sendo bem difícil, ele faz muita falta.

    A ausência que Ceres sente há quatro meses é semelhante à que Rodolfo passou a vivenciar desde março. A companheira dele, Daiane dos Santos, 30 anos, foi a 34a pessoa a morrer em um acidente no trecho do Vale do Itajaí da BR-470, em março deste ano. Conheceram-se em uma festa de rei e rainha em um clube de caça e tiro e estavam juntos há 12 anos.

    Desde janeiro, ela trabalhava no controle de qualidade de uma empresa têxtil. Em uma ida a uma confecção, o automóvel Gol que ela dirigia foi atingido por um caminhão em uma serra de Ibirama. Daiane também morreu na hora.

    A casa em que ela morava com o companheiro permanece fechada. Na casa ao lado, a mãe Avanir dos Santos conserva cuida da cachorrinha e dos passarinhos a quem Daiane dava carinho todos os dias. Ainda hoje ela torce para que os motoristas façam a rodovia mais segura para que dramas como o dela não se repitam:

    – Naquele dia, estava trabalhando, costuras estopas e arrumei tudo para encerrar. Quando fui começar a fazer o almoço, tocou o telefone e infelizmente veio a notícia de que a Daiane tinha batido o carro e morrido. Desde ali não sei mais porque tudo parou. Não consegui fazer mais nada, nem trabalhar. Ela estava tão feliz no novo emprego. Será que era para ser o fim dela, assim? Não sei.

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