Brechós de luxo em Blumenau vivem boom com mercado milionário e sofisticado

Reportagem conta a história de quatro mulheres que se jogaram de cabeça nesse universo e hoje têm como principal fonte de renda a venda de peças antes vistas como de segunda mão

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(Fotos: Patrick Rodrigues, Santa)

Advogada por formação, a blumenauense Eduarda Fonseca Coelho decidiu trocar o escritório pelo universo da moda. E ela entrou direto em um segmento que ganha cada vez mais adeptas: o de brechós. Se muita gente já torceu o nariz para peças de “segunda mão”, é bom saber que os tempos são outros e esse mercado reserva, sim, muito luxo.

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Nas prateleiras da sala antes destinada à advocacia, a empreendedora de 26 anos tem bolsas, sapatos e óculos de grifes importadas e com pouco tempo — ou quase nada — de uso. Quando o negócio começou, em 2019, era apenas para faturar um dinheiro extra com as peças paradas no guarda-roupas, mas quando se deu conta estava vendendo os itens das amigas também.

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Hoje, Eduarda recebe mercadorias de mulheres do Brasil inteiro e ganha um percentual ao efetivar a venda. Ela conta que via de regra os produtos comercializados no DesapeFashion são 50% mais baratos do que na loja da marca, mas o percentual pode variar conforme o estado e a exclusividade da peça. Tudo tem garantia de originalidade e nota fiscal.

— Já se desmistificou muito o termo brechó, coisa antiga. Tanto é que tudo aqui é muito novinho e bem cuidado — frisa a empreendedora.

A bolsa Prada que a jovem mostra custa no site da fabricante R$ 16 mil. Foi comprada por alguém que rapidamente deixou de curtir a peça luxuosa e agora o item está à venda por R$ 12,5 mil. E quem compra? O perfil indica mulheres a partir dos 25 anos que estão se autopresenteando. A metade das clientes é de Blumenau e as demais, de fora. Quem compra no brechó pode até parcelar.

O negócio deu tão certo que ganhou CNPJ, funcionárias com carteira assinada e agora Eduarda vai dar o próximo passo: abrir um e-commerce. Não à toa, dados do Sebrae indicam que pequenos negócios como o de Eduarda concentraram quase 80% dos empregos formais gerados no Brasil em 2022.

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Efeito pandemia

Tice Grotmann entrou no universo dos brechós de luxo no meio da pandemia de Covid-19, justamente quando houve o boom do segmento. A abertura de estabelecimentos que comercializam produtos de segunda mão cresceu 48,6% no Brasil, entre os primeiros semestres de 2020 e 2021, conforme levantamento feito a partir de dados da Receita Federal.

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Com muitas parcerias de lojas de roupas, a influenciadora digital acumulava bastante coisa. Aí resolveu fazer uma renda extra com a venda das peças. Viu no isolamento social e no período de lojas fechadas uma oportunidade no universo on-line. Ao mesmo tempo, quem estava do outro lado da tela do celular encontrou um jeito de continuar comprando sem pagar tanto.

Parecia via de mão única — da vendedora à cliente —, mas não demorou para que as próprias consumidoras do Direto do Cabide pedissem para colocar itens que tinham guardado no armário de casa para vender com Tice. A parceria deu certo. Ela ganha um percentual sobre as negociações e atualmente a venda de bolsas, óculos e relógios representa metade da renda da empreendedora.

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Resultado? O negócio cresceu 30% no último ano.

— Foi tudo muito orgânico e rápido — afirma.

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O segredo para o sucesso do ponto de vista financeiro está ancorado na garantia da qualidade das peças e no preço 60% abaixo do praticado na loja. Mas Tice destaca outro aspecto: está feliz também pela conscientização do público para a moda sustentável e sem tabus.

Essa abertura das clientes confirma a informação do Sebrae de que os brechós são tendência mundial e que o mercado de usados ainda tem espaço para crescer. A empresa thredUP, de moda on-line, com sede nos Estados Unidos, estima que o mercado global de roupas usadas deve chegar perto de 80 bilhões de dólares em 2025.

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Crescimento de 1.000%

Amigas há décadas, Daniela Testoni e Carla Falchetti começaram no mercado de brechós quase sem querer. A princípio foi uma troca de peças entre amigas, em casa mesmo. Passados três anos do que era “só” uma brincadeira, elas viram o negócio crescer 1.000% e sair de uma sala de 45 metros quadrados para um andar inteiro de um prédio em umas das principais ruas de Blumenau, a Antônio da Veiga.

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Elas não abrem os números de faturamento, mas deixam claro que o desempenho tem sido bem satisfatório. Isso fica claro nos fatos: antes do primeiro ano de Guarda Roupa Brechó, já tinham deixado os empregos de bancária e gerente imobiliária para mergulhar no mundo da moda circular. Hoje são cerca de 1,6 mil fornecedoras para colocar à venda desde peças lojas de departamento até alta costura.

— A gente trabalha com peças de loja de departamento a alta costura. Temos Gucci, Prada, Renner, Hering, Zara. O principal é que estejam em perfeito estado de conservação — conta Daniela.

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Quão barato um item é depende do estado e da qualidade do produto. Mas uma peça nova, com etiqueta, por exemplo, custa cerca de 30% a menos do que na loja original. Quem escolhe comprar com elas costuma gastar, em média, pelo menos R$ 350. O público, conta a empreendedora, é de mulheres entre 25 e 50 anos e 60% das vendas é online.

As redes sociais se tornaram propulsoras do negócio e hoje é no Instagram que as sócias fazem fast-lives e montagem de looks para atrair clientes. É um caminho que dá muito certo, pontua a analista técnica do Sebrae no Vale do Itajaí, Fernanda Rosa:

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— O marketing digital tem contribuído muito para a divulgação dos brechós. Os empreendedores utilizam essas ferramentas de forma estratégica, através de parcerias com influenciadores digitais.

Daniela, aliás, é uma consumidora de brechós, mas agora, claro, a maioria das peças que usa sai do próprio espaço. Tanto ela quanto a sócia sempre levaram em conta a pegada sustentável do negócio, de considerar o impacto ambiental que a produção de novas peças de roupa causa.

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— O mercado do brechó é um mundo sem volta. Existe uma consciência muito grande, principalmente na nova geração, que faz entender que o reuso das coisas é necessário. A indústria da moda é a segunda em poluição, só perde para o petróleo. A sustentabilidade é fundamental — frisa.

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Um novo momento da moda

Francisco Ponciano Vieira, professor do curso de Moda da Furb, acredita que o aumento da popularidade dos brechós em Blumenau pode ser atribuído a diversos fatores. Um deles é a mudança de mentalidade em relação ao consumo, com um número crescente de pessoas buscando alternativas sustentáveis e conscientes. O que, na visão dele, só deve crescer nos próximos anos.

— Os brechós se destacam como uma opção acessível para adquirir roupas e acessórios de qualidade, promovendo a reutilização e evitando o desperdício. Essa nova perspectiva de consumo alinha-se com valores de sustentabilidade e contribui para a construção de uma moda mais consciente e responsável — pontua.

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Além disso, Vieira destaca que os brechós têm um impacto econômico significativo em Blumenau.

— Eles oferecem oportunidades para empreendedores locais, impulsionando a economia criativa e gerando empregos. Muitos brechós são pequenos negócios familiares que contribuem para a renda das famílias e fortalecem a economia local, a exemplo do brechó Mundo Barth — exemplifica.

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