Nem sempre uma grande história começa com um plano de negócios. Às vezes, ela nasce de uma necessidade simples, no dia a dia de uma propriedade rural. Foi assim com a família Debiasi, em Ipuaçu, no Oeste de Santa Catarina. A cana-de-açúcar que hoje dá origem a cachaças artesanais, vinhos, licores e outros produtos foi plantada décadas atrás com um objetivo bem diferente: proteger o solo da propriedade contra a erosão.
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O que começou como uma solução para preservar a terra acabou atravessando gerações e se transformou na base de uma agroindústria familiar que hoje une tradição, memória e produção artesanal.
Como produção teria começado?
A história remonta à década de 1940, quando o agricultor Ivo Debiasi chegou ao Oeste catarinense durante o processo de colonização da região. Como muitas famílias da época, encontrou uma realidade marcada pelo trabalho pesado, pela ausência de máquinas e pela necessidade de construir tudo praticamente do zero.
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Com um terno de mulas, Ivo participou do transporte de madeira utilizada na colonização, levando cargas até a balsa do Rio Uruguai. A agricultura era a principal fonte de sustento da família, e cada decisão precisava garantir não apenas a produção, mas também a preservação da propriedade.
Foi nesse contexto que ele trouxe de São Paulo mudas de cana-de-açúcar. A intenção não era produzir bebidas, mas utilizar a planta para conter a erosão em áreas de relevo acidentado.
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A estratégia funcionou. As raízes ajudaram a proteger a terra e garantiram mais estabilidade ao solo. Sem imaginar, Ivo também plantava as sementes de uma história que seguiria viva por décadas.
— A gente costuma dizer que tudo começou por causa da cana. Meu avô não pensava em produzir cachaça nem em montar um negócio. Ele só queria cuidar da terra. Hoje, quando a gente olha para trás, percebe que foi justamente aquela escolha que permitiu que toda essa história existisse — conta Clariane Debiasi.
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O alambique nasceu da tradição familiar
A cana permaneceu na propriedade durante anos até ganhar uma nova finalidade. Depois da morte de Ivo, em 1983, o filho José Hilton Debiasi decidiu aproveitar os conhecimentos que havia aprendido com a sogra para produzir cachaça de forma artesanal.
Sem grandes estruturas ou equipamentos modernos, o processo era conduzido praticamente da mesma forma como havia sido ensinado dentro da família. O cuidado com a escolha da matéria-prima, o tempo de fermentação, a destilação e o armazenamento eram feitos respeitando técnicas transmitidas entre gerações.
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— Meu sogro sempre teve muito cuidado com cada etapa da produção. Nada era feito às pressas. A qualidade sempre vinha antes da quantidade, e isso acabou criando uma relação de confiança com quem comprava a cachaça — lembra Clariane.
A produção cresceu aos poucos, impulsionada principalmente pela confiança dos consumidores da região. Cada garrafa carregava muito mais do que uma bebida. Levava junto a história de uma família que sempre viveu da agricultura e que soube transformar aquilo que produzia em um produto de identidade própria.
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— O André praticamente cresceu dentro da fábrica. Ele acompanhava o pai desde pequeno e conhecia todo o processo. Quando percebemos que meu sogro já não tinha mais o mesmo interesse em seguir à frente da produção, entendemos que aquela história não podia terminar — afirma.
Da uva ao vinho
Os anos seguintes trouxeram novos capítulos para a propriedade. Em 2005, a família decidiu investir no cultivo de uvas e implantou um hectare de parreiral. A ideia inicial era comercializar apenas a fruta, mas logo surgiu uma nova oportunidade.
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As uvas passaram a ser transformadas em vinho, ampliando a produção da propriedade e abrindo espaço para novos produtos artesanais.
Ao lado da cachaça, começaram a surgir também licores, geleias e açúcar mascavo, todos produzidos mantendo o caráter artesanal que sempre marcou a história da família.
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A sucessão que evitou o fim da história
Como acontece em muitas propriedades rurais, chegou um momento em que o maior desafio deixou de ser produzir e passou a ser garantir a continuidade da atividade. Em 2018, André Debiasi e a esposa, Clariane, decidiram assumir o negócio da família.
André cresceu acompanhando o pai no alambique. Desde criança conhecia a rotina da produção, o cultivo da cana, o cuidado com cada etapa e o esforço necessário para manter a atividade.
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Quando o casal passou a pensar no futuro da propriedade, percebeu que existia ali algo maior do que uma tradição familiar. Havia potencial para transformar aquele trabalho em um empreendimento capaz de crescer sem perder sua essência.
Naquele período, José Hilton já não demonstrava o mesmo interesse em continuar conduzindo a produção. Foi então que André e Clariane decidiram dar sequência ao legado iniciado pelo avô.
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— Nós tínhamos uma história muito forte dentro da propriedade, mas entendemos que era preciso profissionalizar. Queríamos manter a essência familiar, mas também entregar um produto com qualidade, segurança e reconhecimento — afirma Clariane.
A decisão exigiu investimentos e mudanças profundas. A família construiu uma nova fábrica, adequou os espaços de produção, buscou assistência técnica, regularizou a agroindústria junto ao Ministério da Agricultura e passou a investir em capacitação para aperfeiçoar processos.
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Sem abrir mão da produção artesanal, a propriedade ganhou estrutura para ampliar a produção e alcançar novos mercados.
— Nós nunca pensamos em transformar a Casa Debiasi em uma indústria sem identidade. O nosso objetivo sempre foi manter o jeito artesanal de produzir, preservar a história da família, mas oferecer um produto cada vez melhor para quem chega até aqui — diz Clariane.
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Um legado que continua sendo escrito
Hoje, a Casa Debiasi reúne diferentes produtos elaborados dentro da propriedade, como cachaças, vinhos, licores, geleias e açúcar mascavo, todos inspirados em receitas e conhecimentos acumulados ao longo de décadas. Embora a agroindústria tenha crescido, a essência permanece a mesma.
— Às vezes a gente para pensar e percebe que tudo nasceu de uma decisão muito simples: plantar cana para proteger o solo. Hoje ela continua protegendo a nossa família, mas de outra forma. Foi dali que nasceu o nosso trabalho, a nossa renda e o legado que esperamos deixar para as próximas gerações — conclui Clariane.
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